Friday, November 2, 2007

Beethoven

1
São quase duas da manhã. Sento-me na sala a ouvir uma sonata de Beethoven. Não entendo porque razão as notas do piano criam em mim uma atenção tão intensa quando tocadas por Richard Goode. A lentidão minuciosa permite distinguir todos os sons. Mas ao mesmo tempo há rapidez no desfilar das notas. Há melodia, coerência, tensão e poesia. Em vez da agressividade e do heroísmo, sente-se a paciência, a bravura. Resplandecem a força, a limpidez da emoção. Os detalhes, as frases, são luminosamente postos em evidência, num fluir de profunda concentração. A tenacidade, a persistência, são virtudes americanas.


Assim me consolo das melancolias da minha vida solitária: a ouvir Beethoven. Distraio-me da falta de sentido actual dos meus dias, tenho consciência disso. Se se pudesse viver apenas para a arte (a música, a literatura, a dança, o cinema, a pintura) e para contemplar e respirar a beleza dos planaltos desertos e selvagens. Longe dos homens, perto da ideia de Deus provavelmente. Mas eu não acredito em Deus. E sei que sem experiência que do exterior a provoque e alimente, a arte morre. Porque penso coisas assim, então?


2
Na solidão do exílio que procurei, escrevo o diário dos dias de tédio. Anuncia-se a morte na vida monótona e sem amor. Quem não pode conquistar o que deseja, que faz da vida? Quem não se contenta com o que poderia alcançar, como sobreviverá? Rigor das palavras. Lucidez do espírito. O exílio é a situação ideal para o conhecimento da verdade da existência e do nosso destino: os aduladores ausentaram-se ou não os deixamos chegar até nós; os amigos e as amadas estão longe; falta-nos o apoio da casa familiar perto.




3
Entender uma pessoa é uma coisa. Entender uma obra de arte é outra. Não sei explicar, sei que é assim. Talvez o facto de a obra de arte se apresentar diante de nós sempre idêntica (eu sei, é diferente na música, no teatro e na dança) permita que nos concentremos excessivamente na experiência do entendimento e do sentir. Nas situações da vida quotidiana só a memória nos permite voltar ao objecto de investigação - e a memória é imperfeita, o trabalho de entendimento é mais frustrante e ao mesmo tempo depende mais claramente do que nós próprios isolamos como objecto a investigar.


(Caderno verde)