Monday, October 8, 2007

Fascínio



Como se descreve o fascínio, como se conta? Eu não sei. Nem caio na asneira de tentar. O tempo e a vida gastam-nos, marcam os rostos e o corpo. A dor e as derrotas transformam-nos por dentro e por fora. Vamos sucumbindo. A lentidão aparente do processo é ilusória: o tempo é veloz. Os olhos perdem o brilho e a vontade de olhar. Como se não houvesse nada a esperar, nada a comunicar, nada a descobrir. Vergonha ou cansaço? A vida gasta-nos. Mas a corrupção não aflige todas as pessoas com a mesma violência. Porquê? Não sei.


Conheci a beleza pura de um rosto, de um sorriso, a doçura dos gestos e do olhar. E assisti à degradação do rosto, ao empalidecer do sorriso, à decadência da pessoa. Envelheceu. Foi-se a delicadeza das maneiras, a candura maliciosa do olhar que não tinha nada a esconder. Instalaram-se as rugas, os esgares, a mentira. Deixou de haver razões para o fascínio. Os ossos triunfaram da carne. Era inevitável? Não era.

A beleza do mundo: árvores, rios, montanhas, planícies, oceanos, flores, animais, a chuva, a bruma, a cor do céu. E o sorriso dos rostos jovens, a perfeição dos corpos jovens. Como descrever o fascínio? Não se pode. Olho as fotografias, espanto-me. A beleza é sempre de natureza espiritual. Precisa de uns lábios, de uns olhos, de um sorriso tímido ou aberto, como precisa da água do rio, da cor das árvores que crescem na montanha, dos edifícios que se erguem na cidade. Mas o que nos fica da contemplação da beleza é de natureza espiritual. Eu podia tocar o teu rosto, acariciar os teus lábios e tocar os teus dentes com os meus dedos, beijar os teus olhos. A ideia de tocar o teu corpo não surge logo, não é necessário ir tão depressa nem ir tão longe. Não, não é ainda da inquietação do desejo, dessa violência cheia de ternura e receios que se trata. Por enquanto, durante algum tempo, é apenas o fascínio do rosto: o sorriso, com a mão na frente de metade da boca, o brilho do olhar interessado e atento, as maneiras tímidas. No início basta. Depois levantamo-nos, é tarde, são horas de ir para casa dormir. E eu vou. Mas a imagem do teu rosto não me saiu do espírito, adormeço com ela em mim, sinto-me só e nada posso fazer para amar-te ou para que tu me ames. O amor, não é difícil de entender, pode necessitar de um corpo, mas também é de natureza espiritual.

(Caderno Verde)