Friday, December 28, 2007

Dívida

Posso pagar-me em sintomas,
enquanto espero pela vingança final?

Monday, December 24, 2007

Deus

Deus não existe certamente, embora eu preferisse que ele existisse. A ausência de Deus deixa-nos com os nossos problemas, muito menos interessantes provavelmente do que os que teríamos se Deus existisse. Que nos fica? A luta pela vida, nos seus diversos aspectos: dinheiro, sucesso, amor, sexo, poder. Às vezes, porém, a contemplação desinteressada da natureza, das pessoas, de tudo o que existe faz-nos infantilmente felizes. Descobrimos harmonias, sentimos saudades antecipadadas de nos irmos embora do mundo e da vida. Aqueles que citam a autoridade e o exemplo divino para nos oprimir e tornar a existência mais árdua querem convencer-nos de que acreditam em Deus. Mas nós sabemos que eles só recorrem (abusivamente) à existência de um ser superior para melhor justificar a criação de uma sociedade cheia de injustiças e imperfeições, cruel e desumana. Deus serve-lhes de desculpa. O Deus que eles nos querem fazer acreditar que é o deles não pode existir, se existisse seria um canalha como eles e eu, por exemplo, não queria ter nada a ver com tal criatura. Quem quereria? Mas eles sabem o que fazem. Cinismo. Estamos sozinhos. E porque podemos falar, cantar, escrever, pintar, vamo-nos distraindo a querer entender, muitas vezes a criticar e condenar, outras a elogiar. Tanto faz? Não. A inexistência de Deus não justifica que se despreze a vida. Ao mal que nos ameça compete-nos opor o bem de que somos capazes. Ao desamor devemos responder com o amor, ao vício com a virtude, à injustiça com a justiça. Ficou-nos essa obrigação moral da educação religiosa que recebemos. O Pai Natal também não existe e no entanto faz muitas pessoas felizes. Na invenção de Deus não colaboraram apenas aqueles que queriam oprimir, explorar, reprimir, torturar, as forças do mal, os detentores de armas de destruição; colaboraram também muitas forças positivas, as forças do bem, gente justa.

P.S. Dito isto, acreditar na existência de Deus e não acreditar na existência dos discos voadores nem dos fantasmas, por exemplo, revela dualidade de critérios. Nos dois casos há quem pretenda acreditar na existência de entes que a maioria (a quase totalidade dos mortais, ao longo de séculos) nunca pretendeu ter visto. E que diferença é que há, então, entre quem pretende ser Napoleão e quem pretende que Deus existe? O pretenso Napoleão tem existência física, visível, e o seu erro é tomar-se por quem não é (ilusão de que muitos de nós - todos? - padecemos). Nestas histórias de crenças, de critérios de avaliação da loucura, etc., deixam-se entrever as contradições em que vivemos. There is no choice though.

Friday, December 21, 2007

Natal?

Eu gosto do Natal, é uma época propícia à melancolia. Podemos abandonar-nos ao prazer de o detestar e de embirrar com quem anda na rua a preparar-se para o festejar, o que é consolador. Não tenho casa nem tenho nenhuma mulher na minha vida. A questão da casa vai resolver-se. A questão da mulher é mais difícil: só me empenho se acredito e acredito com dificuldade, mas um dia destes distingo uma pessoa entre as outras, tomo a decisão de a conquistar para o amor - e se acreditar o suficiente nisso, acabarei por tê-la ao meu lado, feliz. Depois trata-se de não dar à dúvida a possibilidade de me impedir de partilhar alguma coisa com as outras pessoas.

Thursday, December 20, 2007

Como vai o mundo?

Paulo Portas é o político mais "fake", "phony" e ambicioso qua anda por aí. Para dar nas vistas recorre repetidamente, na sua insignificância, a subterfúgios risíveis (mas ele quer-se sisudo e grave, não se ri). Cada vez que ele exige a presença de um ministro no Parlamento para explicar isto ou aquilo, a gente sente a necessidade que tem o personagem, na sua vacuidade, de acreditar que interfere com a História, de se dar por importante, de intimidar. Mas quem é que o leva a sério? A minha mãe, que sabe distinguir o verdadeiro do falso, o bem do mal, quando o vê na televisão fica irritada e desata a proferir imprecações. Eu acho a sua reação muito saudável.

Os japoneses acreditam em ovnis e acham que o exército deve estar preparadao para agir se eles invadirem, um antigo e fanático ministro PSD acredita em Deus e em Durão Barroso, o Presidente da República acredita que faz parte da sua missão ir informando o povo de que está muito preocupado com isto e com aquilo - e com mais isto e com mais aquilo. Cada um acredita no que quer.

Antonin Artaud pensava que "toute l'écriture est de la cochonnerie". E que "les gens qui sortent du vague pour essayer de préciser quoi que ce soit de ce qui se passe dans leur pensée, sont des cochons." Pare ele, que nem sequer viveu em Portugal, "toute la gent littéraire est cochonne, et spécialement celle de ces temps-ci." Que essa gente das letras, com as suas manias e fantasias sem interesse, a rebentar pelas costuras de tiques de estilo, seja pouco recomendável, eu entendo. Mas porquê "des cochons" em particular, ó Antonin? Eu sei, Lacan também disse que "publier c'est poubelliser". Dão-me ambos razão, afinal, quando eu afirmo que só o silêncio é verdadeiro, incontestável, rigoroso, honesto, admirável. E depois de saber que tenho razão, recomeço a escrever, escrevo sem parar. É que gosto do Eça, do Camilo, do Tchekov, do Tolstoi, do Machado de Assis.

A prova de que a literatura portuguesa está a desaparecer encontra-se nas livrarias portuguesas. Estive lá e não me apeteceu comprar nada do que estava em cima das mesas, proposto aparentemente como "o que é bom". Give me a break. Entretanto tive nas mãos uma elaborada tese de mestrado, com muitas citações de alguns autores reputados e de alguns autores perfeitamente tontos, sobre um soi-disant poeta português contemporâneo, fraquito, sem grande interesse, que ninguém a não ser a menina que escreveu a tese deve saber quem é. A indústria da alma e das visões do mundo tornou-se, mesmo nas universidades, uma coisa tão "pop"! Escrever para quê? Não adianta, os chamados serão muitos, os escolhidos muito poucos. Eles não entendem.


Sunday, December 16, 2007

O erro: benefícios

Durante alguns anos suportei-a. Porque a quem amamos perdoamos tudo. Eu amava-a e estava à espera dela: sem o saber ainda, ela viria ao meu encontro no futuro. Enganei-me. Em vez de se aproximar de mim, ela quis afastar-se. Seduzida por outras promessas, por um destino diferente. Que parvoíce, que desperdício. Com o seu comportamento desastrado, com as suas repetidas ausências, com os seus subterfúgios e ignorância, ela acabou por arruinar a minha fé, destruiu a minha esperança, deixou-me cheio de dúvidas: afinal o que é viver, o que é o bem e o que é o mal, o amor não será apenas uma ingénua tontice, em quem e em quê é que devemos acreditar? Convencera-me de que fazia parte do percurso acidentado que nos havia de reunir um dia ela hesitar, errar, perder-se de si própria e de mim. Quando finalmente entendi que o amor falhara e nos separámos senti-me defraudado e revoltei-me violentamente contra tudo o que na minha vida, enquanto lhe perdoava a ela a sua imperfeição e suportava a sua mediocridade, era simultânea aceitação, muito conformista, de formas de pensar e de viver que eu menosprezava e odiava. Separar-me dela teve uma enorme vantagem: obrigou-me a reflectir, abrindo-me novos horizontes; levou-me a recusar ideias, convicções e comportamentos que até aí, generoso, ignorante ou comodista, eu não pusera ainda radicalmente em causa. Abandonado, desiludido, abri com surpresa os olhos para a realidade e ela pareceu-me detestável. Progredindo no entendimento do que nos acontece e do nosso destino, comecei uma vez mais a renascer das cinzas. Para quem tem o tempo contado, eu dera provas até aí de uma inocente irresponsabilidade, de uma preguiçosa indiferença. Tantos anos perdidos a respeitar maneiras de pensar e de viver tolas, injustificadas. Antes de me separar dela havia muita coisa que eu ainda não tinha percebido e a minha opinião sobre mim e sobre a vida era mais limitada. Os desaires nas relações - radiografias do nosso carácter e sintomas do nosso destino a exigir interpretação - são muito mais importantes na nossa aprendizagem da existência do que nós imaginamos.

Como o amor nem sempre é reconhecido como sendo o amor, acaba por não bastar muitas vezes, apesar de existir, para ligar de maneira duradoira duas pessoas. Não amadurece, não se aprofunda; é sufocado, negado, menosprezado. A insatisfação nasce nestes casos, tudo parece sugeri-lo, da ignorância do que não se sabe que se ignora, da desvalorização do que se possuía. O amor é um mito. Mas como saber antes de o aprender aquilo que não se sabia? Sequiosos de plenitudes imaginárias, os amantes partem cada um para seu lado, mais ou menos confiantes, à procura do amor que pensaram que não tinham. Até descobrirem, através da experiência, que se iludiram e fizeram tolice. Como voltar atrás é difícil, a busca continua, interminavelmente. Às vezes perturbada romanticamente por uma contraditória, inútil e injustificada saudade do amor que, por leviandade, falta de carácter e imaturidade, se perdeu.

(Caderno azul)

Saturday, December 15, 2007

Como se

Que outras pessoas tenham passado por mim sem me conhecer, entende-se. Mas ela, que viveu perto de mim meses e anos, que me viu dormir e me ouviu respirar perto do seu rosto, não tem desculpa por não ter entendido. A traição não foi ela ter procurado ou aceite, tentando libertar-se de mim e do amor que sentia por mim, uma ilusória e frágil intimidade com outra pessoa. A traição foi ela ter passado por mim como se eu fosse um pobre de espírito tão banal, tão pouco interessante como o tipo com quem ela se contentou a seguir a mim. Para tamanho pecado não há redenção.

(Caderno azul)

Tuesday, December 4, 2007

Pessoas

Porque razão é que dou tanta importância às pessoas, aos outros, na minha vida? Eu não me espanto, acho natural, mas há quem se espante, já me o têm dito. Não sei explicar nem quero. É assim, pronto. Provavelmente é uma consequência da minha educação cristã. Eu não penso nisso, não sou religioso. Mas, toutes proportions gardées, devo ter aprendido a considerar os outros como se considera Deus: merecem-me respeito, inspiram-me curiosidade e afecto. Pelo menos a priori e antes de os conhecer. Depois de os conhecer às vezes acho-os menos dignos de atenção ou claramente insuportáveis para a pessoa que eu sou - provavelmente porque escondem a pessoa que são por detrás de máscaras sociais que em vez de suscitarem interesse acabam por irritar e enfastiar. Encontrar e conhecer "pessoas" não é fácil: dá trabalho, é razão de malentendidos e de frustração. Pesam sobre nós de maneira excessiva os códigos sociais, os comportamentos aprendidos, as más experiências feitas anteriormente. É pena. Não há nada mais apaixonante do que uma pessoa, um ser humano com as suas crenças, experiência, qualidades, visão do mundo, projectos, remorsos e penas, alegrias, solidão interior.

Saturday, December 1, 2007

Um poema

Querida Antónia,

Não me deixes demasiado só. Temos de estar atentos ao que vai acontecendo, pois nada do que existe existe eternamente, a morte ameaça de todos os lados.

O amor não é bicho que se possa alimentar a si próprio durante muito tempo, necessita de alimento que lhe chegue de fora. Será por isso que quem ama gosta de inventar intrigas, histórias, complicações?

Fui a Los Angeles. Sabias que estiveste sentada comigo em Sunset Boulevard a comer um “angel hair primavera” e a tomar café, que fomos os dois ver discos à Tower Records? Gostei da tua companhia, tu és uma querida.

Existirá o amor? Para quem acredita, ele existe certamente. Mas às vezes é mais cómodo não acreditar.

Nem tudo o que eu digo merecer ser levado a sério. Não ligues. Tenho estado tão isolado que quando tenho a quem falar ou a quem escrever abuso logo.

Antónia, tudo isto é um sonho, a minha relação contigo não entra nos códigos normais e eu não sei o que significa para ti gostar de mim nem para mim gostar de ti. Seria preciso desrespeitar tantas convenções, ter tanta coragem para continuar. Estou contigo, tu estás sempre comigo, mas até quando é que este delírio vai resistir às exigências da realidade? Se houvesse Deus e eternidade - e lagos e florestas na eternidade - creio que preferia esperar por ti lá. Ando nervoso, angustiado, não sei porquê. Às vezes atrai-me o abismo, deixar-me escorregar lentamente, ir desaparecendo, fugir de tudo, destas aparências, deste mundo de sombras. Mas isto passa.

Eu não te quero perder. Mas quando tu te quiseres ir embora, eu entendo. Tens de viver a tua vida, acabarás por esquecer esta loucura. Se te imagino nos braços de outro homem fico triste, mas sei que me amaste tanto quanto foi possível e enquanto foi possível.

O que é um poema, tu sabes? Olha, isto é um poema:

“Some proteins can take on two
conformations: one that is quite
stable in water, and another that
is triggered (induced) by contact
with the hydrophobic cell membrane.”
Leio estas palavras e elas
dizem: eu amo-a.

Teu, sempre.

Gonçalo

(Caderno verde)

Não haverá Verão

Querido Gonçalo,

Recebi os teus postais, pareces triste, pelo menos num deles. A tua letra é um bocadinho difícil de ler, mas acho que consegui.

Passas o Natal sozinho? Não bebas demasiado, mas ficar alegre não faz mal nenhum, é uma sensação muito boa.

Não, tu não és o terceiro em coisa nenhuma, em muitas és o primeiro, mas isso tu sabes. E eu não te quero atormentar. Estive zangada contigo porque às vezes não entendo o teu sentido de humor, brincas com coisas sérias e eu fico perdida, não sei o que pensar. Agora, depois da nossa conversa telefónica, já entendo tudo e estou mais calma, sei com o que conto, o que para mim é essencial.

Lembras-te que há uma semanas atrás me chamaste sopeira? Sim senhor, olha que lindo elogio. Nem quero acreditar. Mas então não nos conhecíamos como agora e tu estavas desconfiado, pensavas que eu não era eu. Por isso perdoei-te.

Chove torrencialmente lá fora, este ano parece que não vai haver Verão.

Quem sabe se um dia não me convidam para dar uma conferência aí, no Departamento de Física, ficava a conhecer o sítio onde tu vives.

Não te esqueças de mim. Meu amor, I love you.

Antónia

(Caderno verde)

Sunday, November 25, 2007

Invenção masculina

A Betty, ao telefone:


Toda essa mística à volta do amor é uma invenção masculina, despropositada e perfeitamente infantil; nós, as mulheres, temos os pés bem assentes no chão e não perdemos tempo com parvoíces; vocês são cansativos e nunca mais crescem nem abrem os olhos.




Eu:


Yeah, right, Betty!


(Caderno Azul)

Sunday, November 18, 2007

Dúvidas

Creio que não tenho paciência para continuar a explorar velhos cadernos. Que interessam as nossas (minhas) histórias sempre iguais, repetição do repetido? O melhor não seria queimar todos esses cadernos com capas de cores diferentes onde provavelmente tentei perceber ou ocultar a mim mesmo as razões de acontecer o que acontece? Se serviram para reforçar a minha crença na unidade e coerência do eu, essas páginas cumpriram o seu destino e podem agora apagar-se. Se não serviram para nada também não quero que sirvam de depósito de memórias que alguém (e eu próprio) pode usar para reconstituir erradamente o passado, ficando escravo dele nessa versão duvidosa. Vou pensar no assunto. Bem sei que o silêncio só os deuses o podem praticar com convicção e sem esforço. Mas nós, pobres humanos, só nos engrandeceríamos na nossa modéstia se ficássemos calados mais vezes.

Friday, November 16, 2007

Procura e encontra

Irritado com a insatisfação da Betty, que acha que as nossas relações amorosas não correspondem às suas expectativas iniciais, escrevi-lhe um bilhetinho: se achas que o que existe entre nós não é amor, viaja, procura, experimenta até encontrares melhor - e se encontrares diz-me qualquer coisa para eu poder beneficiar da tua experiência e me aperfeiçoar.


(Caderno Azul)

Thursday, November 15, 2007

Dia cheio

Dia cheio. Fomos a Portobello, depois fomos à Tate ver a exposição de Lucien Freud (também vi os quadros de Turner que lá estão). Depois a Betty não queria ir para casa e fomos a Richmond, ao parque, andámos a pé no belo jardim, perto do rio, no campo. Tirámos fotos. Foi bom. A Betty diz tontices: "tu és o meu amante eterno". Depois, mais tarde, diz que gosta de mim mas que não poder falar de mim aos pais estraga tudo. Além disso tem medo de ficar sozinha. O criador de éguas que lhe anda a fazer a corte não lhe diz nada, não lhe inspira nem paixão nem desejo particular, diz ela. Acredito? Claro que não. A parte dela que é sincera e a parte dela que é manipuladora são impossíveis de distinguir. Se eu tivesse algum bom senso já tinha terminado esta relação absurda há muito tempo. Mas falta pouco, ela no Verão fica em Portugal e vejo-me enfim livre destas inquietações permanentes.

(Caderno Azul)

Wednesday, November 14, 2007

Que paz

A Antónia e eu amamo-nos como duas crianças. Eu fico comovido com a alegria dela, o entusiasmo dela, a ternura dela. A nossa relação não vai durar sempre, eu sei, ela é muito nova. Como eu não quero impedi-la de viver a sua vida, um dia destes tenho de obrigá-la a distanciar-se de mim, a voltar à realidade. Que pena. A minha vida fica vazia de novo. Mas tê-la conhecido fez-me acreditar que o amor ainda é possível. Eu gosto de mulheres, mas prefiro as raparigas. Claro, há mulheres que nunca deixam de ser raparigas, mas são raras. A energia da Antónia, a sua generosidade, a sua coragem e os seus projectos são um bálsamo para a monotonia da minha vida.

Querido Gonçalo



Hoje de manhã não havia electricidade, entrei em pânico, não podia ver se tinha email teu. Agora por milagre a corrente voltou. Mas hoje ainda não me escreveste.

Vou ter um cãozinho preto, é tão querido. É muito pequenino ainda, um bébé. Apetece-me beijá-lo da cabeça aos pés. Deram-no ao meu pai, um colega da Faculdade. Hei-de tirar-lhe uma fotografia e mando-ta. Mas tens de o ver quando cá vieres, em Junho.



Tu dizes-me para sonhar menos. Não aprendeste comigo que a vida é feita de sonhos?


Que dia fantástico, que paz, que calor.


Adoro-te, meu amor. Love you, think of you all the time.


Antónia

(Caderno Verde)

Friday, November 9, 2007

Mal-entendido

Carta à Antónia, sexta à tarde

Pena que precises de me deixar sem palavras tuas. Não entendo as punições de amor nem o medo do amor. A confiança e a amizade profunda protegem do perigo, o amor profundo até protege do desencanto. Mesmo correr riscos é um acto de amor generoso: pomos acima dos nossos medos e confusões a tranquilidade da pessoa amada, entregamo-nos e dormimos descansados porque o outro não nos trai nem nos fará mal. Não, nem telefono nem escrevo, por ora. Amo-te, mas vai para o diabo durante o longo fim de semana. A solidão também me convém, só que não fui eu que a escolhi desta vez.

Se chovesse no infinito onde caía a chuva? Em lado nenhum. O infinito é o vazio, não há lá nada, só espaço. Portanto a chuva só caía. Ia caindo sempre e antes de ser chuva não era chuva e depois transformava-se noutra coisa que não era chuva. Etc. O amor de um amante sem objecto é um amor semelhante.

Gonçalo


Resposta da Antónia, segunda-feira de manhã

What are you doing? Where are you? You had your revenge because I was mad at you and I forgot to disconect one of our machines before I left to the week-end. I don’t know what to do. Maybe I will be fired. If I’m fired you will never hear from me again because I will no longer have an email.

O que se passa é que eu na sexta-feira tinha-te escrito uma carta à mão e estava toda feliz porque tu me tinhas dado o espaço de que eu precisava. É então que eu oiço a tua mensagem no telefone e leio a tua mensagem no email. Fiquei fora de mim, não podia acreditar que tinhas dito aquilo, que tu possas falar assim comigo. Fui-me embora num impulso e deixei uma máquina ligada durante o fim de semana, inutilizei doze dias de trabalho. Foi isto que aconteceu. Porque é que tinhas de estragar tudo?

A. W.

(Caderno Verde)

Tuesday, November 6, 2007

Acusações

What belongs to a language game is a whole culture.

Wittgenstein, LC, I.26

A Betty acusou-me de só me interessar pelas pessoas para as dissecar e poder escrever sobre elas. Tu nunca amaste ninguém a sério, nem amarás, não chegas tão longe, disse ela, agressiva. Não chegas longe porque vês depressa de mais, entendes depressa de mais, entusiasmas-te ou desinteressas-te depressa de mais. E além disso não acreditas muito no que te dizem, ficas a observar. É isso, as pessoas a ti só te interessam como animais de laboratório, para as observares e interpretares. Ora, respondi eu, deixa-te de teorias absurdas, tu sabes bem que estás a inventar. Ela insistiu: que eu necessito de permanentes estímulos exteriores para escapar ao tédio e me entregar ao meu vício, que é escrever; que o amor, eu só o conheço como objecto de análise, como pretexto para o meu pessimismo existencial; que em vez de perder tempo a descobrir intrigas que escapam a outros, o que não é bom, eu devia deixar de pensar e limitar-me a ser, a estar onde estou, inocentemente. Claro, vociferou ela, todos os amores são imperfeitos. Mas tu exiges perfeição mesmo no amor, queres os cem por cento, não te bastam os trinta, cinquenta, setenta ou oitenta por cento, como à maior parte das pessoas. Mas eu sofro de verdade, respondi eu, o que nega veementemente a tua acusação. Não nega coisa nenhuma, retorquiu ela logo, prova é que até para ti mesmo tu és um animal a observar enquanto decorre a experiência. As relações amorosas interessam-te sobretudo como exemplo vivo do inevitável desentendimento entre as pessoas, um desentendimento que tu não queres deixar passar e pretendes usar como sintoma da inexistência do amor e da incapacidade humana de amar. Não pode ser, protestei eu, o que tu dizes tem pouco sentido, eu já amei e fui amado; estás a querer desculpar-te a ti própria. Ela olhou para mim irritada, calou-se e foi-se embora. Fiquei pensativo. Sinceramente, não sei que pensar, o que a Betty diz tanto pode ser verdade como pode ser mentira.

(Caderno Azul)

Monday, November 5, 2007

Paraíso

Ela escreveu-me. Fico sempre surpreendido com o que ela me diz. Ela idealiza-me. Um dia cai em si e percebe que me amou como quem tem um sonho bonito. Se ambos acreditássemos ao mesmo tempo na inevitabilidade do amor... talvez eu corresse o risco de ter contra mim a moral burguesa. Mas tenho de pensar na felicidade dela mais do que na minha.

I don't know what I feel for you, I'm learning slowly so I don't make mistakes. I know love is not eternal... but who cares, it's good while it lasts. Don't be angry and sad, you will lose something that will never come again.

E agora uma coisa que escrevi há muitos anos (há 6) e que está num dos meus diários: estar apaixonada é como viver no paraíso. Pensamos que vai durar sempre, é tão bom.

Eu podia ir aí lavar-te a loiça, mas é muito longe. Eu acho que não seria muito infeliz como dona de casa, gosto de me dedicar às pessoas, é por isso que é fundamental para mim ter uma família.

I'm glad I'm your baby, you may be sleeping now, promise me that you will take care of yourself and quit smoking.

Imagina agora esse longo abraço em silêncio. É a minha maneira de me despedir de ti hoje.

Da tua

A. W.

(Caderno Verde)

Friday, November 2, 2007

Beethoven

1
São quase duas da manhã. Sento-me na sala a ouvir uma sonata de Beethoven. Não entendo porque razão as notas do piano criam em mim uma atenção tão intensa quando tocadas por Richard Goode. A lentidão minuciosa permite distinguir todos os sons. Mas ao mesmo tempo há rapidez no desfilar das notas. Há melodia, coerência, tensão e poesia. Em vez da agressividade e do heroísmo, sente-se a paciência, a bravura. Resplandecem a força, a limpidez da emoção. Os detalhes, as frases, são luminosamente postos em evidência, num fluir de profunda concentração. A tenacidade, a persistência, são virtudes americanas.


Assim me consolo das melancolias da minha vida solitária: a ouvir Beethoven. Distraio-me da falta de sentido actual dos meus dias, tenho consciência disso. Se se pudesse viver apenas para a arte (a música, a literatura, a dança, o cinema, a pintura) e para contemplar e respirar a beleza dos planaltos desertos e selvagens. Longe dos homens, perto da ideia de Deus provavelmente. Mas eu não acredito em Deus. E sei que sem experiência que do exterior a provoque e alimente, a arte morre. Porque penso coisas assim, então?


2
Na solidão do exílio que procurei, escrevo o diário dos dias de tédio. Anuncia-se a morte na vida monótona e sem amor. Quem não pode conquistar o que deseja, que faz da vida? Quem não se contenta com o que poderia alcançar, como sobreviverá? Rigor das palavras. Lucidez do espírito. O exílio é a situação ideal para o conhecimento da verdade da existência e do nosso destino: os aduladores ausentaram-se ou não os deixamos chegar até nós; os amigos e as amadas estão longe; falta-nos o apoio da casa familiar perto.




3
Entender uma pessoa é uma coisa. Entender uma obra de arte é outra. Não sei explicar, sei que é assim. Talvez o facto de a obra de arte se apresentar diante de nós sempre idêntica (eu sei, é diferente na música, no teatro e na dança) permita que nos concentremos excessivamente na experiência do entendimento e do sentir. Nas situações da vida quotidiana só a memória nos permite voltar ao objecto de investigação - e a memória é imperfeita, o trabalho de entendimento é mais frustrante e ao mesmo tempo depende mais claramente do que nós próprios isolamos como objecto a investigar.


(Caderno verde)

Thursday, November 1, 2007

About love (again)

Do you think I have a theory? Do you
think I'm saying what deterioration is? What I do is to describe different
things called deterioration.
Wittgenstein, LC, I.33




Woman
I loved you,
I really did.
But you know,
it’s time to say
good-bye.

Man
How many times
did you say good-bye?

I am not surprised
anymore.

Woman
You didn’t love me.
Did you do anything
to keep me? No,
nothing. Yet
I will never
forget you.

Man
I am sure
that you will never stop
thinking of me.
You can't.
You don’t believe
what you say,
you just say it.
But it’s the truth.
You will never be able
to put me behind you.
Woman
I loved you.
But I don’t know
what happened,
it’s gone.
You know that
I loved you,
don’t you?
But it’s gone
forever.
There is no
passion
anymore. No
excitement.
God knows how
it happened.

Man
You tried to put me
behind you so many
times. I always accepted
it. I accepted
to lose you,
you know it.
You were the one
who always wanted
to come back.
You couldn't
live without me.
You said it.
I remember.

Woman
You say that.
You didn’t really accept it.
You wanted to own me.
I was your thing.

Man
As I said,
you are the one who always
asked to return home.
I didn’t call you, did I?
You didn’t allow me
to live without you.
That's how it happened.


Woman
You didn’t love me.
But you could not accept
that you were losing me
because of another man.

Man
It’s not true.
I accepted to lose you.
I was fed up
with your childish behavior.
I started to reorganize my life
immediately. It was painful
in some way, but I did it.

Woman
I don’t believe you.
You wanted me back.
Say that it’s true.
That’s how you are,
you men. You cannot
accept losing a woman
to another man.
Is that love? It’s not love.

Man
As soon as you did understand
that I had accepted to lose you,
you would come back.
It happened at least twice.

Woman
How could I know
that I didn’t love
the other man
before I did understand
that I didn’t?

Man
You left,
then quite soon
you discovered that I
in fact was the man you loved.

Woman
Is it so surprising
that we sometimes believe
we love someone and then
soon we discover
that we don’t?
Or vice versa?

Man
Or vice versa? How nice.
You asked me
if I accepted you back
and I said yes.
But I was upset
with you, remember?
Little by little
you destroyed
our relationship.
With your stupid
behavior.

Woman
You see,
you didn’t love me.
You accepted twice
to lose me. I loved
you. I came back.
But again
you were not interested
in loving me.

Man
You wanted to stop
loving me. You wanted it
desperately. I could feel it.
I was tired of living with someone
who wanted to stop loving me.

Woman
You never loved me
as much as I loved you.
Admit it. You told me that.
You asked me to leave your
home. Remember? You told me
that it would be better for me to share
an apartment with a Danish girl
from my school.

Man
I said it, it’s true.
But I didn’t really mean it.
We never discussed it.

Woman
I started to look for
an apartment. You
wanted me to go away.
Man
Yes, that’s what I said
one night. For some reason
I was mad at you. But I never
thought about living without you.
Woman
Yes you did, I am sure
you did. You left me
at home alone several times,
you had dinner in expensive
restaurants with other women.
You pretended that it was work
but I know that it was not.
I was very sad.

Man
You were the one
who wanted to abandon me.
You are the one who said
that you loved someone else.
Then you started to lie
to me. I said I wanted
you to go away.
But you were the
one who wanted to leave.

Woman
Maybe I loved someone else.
That’s what I said: maybe.
Anyway, you didn’t love me.
Did you care when I started
to date the other man? You
didn’t care when I started
to go out with another man.

Man
You were lost
in your boring life,
then you met me.
I don’t think I believed
you could so easily stop
loving me and leave me
for another man.
We had been together
for two years. We were
friends. You don’t believe
that someone who has been
living with you for two years
can so easily run away.
It doesn’t make sense.
Not at my eyes.
You betrayed me.

Woman
You told me
that I was boring.
You wanted to get rid
of me.

Man
Maybe I didn’t know
what I was saying.
But you had already found
another man, true? The stupid
romance was already going on in
your head when I said that it was
better for you to go live with the Danish girl.


Woman
You admit that you said it.
Not just once,
but several times.You
recognize that you said it.

Man
Maybe I knew
that it was what
you wanted.

Woman
No, you didn’t.

Man
You were behaving
oddly.

Woman
No, I wasn’t.
You didn’t have the patience
to listen to me. You didn’t have
the time. We were having breakfast
or dinner and you would tell me to
shut up. I was interrupting
the flow of your thoughts.
I was always interrupting
the flow of something
in your life.

Man
Before you met that man,
you had accused me of loving my
ex-wife. You wrote me a letter
saying that you were sure I was
doing my best to get her back.
You were jealous and insane.

Woman
Never mind.
It’s too late now, isn’t it?
I’m leaving you forever.
This time it’s true.
Didn’t you tell me again
how boring I am? Didn’t
you tell me that you would
be happy after getting rid of me?

Man
I’m sorry. I was upset.

Woman
This time
you will get rid of me.
No need to get mad
again.

Man
I’m sorry.
I don’t know how it happened.
You were sick all the time,
remember?

Woman
I remember, yes.
How could I not remember?

Man
How many times
did I have to take you
to the hospital? Sometimes,
most of the time, I was sleeping.
Then you would awake me, you were
so afraid. You behaved like a child.
You couldn’t breath, remember?
Then you would put your head
on my chest and I could see
your dark eyes, the dark
eyes of a child. I loved you.

Woman
To live with you
made my life difficult.
You never wanted
to understand that.

Man
You were sick
when I first met you.

Woman
Not in the same way.
And then I met you
and I got better.

Man
For a while
you got better.
Then again
you were sick.
Afraid of being sick.

Woman
I was not strong enough
maybe. There was too
much tension. I couldn’t
tell my parents about you.
My mother would die.
She is younger than you.

Man
She is? I am not so sure.
You want to be like her.
You may hate her,
but you cannot think about
being a different woman.
The sickness is in your psyche.
You believe that because
you are going to live
with another man
you will be cured.
But the sickness is in your
character. The sickness is
in your mind. You cannot
get rid of it that way.

Woman
Whatever.

Man
I tried to make you
understand who you are.
You never wanted to
become a real person.
You should stop
lying to yourself.
You should try to understand
why you behave
the way you do.
You are odd.

Woman
Never mind. At least
you will not have to worry
about me anymore.

Man
I will always worry
about you. You know
that. You don't want
to look at reality, you
are living in an dream.
You think you are a
character in a novel.
A bad novel, I tell you.

Woman
You need to believe it maybe,
that you will always love me.
But we lived together many
years and you couldn’t show
me your love, how much you
loved me. You couldn’t.
That’s the truth, isn’t it?
I was real and you
couldn't see me. You were
spending all your time
in front of your
fucking computer.

Man
Was I? And why the hell was
I doing it? You don’t know.
You are not an easy person.
Maybe I need to believe
that loving you is something
I cannot get rid of. Something
I don’t want to get rid of. Something
that will never end.

Woman
And yet
it is not true.
You are tired
of me.
I am boring.
You don't care
about me. I am not
an interesting person
at your eyes. I saw you
talking to other women in
a way that you never
talked to me. It's sad.
It was depressing.

Man
Depressing? Do you
want to know something
about my own depression?
You know what? Maybe
it’s impossible to love you.

Woman
Impossible?
To love me?
Do you really believe
what you are saying?

Man
Yes. Impossible to love you.
You don’t want to be loved.
That’s why you get sick.
That’s why you can’t breath.

Woman
No. It’s not true.
How do you know?
Stop saying that
I am no good.

Man
That’s why you are afraid
that your heart is going to stop
suddenly. You fear love as if
love was a sickness.

Woman
No, it’s not true.
You are tired of me,
you don’t love me,
you can’t love me
and it’s not your fault.

Man
That’s why you cannot
get rid of your sickness.
You do not accept to be
loved, you are afraid
of love.

Woman
Now we will go separate
roads, you and me.
Finally. And you
don’t need to worry
about me anymore.

Man –
I will worry about you.
You know it, don’t you?
Whatever I say,
whatever you did or will do
to me, I will always worry
about you. You are a child.
A lonely child.


Woman

You wanted it
as much as myself.
That we go separate
roads. Say that it’s true.
It didn’t work between us.
Man
Yes, I did want it.
And you know why?
Because anyway you had
already left. You were already
far away. You have always been
far away, it was impossible
to reach you.

Woman
Maybe it‘s not true.

Man
You left me
longtime ago.

Woman
Maybe you are wrong.
How do you know?

Man
You left me so longtime ago.
It was impossible to reach you.

Woman
You like to tell stories.
You need to find an explanation
for everything. Maybe not everything
can be explained so easily. You cannot
know everything.

Man
Maybe not. You are right.
Not everything is what it seems,
not everything happened
as we think it did.

Woman
Maybe I never left you.
Maybe I never wanted
to get rid of you.

Man
I can’t believe you.
I’m sorry
but I can’t.

Woman
Maybe I’m still with you.
You love to tell stories.

Man
It could be as you say.
Maybe you are still with me.
But I don’t believe you.
You are lying to yourself.
You left me longtime ago.
You never came back.

Woman
You got tired of me.

Man
I tried to love you.
But there was nothing I could do.
You don’t want to be loved.
You think you do
but you don't.

Woman
You said so many times
that I was boring. Didn't you?
You never paid attention
to what I was saying.

Man
There was not much
I could do about it.
I got tired of loving you.
I couldn’t reach you.

Woman
I also got tired of you.
You also left me.

Man
You never believed
that I could love you.
You never believed that love
between you and me
was something that could last.
You wanted to get rid of love.
You got rid of love.
What did you get instead?

Woman
You are wrong. I believe
in love. You know how much
I believe in love.

Man
You learned how to deceive
people when you were a child.
You do everything people expect you
to do just to make people believe
that you love them. But you don’t.
You just learned
how to be left alone.

Woman
It’s not true at all.
I care about people.
I want to be loved.

Man
You don’t believe in love.
Maybe you want some love
from time to time. You get it
and then you leave.
Woman
How can you say
such a stupid thing?

Man
You have been living alone
in your small world. A very
private world. You never trusted
anybody and you still don’t.
At least in your small world
you feel protected, you feel
safe. Whatever it is to be
safe and protected.

Woman
I don’t know. I don’t know
and you don’t know either.
But you like to tell stories.
And you want me to believe
that you are telling the truth
and explaining everything.
You are so condescending.

Man
We all live in a small world.
In a small box.
It could be.
Confined in the walls
of our own private prison.

Woman
You want to believe that I am
out of the ordinary, that I am
different from other people.
Then you invent stories about me.
That’s a way of making me worth
your love. It’s nice.

Man
Maybe it’s exactly
as you say.
Who knows?

Woman
In your stories I am
a problematic character.
You see me as someone
who has interesting problems
to solve. Maybe it’s you
the one who has a lot
of serious problems to solve.

Man
Maybe. It may
well be
as you say.

Woman
I’m tired of talking to you.
We get nowhere and you know it.
We are wasting our time.
I have to leave now.
I know that you
don’t have any
envy of seeing me
again. You are
going to hate me.

Man
Maybe not.
Goodbye.

Woman
You wanted to possess my soul.
It’s impossible. You know it,
don’t you?

Man
Yes, I know it.
Goodbye.

(Caderno Azul)

Monday, October 29, 2007

Vagabundo

Voltei ao meu apartamento na província depois de ter passado duas semanas a viajar. O tempo mudou, agora está mais frio. Eu gosto do frio. Saio de casa a meio da tarde para ir tomar uma bica no centro da cidade. O dia está bonito, o sol brilha, há gente nas esplanadas a conversar, a beber cerveja ou sumo de laranja. De um café próximo chega-me o ruído de um coro infantil desordenado e de um batuque. As pessoas não sabem viver em silêncio. É pena. Que me ficou da viagem que acabo de fazer? Não sei bem, tenho de pensar nisso. Revi velhos amigos. Uns chatos. Muitos abraços e sorrisos, mas no fundo sempre a criticar-me, a dar-me lições. Imaginam-se superiores. Que Deus, se existe, os proteja, mas não me aborreçam com os seus pontos de vista sobre a minha pessoa. Um deles, que estudou num colégio de padres, levou-me a jantar a um restaurante e passou o tempo a chatear-me porque em vez de olhar para a barba dele eu olhava para as raparigas das mesas ao lado. Eu não o deixava contar até ao fim, e até ele ficar satisfeito consigo mesmo, as suas histórias sobre os malefícios e inconvenientes da idade? Deixava. Envelhecemos, as raparigas já não olham para nós, disse ele. Pois que não olhem, respondi eu, eu olho para elas e não me canso de as amar.

Dois dias depois fomos a uma exposição de pintura ao lado de um pub, ele levou-me no carro dele. Muita gente de gravata, umas senhoras elegantes ou mais ou menos, o costume. Tudo de copo na mão. Estava eu a falar com um funcionário do Consulado, ele chega ao pé de mim e pergunta-me: quantos anos é que tens? Conhecemo-nos há bastante tempo e não sabes quantos anos tenho, comentei eu. Mas disse-lhe o que ele queria saber. Ele fez cara de zangado, resmungou "merda" e foi-se embora apressado. Não percebi nada. Mais tarde percebi: era uma aposta. A minha resposta tinha-lhe feito perder dez libras porque ele pretendera, na discussão com outro amigo meu, que eu tinha cinco ou seis anos mais do que de facto tenho. Eu sei, no entanto, que aquilo da aposta não passou de encenação. Combinada com outro amigo, a vedeta que tinha vindo de New York porque fazia anos. Tratava-se de me fazer compreender, eles queriam que isso me entrasse bem na cabeça, que a juventude para mim passara, ia longe, e que já é tempo de me conformar com a tristeza dos dias que passam, com a impotência que ameaça, com a solidão, com a derrota. Não lhes serviu de nada querer educar-me. Eu saí apenas ligeiramente ferido e irritado da escaramuça. A minha confiança no futuro e em mim mesmo não diminuiu um milímetro. A minha consideração pela inteligência e pelo sentido de humor deles sofreu um abalo.

A minha filha, que estuda arte numa universidade dos arredores, veio ao jantar de aniversário da vedeta de New York. Mas estava um pouco adoentada e aborreceu-se, foi-se embora para casa mais cedo. A sua partida antecipada surpreendeu-me. Eu tinha imaginado que ela teria prazer em conversar com as filhas dos meus amigos, mas não foi o que aconteceu. Por causa disso fiquei um pouco irritado. Ao contrário de mim, pensei eu, falta-lhe a curiosidade acerca das pessoas. Bastou-me abrir a boca para lamentar a sua partida e eles, que são meus amigos, caíram-me todos em cima: és insuportável; coitada da rapariga, até estava adoentada; ela não fala português e por isso aborrece-se a ouvir-nos; que pai tirano, já não se usa. Deixei-os falar. Vão ver se chove. Aproveitaram mais uma oportunidade para tentar demolir-me. Perguntem à minha filha o que é que ela pensa de mim, é isso que conta. Gostava de saber o que é que as filhas deles pensam sobre eles e sobre o assunto, mas elas também desapareceram lá para dentro, na cozinha ou num quarto, não tiveram paciência para ficar a aturá-los.

Chegou o Outono, que é uma estação calma. Agora as pessoas põem mais roupa e roupa mais escura em cima do corpo, ficam diferentes. O próprio ambiente na cidade fica diferente. É uma mudança interessante. A nudez dos braços e dos peitos, na Primavera e sobretudo no Verão, tem qualquer coisa de festivo. Com a roupa de Inverno a tapar a pele, as raparigas e as mulheres ficam com uma aparência séria, compenetrada. Talvez percam uma parte do poder de sedução que têm sobre os homens, não sei. Eu não desgosto. Sempre tive uma simpatia e interesse particular por rostos sérios, quase tristes ou mesmo tristes. É como se à seriedade do rosto correspondesse uma maior profundidade do ser. Como se uma rapariga compenetrada escondesse em si mais mistério e adquirisse, por parecer triste, um ar mais afectuoso e mais digno de confiança do amor. Posso estar errado, mas é o que eu sinto, é o que eu penso quando vejo um rosto grave.


Havia uma rapariga de óculos escuros sentada na esplanada, a duas ou três mesas de distância da minha. Estava com um rapazito e uma senhora mais velha, podiam ser mãe, filha e neto. Talvez fossem, mas a rapariga não trazia aliança no dedo. Não era nenhuma beleza mas tinha um corpo bem feito, um rosto mais do que correcto, as mãos bonitas, vestia-se discretamente e com gosto. A dado momento levantou-se e foi lá dentro, ao café. Quando passou perto de mim o saco de couro que ela trazia no ombro bateu na minha cadeira, eu assustei-me, mas ela não parou para pedir desculpa. Voltou logo a seguir e continuou a conversa com a mãe e com o miúdo. Às vezes cruzava os braços e afagava o pescoço ou o cabelo com as mãos. Tinha as pernas cruzadas e de vez em quando mexia o pé esquerdo. Tinha umas pernas bonitas e estava de meias castanhas, o que contribuía para aumentar a impressão de seriedade que ela transmitia. O miúdo cansou-se de brincar com o jogo electrónico, ficou a esfregar os olhos. Batia-lhe o sol no rosto e ele estava um pouco cansado de estar ali sentado a ouvir a avó e a mãe conversar das coisas delas, pensei eu.

A monotonia. Tinha-me levantado de manhã meio deprimido, faltava-me a paciência para arrumar todos os livros espalhados pelo chão em vários quartos lá em casa. A minha vida era, é, uma desordem. Tenho dificuldade em pensar e em escrever. Não me apetece fazer nada, até parece que estou desanimado. Também é como se estivesse num planeta que não é o meu, há anos que não passava tantos meses em Portugal. Já não sei se é possível readaptar-me a isto, as pessoas metem-se muito na vida alheia, sabem tudo sobre nós, a vida delas e a nossa são influenciadas por valores diferentes. Portugal é um país pequeno, a gente acaba por sentir isso, tudo é pequeno, não há horizontes. E depois os mandarins abusam do poder. Por isso me fui embora. Questionei-me: entre esta realidade ou irrealidade e a outra, a Americana por exemplo, qual preferes? Eu sabia a resposta, de qualquer modo não há realidade ou irrealidade que por si só nos satisfaça, portanto é preciso fazer concessões, perder alguma coisa quando se escolhe. Seria possível, porém, que eu estivesse a sentir saudades da América? Do capitalismo mais selvagem? Tenho lá livros, roupa, o carro, uma rotina, alguns amigos, é por isso que penso em voltar, não é surpreendente, pensei logo a seguir.


A tarde ia morrendo, mas devagar. O trio mãe-filho-avó foi-se embora, vi-os afastar-se lentamente. Passou um jovem casal aos beijinhos. Uma senhora dizia a outra: esta é a tua filha? é tão gira. O canto insuportável das crianças desafinadas no café do lado não parava de me arranhar os ouvidos, era odioso. Uma rapariga pequenina e um pouco gordinha aproximou-se de mim e pediu-me um cigarro, eu dei-lho. A última vez que apanhara o comboio para Lisboa eu tinha-me esquecido de comprar tabaco. No comboio não vendiam. Perguntei a um homem que vira a fumar à entrada da carruagem se por acaso não tinha um cigarro que me pudesse dar e ele respondeu-me com ar seco e enfadado que não tinha. O tipo deve ter-me tomado por algum vagabundo teso ou oportunista, embora eu estivesse mais do que decentemente vestido. Mas, reflectindo bem, provavelmente era isso que eu era, que eu sou: um vagabundo sem vergonha na cara que se senta nos cafés a olhar para as pessoas e a imaginar histórias e que quando não tem cigarros não hesita em pedi-los a um desconhecido.

Bumper stickers

Alguém me mandou estas frases divertidas:


The sex was so good that even the neighbors had a cigarette.


A bartender is just a pharmacist with a limited inventory.


Wanted: meaningful overnight relationship.


Laugh alone and the world think you are an idiot.


Don't drink and drive, you might hit a bump and spill your drink.


Always remember you are unique, just as everyone else.

Sorry if I look interested, I'm not.

Tuesday, October 23, 2007

Why?

Hoje vinha na rua e pensei: why am I wasting my time talking to people who suck? E não soube responder.

(Caderno azul)

Tuesday, October 16, 2007

"O outro"

1. Ia eu tranquilamente a pé por Piccadilly quando me pareceu ver o namorado actual da minha ex-girl friend. Como ela o modernizou, pensei eu logo. Óculos pequeninos, redondos, "à intelectual interessante"; casaco beige, recente; calças aceitáveis, limpas e bem passadas. Paranóia minha? Ou era mesmo ele? Se era ele, não deu mostras de me ter reconhecido. Fiquei a olhá-lo de longe, enquanto ele se afastava. Continuava a caminhar desengonçado, como um camponês da Raia de visita à cidade. Abanei a cabeça. Não há transformações perfeitas.

2. Enganei-me, muito provavelmente. Hoje apanhei o metro para Notting Hill e enquanto esperava em Sloane Square vi-o de novo. Envelhecido. Barba esbranquiçada crescida, barrete preto de lã na cabeça, mochila às costas, um ar esgotado. Portanto, contrariamente ao que eu imaginei, a pessoa que eu vi em Picaddilly há dois dias não era ele. Hoje, observando-o, pensei: ela já está a dar cabo dele como não conseguiu dar cabo de mim. Pareceu-me que ele me reconheceu e olhava para mim melancolicamente pelo canto do olho quando eu estava de costas. Fiz que não percebia. O metro chegou, entrei numa carruagem. Perdi-o de vista. Fiquei com pena dele.

(Caderno azul)

Monday, October 8, 2007

Fascínio



Como se descreve o fascínio, como se conta? Eu não sei. Nem caio na asneira de tentar. O tempo e a vida gastam-nos, marcam os rostos e o corpo. A dor e as derrotas transformam-nos por dentro e por fora. Vamos sucumbindo. A lentidão aparente do processo é ilusória: o tempo é veloz. Os olhos perdem o brilho e a vontade de olhar. Como se não houvesse nada a esperar, nada a comunicar, nada a descobrir. Vergonha ou cansaço? A vida gasta-nos. Mas a corrupção não aflige todas as pessoas com a mesma violência. Porquê? Não sei.


Conheci a beleza pura de um rosto, de um sorriso, a doçura dos gestos e do olhar. E assisti à degradação do rosto, ao empalidecer do sorriso, à decadência da pessoa. Envelheceu. Foi-se a delicadeza das maneiras, a candura maliciosa do olhar que não tinha nada a esconder. Instalaram-se as rugas, os esgares, a mentira. Deixou de haver razões para o fascínio. Os ossos triunfaram da carne. Era inevitável? Não era.

A beleza do mundo: árvores, rios, montanhas, planícies, oceanos, flores, animais, a chuva, a bruma, a cor do céu. E o sorriso dos rostos jovens, a perfeição dos corpos jovens. Como descrever o fascínio? Não se pode. Olho as fotografias, espanto-me. A beleza é sempre de natureza espiritual. Precisa de uns lábios, de uns olhos, de um sorriso tímido ou aberto, como precisa da água do rio, da cor das árvores que crescem na montanha, dos edifícios que se erguem na cidade. Mas o que nos fica da contemplação da beleza é de natureza espiritual. Eu podia tocar o teu rosto, acariciar os teus lábios e tocar os teus dentes com os meus dedos, beijar os teus olhos. A ideia de tocar o teu corpo não surge logo, não é necessário ir tão depressa nem ir tão longe. Não, não é ainda da inquietação do desejo, dessa violência cheia de ternura e receios que se trata. Por enquanto, durante algum tempo, é apenas o fascínio do rosto: o sorriso, com a mão na frente de metade da boca, o brilho do olhar interessado e atento, as maneiras tímidas. No início basta. Depois levantamo-nos, é tarde, são horas de ir para casa dormir. E eu vou. Mas a imagem do teu rosto não me saiu do espírito, adormeço com ela em mim, sinto-me só e nada posso fazer para amar-te ou para que tu me ames. O amor, não é difícil de entender, pode necessitar de um corpo, mas também é de natureza espiritual.

(Caderno Verde)

Sunday, October 7, 2007

Frases

Ela, ontem:
- Se tu deixasses de envelhecer, se fosse só eu a envelhecer, ficava contigo o resto da minha vida.
Eu:
- E quem é que te disse que eu quero ficar contigo se tu envelheceres?

(Caderno Azul)

Outra vez?

Fomos jantar a Windsor, óptimo restaurante, ela amável e querida. A dado momento diz: e se eu me apaixonasse por ti outra vez? Eu: nem penses nisso! Não!

Diz que não sabe se pode viver sem mim. Eu respondo: tens de viver sem mim, eu não quero mais, as nossas relações falharam. Não, não falharam, nós até vivíamos tranquilos, diz ela.

(Caderno Azul)

Friday, October 5, 2007

Miragem

Aconteciam-me os desgostos de amor para que, inebriado numa dor suave, eu me debruçasse com avidez sobre a folha de papel. Assim nasciam os poemas, tinta da inquietação a riscar nas páginas lisas e limpas. E como o mar furioso na areia virgem da praia, riscava no meu espírito o punhal que conhece os mais obscuros esconderijos da esperança. Meu amor. Eu repetia as palavras mágicas, mas sabia que elas nunca tinham tido sentido. Vazias. Esvaziadas da presença que só o rosto e a voz da mulher amada podiam preencher. Tantos anos de solidão. De vez em quando a brincadeira fútil de uma vaga e irresponsável ansiedade. E de novo o caos e a pesada responsabilidade da vida caíam em cima dos meus ombros. Viver é como ir de bicicleta pelas paisagens desertas, os olhos a ver deslizar as miragens. E quando se chega ao fim da viagem tudo o que nos resta é a ilusão de ter estado em tantos lugares.

(Caderno Verde)

Thursday, October 4, 2007

Dias sem sentido

E de cada vez, meu amor, tu respondias às minhas parvoíces com palavras que eu podia aceitar. E de cada vez a ruptura era evitada e de novo eu sentia que podia entrar na casa à beira da montanha e esperar por ti enquanto tu vivias a tua outra vida. Provavelmente não terias tempo de chegar, eu admitia-o. Mas na solidão dos dias sem outro sentido saber que pensavas em mim ia-me trazendo a tranquilidade. Eu deixava de recear a morte, imaginava até que depois dela começaria outra vida e que nela me encontraria enfim contigo para nunca mais nos separarmos. Eram apenas ilusões de vivos estas histórias de eternidade. Mas era o que eu sentia e deixava-me ir, como uma criança, deslizando no sonho sem me preocupar em saber se de facto podiam acontecer as coisas que eu gostaria que acontecessem. A manhã nascia, os pássaros cantavam, pela janela da sala eu via as árvores de novo, a luz traçava claramente os contornos e iluminava as cores. No país distante, tu, ignorando que eu te recordava, ias vivendo os teus dias. Não me queixava. O meu espírito, cheio da tua presença, enfrentava o destino sem receios.

(Caderno Verde)

Velhos hábitos

Os velhos hábitos custa perdê-los, eles não querem morrer, escreveste tu. Quem quer morrer? Querem morrer as árvores, as montanhas? A quem apetece a morte? Só nós nos inebriamos com a ideia romântica do nosso desaparecimento. Ir ao encontro de não sabemos o quê. E nessa partida vemos o rosto sublime e inesquecível da amada, os seus braços nus hão-de proteger-nos da maldade monstruosa do mundo e da existência miserável que levámos. Medíocre existência. E é tudo o que nos é possível. Na mediocridade, porém, acontece o amor e acontece a dor, acontecem os sonhos e acontece a frustração dos sonhos. Vamos indo, não nos queixamos senão nos intervalos da felicidade. O fel que nos embebeda torna a dor mais suportável, certamente. Na noite do exílio, longe de todas as pátrias (pátria: mito da infância, outra ilusão), recordamos o rosto de uma rapariga que podíamos ter amado. Mas as raparigas têm pressa e, impacientes, não sabem esperar. Imaginam o amor como ele não existe. Depois, mais tarde, conformam-se, qualquer coisa lhes serve para não ficarem sós.  Misturou-se ao nosso destino o destino de outras pessoas, elas tinham chegado antes de nós, perdemos o lugar. A quem o tínhamos roubado antes, quando era nosso o tempo da vitória? Não me apeteceu responder a tantas perguntas. De que serve falar? Jogo da cabra-cega. Não chegaremos a lado nenhum.

(Caderno Verde)

Wednesday, October 3, 2007

Terrores

Há aqueles que querem ser amados. E os outros, aqueles a quem todo o amor incomoda e torna escravos. Ou serão os mesmos? Quem pode responder? O rosto da amada perturba a tranquilidade dos dias e não há bom-senso que baste para acalmar essa inquietação. Por isso se debate em torturas sem fim o espírito daquele que se deixou enredar na miragem da paixão. Parecem-lhe curtos ou excessivamente longos os dias, as horas voam ou arrastam-se lamentavelmente. Além disso o universo inteiro – as praias, as árvores, as montanhas, os rios – enche-se de enigmáticos poderes de sedução e de uma estranha capacidade de ferir o incauto que se abandonou à perdição degradante do amor. Chamamos amor ao belo espelho onde contemplamos quotidianamente o esplendor do ser, a sua magnânima e magnífica beleza. Mas não temos palavras para definir o que nos vai acontecendo, limitamo-nos a acreditar na falsa, perigosa, astuta sabedoria dos que nos precederam nos caminhos errados dos sentimentos. Só o vazio, a absoluta solidão, o olhar desencantado que pousamos sobre as coisas que nos rodeiam são fieis à realidade, porém. Tudo o resto é ilusão e desejo de escapar ao destino insuportável de Sísifo. Por isso, quando termina uma relação privilegiada e nos concentramos em nós próprios com uma tristeza íntima, renascem em nós a timidez, o receio, os terrores da infância.

(Caderno Verde)


N. B. Tudo o que se publica neste blogue provém dos Cadernos de Gonçalo Matias.