Monday, December 24, 2007

Deus

Deus não existe certamente, embora eu preferisse que ele existisse. A ausência de Deus deixa-nos com os nossos problemas, muito menos interessantes provavelmente do que os que teríamos se Deus existisse. Que nos fica? A luta pela vida, nos seus diversos aspectos: dinheiro, sucesso, amor, sexo, poder. Às vezes, porém, a contemplação desinteressada da natureza, das pessoas, de tudo o que existe faz-nos infantilmente felizes. Descobrimos harmonias, sentimos saudades antecipadadas de nos irmos embora do mundo e da vida. Aqueles que citam a autoridade e o exemplo divino para nos oprimir e tornar a existência mais árdua querem convencer-nos de que acreditam em Deus. Mas nós sabemos que eles só recorrem (abusivamente) à existência de um ser superior para melhor justificar a criação de uma sociedade cheia de injustiças e imperfeições, cruel e desumana. Deus serve-lhes de desculpa. O Deus que eles nos querem fazer acreditar que é o deles não pode existir, se existisse seria um canalha como eles e eu, por exemplo, não queria ter nada a ver com tal criatura. Quem quereria? Mas eles sabem o que fazem. Cinismo. Estamos sozinhos. E porque podemos falar, cantar, escrever, pintar, vamo-nos distraindo a querer entender, muitas vezes a criticar e condenar, outras a elogiar. Tanto faz? Não. A inexistência de Deus não justifica que se despreze a vida. Ao mal que nos ameça compete-nos opor o bem de que somos capazes. Ao desamor devemos responder com o amor, ao vício com a virtude, à injustiça com a justiça. Ficou-nos essa obrigação moral da educação religiosa que recebemos. O Pai Natal também não existe e no entanto faz muitas pessoas felizes. Na invenção de Deus não colaboraram apenas aqueles que queriam oprimir, explorar, reprimir, torturar, as forças do mal, os detentores de armas de destruição; colaboraram também muitas forças positivas, as forças do bem, gente justa.

P.S. Dito isto, acreditar na existência de Deus e não acreditar na existência dos discos voadores nem dos fantasmas, por exemplo, revela dualidade de critérios. Nos dois casos há quem pretenda acreditar na existência de entes que a maioria (a quase totalidade dos mortais, ao longo de séculos) nunca pretendeu ter visto. E que diferença é que há, então, entre quem pretende ser Napoleão e quem pretende que Deus existe? O pretenso Napoleão tem existência física, visível, e o seu erro é tomar-se por quem não é (ilusão de que muitos de nós - todos? - padecemos). Nestas histórias de crenças, de critérios de avaliação da loucura, etc., deixam-se entrever as contradições em que vivemos. There is no choice though.