Wednesday, October 3, 2007

Terrores

Há aqueles que querem ser amados. E os outros, aqueles a quem todo o amor incomoda e torna escravos. Ou serão os mesmos? Quem pode responder? O rosto da amada perturba a tranquilidade dos dias e não há bom-senso que baste para acalmar essa inquietação. Por isso se debate em torturas sem fim o espírito daquele que se deixou enredar na miragem da paixão. Parecem-lhe curtos ou excessivamente longos os dias, as horas voam ou arrastam-se lamentavelmente. Além disso o universo inteiro – as praias, as árvores, as montanhas, os rios – enche-se de enigmáticos poderes de sedução e de uma estranha capacidade de ferir o incauto que se abandonou à perdição degradante do amor. Chamamos amor ao belo espelho onde contemplamos quotidianamente o esplendor do ser, a sua magnânima e magnífica beleza. Mas não temos palavras para definir o que nos vai acontecendo, limitamo-nos a acreditar na falsa, perigosa, astuta sabedoria dos que nos precederam nos caminhos errados dos sentimentos. Só o vazio, a absoluta solidão, o olhar desencantado que pousamos sobre as coisas que nos rodeiam são fieis à realidade, porém. Tudo o resto é ilusão e desejo de escapar ao destino insuportável de Sísifo. Por isso, quando termina uma relação privilegiada e nos concentramos em nós próprios com uma tristeza íntima, renascem em nós a timidez, o receio, os terrores da infância.

(Caderno Verde)


N. B. Tudo o que se publica neste blogue provém dos Cadernos de Gonçalo Matias.

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