Saturday, December 1, 2007

Um poema

Querida Antónia,

Não me deixes demasiado só. Temos de estar atentos ao que vai acontecendo, pois nada do que existe existe eternamente, a morte ameaça de todos os lados.

O amor não é bicho que se possa alimentar a si próprio durante muito tempo, necessita de alimento que lhe chegue de fora. Será por isso que quem ama gosta de inventar intrigas, histórias, complicações?

Fui a Los Angeles. Sabias que estiveste sentada comigo em Sunset Boulevard a comer um “angel hair primavera” e a tomar café, que fomos os dois ver discos à Tower Records? Gostei da tua companhia, tu és uma querida.

Existirá o amor? Para quem acredita, ele existe certamente. Mas às vezes é mais cómodo não acreditar.

Nem tudo o que eu digo merecer ser levado a sério. Não ligues. Tenho estado tão isolado que quando tenho a quem falar ou a quem escrever abuso logo.

Antónia, tudo isto é um sonho, a minha relação contigo não entra nos códigos normais e eu não sei o que significa para ti gostar de mim nem para mim gostar de ti. Seria preciso desrespeitar tantas convenções, ter tanta coragem para continuar. Estou contigo, tu estás sempre comigo, mas até quando é que este delírio vai resistir às exigências da realidade? Se houvesse Deus e eternidade - e lagos e florestas na eternidade - creio que preferia esperar por ti lá. Ando nervoso, angustiado, não sei porquê. Às vezes atrai-me o abismo, deixar-me escorregar lentamente, ir desaparecendo, fugir de tudo, destas aparências, deste mundo de sombras. Mas isto passa.

Eu não te quero perder. Mas quando tu te quiseres ir embora, eu entendo. Tens de viver a tua vida, acabarás por esquecer esta loucura. Se te imagino nos braços de outro homem fico triste, mas sei que me amaste tanto quanto foi possível e enquanto foi possível.

O que é um poema, tu sabes? Olha, isto é um poema:

“Some proteins can take on two
conformations: one that is quite
stable in water, and another that
is triggered (induced) by contact
with the hydrophobic cell membrane.”
Leio estas palavras e elas
dizem: eu amo-a.

Teu, sempre.

Gonçalo

(Caderno verde)