Thursday, October 4, 2007

Dias sem sentido

E de cada vez, meu amor, tu respondias às minhas parvoíces com palavras que eu podia aceitar. E de cada vez a ruptura era evitada e de novo eu sentia que podia entrar na casa à beira da montanha e esperar por ti enquanto tu vivias a tua outra vida. Provavelmente não terias tempo de chegar, eu admitia-o. Mas na solidão dos dias sem outro sentido saber que pensavas em mim ia-me trazendo a tranquilidade. Eu deixava de recear a morte, imaginava até que depois dela começaria outra vida e que nela me encontraria enfim contigo para nunca mais nos separarmos. Eram apenas ilusões de vivos estas histórias de eternidade. Mas era o que eu sentia e deixava-me ir, como uma criança, deslizando no sonho sem me preocupar em saber se de facto podiam acontecer as coisas que eu gostaria que acontecessem. A manhã nascia, os pássaros cantavam, pela janela da sala eu via as árvores de novo, a luz traçava claramente os contornos e iluminava as cores. No país distante, tu, ignorando que eu te recordava, ias vivendo os teus dias. Não me queixava. O meu espírito, cheio da tua presença, enfrentava o destino sem receios.

(Caderno Verde)

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