Tuesday, November 6, 2007

Acusações

What belongs to a language game is a whole culture.

Wittgenstein, LC, I.26

A Betty acusou-me de só me interessar pelas pessoas para as dissecar e poder escrever sobre elas. Tu nunca amaste ninguém a sério, nem amarás, não chegas tão longe, disse ela, agressiva. Não chegas longe porque vês depressa de mais, entendes depressa de mais, entusiasmas-te ou desinteressas-te depressa de mais. E além disso não acreditas muito no que te dizem, ficas a observar. É isso, as pessoas a ti só te interessam como animais de laboratório, para as observares e interpretares. Ora, respondi eu, deixa-te de teorias absurdas, tu sabes bem que estás a inventar. Ela insistiu: que eu necessito de permanentes estímulos exteriores para escapar ao tédio e me entregar ao meu vício, que é escrever; que o amor, eu só o conheço como objecto de análise, como pretexto para o meu pessimismo existencial; que em vez de perder tempo a descobrir intrigas que escapam a outros, o que não é bom, eu devia deixar de pensar e limitar-me a ser, a estar onde estou, inocentemente. Claro, vociferou ela, todos os amores são imperfeitos. Mas tu exiges perfeição mesmo no amor, queres os cem por cento, não te bastam os trinta, cinquenta, setenta ou oitenta por cento, como à maior parte das pessoas. Mas eu sofro de verdade, respondi eu, o que nega veementemente a tua acusação. Não nega coisa nenhuma, retorquiu ela logo, prova é que até para ti mesmo tu és um animal a observar enquanto decorre a experiência. As relações amorosas interessam-te sobretudo como exemplo vivo do inevitável desentendimento entre as pessoas, um desentendimento que tu não queres deixar passar e pretendes usar como sintoma da inexistência do amor e da incapacidade humana de amar. Não pode ser, protestei eu, o que tu dizes tem pouco sentido, eu já amei e fui amado; estás a querer desculpar-te a ti própria. Ela olhou para mim irritada, calou-se e foi-se embora. Fiquei pensativo. Sinceramente, não sei que pensar, o que a Betty diz tanto pode ser verdade como pode ser mentira.

(Caderno Azul)