Friday, November 9, 2007

Mal-entendido

Carta à Antónia, sexta à tarde

Pena que precises de me deixar sem palavras tuas. Não entendo as punições de amor nem o medo do amor. A confiança e a amizade profunda protegem do perigo, o amor profundo até protege do desencanto. Mesmo correr riscos é um acto de amor generoso: pomos acima dos nossos medos e confusões a tranquilidade da pessoa amada, entregamo-nos e dormimos descansados porque o outro não nos trai nem nos fará mal. Não, nem telefono nem escrevo, por ora. Amo-te, mas vai para o diabo durante o longo fim de semana. A solidão também me convém, só que não fui eu que a escolhi desta vez.

Se chovesse no infinito onde caía a chuva? Em lado nenhum. O infinito é o vazio, não há lá nada, só espaço. Portanto a chuva só caía. Ia caindo sempre e antes de ser chuva não era chuva e depois transformava-se noutra coisa que não era chuva. Etc. O amor de um amante sem objecto é um amor semelhante.

Gonçalo


Resposta da Antónia, segunda-feira de manhã

What are you doing? Where are you? You had your revenge because I was mad at you and I forgot to disconect one of our machines before I left to the week-end. I don’t know what to do. Maybe I will be fired. If I’m fired you will never hear from me again because I will no longer have an email.

O que se passa é que eu na sexta-feira tinha-te escrito uma carta à mão e estava toda feliz porque tu me tinhas dado o espaço de que eu precisava. É então que eu oiço a tua mensagem no telefone e leio a tua mensagem no email. Fiquei fora de mim, não podia acreditar que tinhas dito aquilo, que tu possas falar assim comigo. Fui-me embora num impulso e deixei uma máquina ligada durante o fim de semana, inutilizei doze dias de trabalho. Foi isto que aconteceu. Porque é que tinhas de estragar tudo?

A. W.

(Caderno Verde)