Monday, July 27, 2015

Carta a um amigo

Gonçalo, meu caro

Você quer especializar-se em imortalizar o insignificante? Eu já não sei se admirar a modéstia das suas ambições e do seu destino ou se lamentar vê-lo desperdiçar o seu talento com ninharias. O amor será tão importante como você parece fazer-nos  crer? As pessoas em quem você o dramatiza, as que nos decepcionam, serão tão  interessantes como você parece crer? Essa Betty que você inventou é o fantasma ressuscitado de alguma donzela a quem se deveria erigir uma estátua? Leio-o e perco-me no labirinto das suas histórias. De que adianta queixarmo-nos de não termos sido compreendidos? De que adianta sofrermos por nos terem traído aqueles que pareciam amar-nos? Você sabe tão bem como eu que a isso se reduz a história da humanidade e que ora nos calha trair e decepcionar, ora nos calha ser traídos e decepcionados. Saber isso não o impede de se torturar, pelos vistos. Ou não se tortura, só se consola ironicamente a constatá-lo? Confesso que não sei se você se diverte a escrever essas histórias; ou se é essa a sua maneira de se rir da despropositada seriedade das nossas paixões. 

Quando nos encontrámos a semana passada em Marselha e conversámos longamente naquele simpático restaurante do Vieux Port, surpreendeu-me não o descobrir pesaroso nem amargurado. Afinal a sua obsessão com a Betty deve ser só literatura e nem você a leva muito a sério. Você encostou o carro ao passeio, saiu lá de dentro impetuosamente, com um ar tão decidido! Eu sorri sem querer. Vi que você não perdeu o gosto de viver, que o animam e divertem vários projectos, que apesar de o caracterizar uma certa lucidez cínica você continua a ser uma pessoa mentalmente sã. Enfim, pelo menos parece. Recordo-me de uma frase sua: se eu morresse agora, alguém que soubesse de mim e da minha vida o que eu sei poderia dizer que não cheguei a pôr em prática o que aprendi sobre a vida, que não cheguei a viver. Mas você diz essas frases trágicas com os olhos brilhantes e um sorriso de desfaçatez nos lábios, de modo que não consegue inquietar ninguém com o seu pessimismo aparente. Saí de ao pé de si pensativo, mas bem disposto. A grande questão talvez seja essa: não sabemos pôr em prática o que aprendemos sobre a vida. Ou não temos tempo para isso porque a vida é curta.

Cheguei a casa e fui ouvir o segundo movimento do quarteto opus 76, nº 5,  de Haydn, esse Largo cantabile e mesto que você me disse ter ouvido pensativamente várias vezes nos últimos dias. Fechei os olhos e concentrei-me a ouvi-lo. Pacificado, fui recordando a nossa conversa e quis escrever-lhe estas linhas. 

Seu sempre.


J. E.  Soice