Thursday, October 4, 2007

Velhos hábitos

Os velhos hábitos custa perdê-los, eles não querem morrer, escreveste tu. Quem quer morrer? Querem morrer as árvores, as montanhas? A quem apetece a morte? Só nós nos inebriamos com a ideia romântica do nosso desaparecimento. Ir ao encontro de não sabemos o quê. E nessa partida vemos o rosto sublime e inesquecível da amada, os seus braços nus hão-de proteger-nos da maldade monstruosa do mundo e da existência miserável que levámos. Medíocre existência. E é tudo o que nos é possível. Na mediocridade, porém, acontece o amor e acontece a dor, acontecem os sonhos e acontece a frustração dos sonhos. Vamos indo, não nos queixamos senão nos intervalos da felicidade. O fel que nos embebeda torna a dor mais suportável, certamente. Na noite do exílio, longe de todas as pátrias (pátria: mito da infância, outra ilusão), recordamos o rosto de uma rapariga que podíamos ter amado. Mas as raparigas têm pressa e, impacientes, não sabem esperar. Imaginam o amor como ele não existe. Depois, mais tarde, conformam-se, qualquer coisa lhes serve para não ficarem sós.  Misturou-se ao nosso destino o destino de outras pessoas, elas tinham chegado antes de nós, perdemos o lugar. A quem o tínhamos roubado antes, quando era nosso o tempo da vitória? Não me apeteceu responder a tantas perguntas. De que serve falar? Jogo da cabra-cega. Não chegaremos a lado nenhum.

(Caderno Verde)

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