Monday, October 29, 2007

Vagabundo

Voltei ao meu apartamento na província depois de ter passado duas semanas a viajar. O tempo mudou, agora está mais frio. Eu gosto do frio. Saio de casa a meio da tarde para ir tomar uma bica no centro da cidade. O dia está bonito, o sol brilha, há gente nas esplanadas a conversar, a beber cerveja ou sumo de laranja. De um café próximo chega-me o ruído de um coro infantil desordenado e de um batuque. As pessoas não sabem viver em silêncio. É pena. Que me ficou da viagem que acabo de fazer? Não sei bem, tenho de pensar nisso. Revi velhos amigos. Uns chatos. Muitos abraços e sorrisos, mas no fundo sempre a criticar-me, a dar-me lições. Imaginam-se superiores. Que Deus, se existe, os proteja, mas não me aborreçam com os seus pontos de vista sobre a minha pessoa. Um deles, que estudou num colégio de padres, levou-me a jantar a um restaurante e passou o tempo a chatear-me porque em vez de olhar para a barba dele eu olhava para as raparigas das mesas ao lado. Eu não o deixava contar até ao fim, e até ele ficar satisfeito consigo mesmo, as suas histórias sobre os malefícios e inconvenientes da idade? Deixava. Envelhecemos, as raparigas já não olham para nós, disse ele. Pois que não olhem, respondi eu, eu olho para elas e não me canso de as amar.

Dois dias depois fomos a uma exposição de pintura ao lado de um pub, ele levou-me no carro dele. Muita gente de gravata, umas senhoras elegantes ou mais ou menos, o costume. Tudo de copo na mão. Estava eu a falar com um funcionário do Consulado, ele chega ao pé de mim e pergunta-me: quantos anos é que tens? Conhecemo-nos há bastante tempo e não sabes quantos anos tenho, comentei eu. Mas disse-lhe o que ele queria saber. Ele fez cara de zangado, resmungou "merda" e foi-se embora apressado. Não percebi nada. Mais tarde percebi: era uma aposta. A minha resposta tinha-lhe feito perder dez libras porque ele pretendera, na discussão com outro amigo meu, que eu tinha cinco ou seis anos mais do que de facto tenho. Eu sei, no entanto, que aquilo da aposta não passou de encenação. Combinada com outro amigo, a vedeta que tinha vindo de New York porque fazia anos. Tratava-se de me fazer compreender, eles queriam que isso me entrasse bem na cabeça, que a juventude para mim passara, ia longe, e que já é tempo de me conformar com a tristeza dos dias que passam, com a impotência que ameaça, com a solidão, com a derrota. Não lhes serviu de nada querer educar-me. Eu saí apenas ligeiramente ferido e irritado da escaramuça. A minha confiança no futuro e em mim mesmo não diminuiu um milímetro. A minha consideração pela inteligência e pelo sentido de humor deles sofreu um abalo.

A minha filha, que estuda arte numa universidade dos arredores, veio ao jantar de aniversário da vedeta de New York. Mas estava um pouco adoentada e aborreceu-se, foi-se embora para casa mais cedo. A sua partida antecipada surpreendeu-me. Eu tinha imaginado que ela teria prazer em conversar com as filhas dos meus amigos, mas não foi o que aconteceu. Por causa disso fiquei um pouco irritado. Ao contrário de mim, pensei eu, falta-lhe a curiosidade acerca das pessoas. Bastou-me abrir a boca para lamentar a sua partida e eles, que são meus amigos, caíram-me todos em cima: és insuportável; coitada da rapariga, até estava adoentada; ela não fala português e por isso aborrece-se a ouvir-nos; que pai tirano, já não se usa. Deixei-os falar. Vão ver se chove. Aproveitaram mais uma oportunidade para tentar demolir-me. Perguntem à minha filha o que é que ela pensa de mim, é isso que conta. Gostava de saber o que é que as filhas deles pensam sobre eles e sobre o assunto, mas elas também desapareceram lá para dentro, na cozinha ou num quarto, não tiveram paciência para ficar a aturá-los.

Chegou o Outono, que é uma estação calma. Agora as pessoas põem mais roupa e roupa mais escura em cima do corpo, ficam diferentes. O próprio ambiente na cidade fica diferente. É uma mudança interessante. A nudez dos braços e dos peitos, na Primavera e sobretudo no Verão, tem qualquer coisa de festivo. Com a roupa de Inverno a tapar a pele, as raparigas e as mulheres ficam com uma aparência séria, compenetrada. Talvez percam uma parte do poder de sedução que têm sobre os homens, não sei. Eu não desgosto. Sempre tive uma simpatia e interesse particular por rostos sérios, quase tristes ou mesmo tristes. É como se à seriedade do rosto correspondesse uma maior profundidade do ser. Como se uma rapariga compenetrada escondesse em si mais mistério e adquirisse, por parecer triste, um ar mais afectuoso e mais digno de confiança do amor. Posso estar errado, mas é o que eu sinto, é o que eu penso quando vejo um rosto grave.


Havia uma rapariga de óculos escuros sentada na esplanada, a duas ou três mesas de distância da minha. Estava com um rapazito e uma senhora mais velha, podiam ser mãe, filha e neto. Talvez fossem, mas a rapariga não trazia aliança no dedo. Não era nenhuma beleza mas tinha um corpo bem feito, um rosto mais do que correcto, as mãos bonitas, vestia-se discretamente e com gosto. A dado momento levantou-se e foi lá dentro, ao café. Quando passou perto de mim o saco de couro que ela trazia no ombro bateu na minha cadeira, eu assustei-me, mas ela não parou para pedir desculpa. Voltou logo a seguir e continuou a conversa com a mãe e com o miúdo. Às vezes cruzava os braços e afagava o pescoço ou o cabelo com as mãos. Tinha as pernas cruzadas e de vez em quando mexia o pé esquerdo. Tinha umas pernas bonitas e estava de meias castanhas, o que contribuía para aumentar a impressão de seriedade que ela transmitia. O miúdo cansou-se de brincar com o jogo electrónico, ficou a esfregar os olhos. Batia-lhe o sol no rosto e ele estava um pouco cansado de estar ali sentado a ouvir a avó e a mãe conversar das coisas delas, pensei eu.

A monotonia. Tinha-me levantado de manhã meio deprimido, faltava-me a paciência para arrumar todos os livros espalhados pelo chão em vários quartos lá em casa. A minha vida era, é, uma desordem. Tenho dificuldade em pensar e em escrever. Não me apetece fazer nada, até parece que estou desanimado. Também é como se estivesse num planeta que não é o meu, há anos que não passava tantos meses em Portugal. Já não sei se é possível readaptar-me a isto, as pessoas metem-se muito na vida alheia, sabem tudo sobre nós, a vida delas e a nossa são influenciadas por valores diferentes. Portugal é um país pequeno, a gente acaba por sentir isso, tudo é pequeno, não há horizontes. E depois os mandarins abusam do poder. Por isso me fui embora. Questionei-me: entre esta realidade ou irrealidade e a outra, a Americana por exemplo, qual preferes? Eu sabia a resposta, de qualquer modo não há realidade ou irrealidade que por si só nos satisfaça, portanto é preciso fazer concessões, perder alguma coisa quando se escolhe. Seria possível, porém, que eu estivesse a sentir saudades da América? Do capitalismo mais selvagem? Tenho lá livros, roupa, o carro, uma rotina, alguns amigos, é por isso que penso em voltar, não é surpreendente, pensei logo a seguir.


A tarde ia morrendo, mas devagar. O trio mãe-filho-avó foi-se embora, vi-os afastar-se lentamente. Passou um jovem casal aos beijinhos. Uma senhora dizia a outra: esta é a tua filha? é tão gira. O canto insuportável das crianças desafinadas no café do lado não parava de me arranhar os ouvidos, era odioso. Uma rapariga pequenina e um pouco gordinha aproximou-se de mim e pediu-me um cigarro, eu dei-lho. A última vez que apanhara o comboio para Lisboa eu tinha-me esquecido de comprar tabaco. No comboio não vendiam. Perguntei a um homem que vira a fumar à entrada da carruagem se por acaso não tinha um cigarro que me pudesse dar e ele respondeu-me com ar seco e enfadado que não tinha. O tipo deve ter-me tomado por algum vagabundo teso ou oportunista, embora eu estivesse mais do que decentemente vestido. Mas, reflectindo bem, provavelmente era isso que eu era, que eu sou: um vagabundo sem vergonha na cara que se senta nos cafés a olhar para as pessoas e a imaginar histórias e que quando não tem cigarros não hesita em pedi-los a um desconhecido.