Friday, December 28, 2007

Dívida

Posso pagar-me em sintomas,
enquanto espero pela vingança final?

Monday, December 24, 2007

Deus

Deus não existe certamente, embora eu preferisse que ele existisse. A ausência de Deus deixa-nos com os nossos problemas, muito menos interessantes provavelmente do que os que teríamos se Deus existisse. Que nos fica? A luta pela vida, nos seus diversos aspectos: dinheiro, sucesso, amor, sexo, poder. Às vezes, porém, a contemplação desinteressada da natureza, das pessoas, de tudo o que existe faz-nos infantilmente felizes. Descobrimos harmonias, sentimos saudades antecipadadas de nos irmos embora do mundo e da vida. Aqueles que citam a autoridade e o exemplo divino para nos oprimir e tornar a existência mais árdua querem convencer-nos de que acreditam em Deus. Mas nós sabemos que eles só recorrem (abusivamente) à existência de um ser superior para melhor justificar a criação de uma sociedade cheia de injustiças e imperfeições, cruel e desumana. Deus serve-lhes de desculpa. O Deus que eles nos querem fazer acreditar que é o deles não pode existir, se existisse seria um canalha como eles e eu, por exemplo, não queria ter nada a ver com tal criatura. Quem quereria? Mas eles sabem o que fazem. Cinismo. Estamos sozinhos. E porque podemos falar, cantar, escrever, pintar, vamo-nos distraindo a querer entender, muitas vezes a criticar e condenar, outras a elogiar. Tanto faz? Não. A inexistência de Deus não justifica que se despreze a vida. Ao mal que nos ameça compete-nos opor o bem de que somos capazes. Ao desamor devemos responder com o amor, ao vício com a virtude, à injustiça com a justiça. Ficou-nos essa obrigação moral da educação religiosa que recebemos. O Pai Natal também não existe e no entanto faz muitas pessoas felizes. Na invenção de Deus não colaboraram apenas aqueles que queriam oprimir, explorar, reprimir, torturar, as forças do mal, os detentores de armas de destruição; colaboraram também muitas forças positivas, as forças do bem, gente justa.

P.S. Dito isto, acreditar na existência de Deus e não acreditar na existência dos discos voadores nem dos fantasmas, por exemplo, revela dualidade de critérios. Nos dois casos há quem pretenda acreditar na existência de entes que a maioria (a quase totalidade dos mortais, ao longo de séculos) nunca pretendeu ter visto. E que diferença é que há, então, entre quem pretende ser Napoleão e quem pretende que Deus existe? O pretenso Napoleão tem existência física, visível, e o seu erro é tomar-se por quem não é (ilusão de que muitos de nós - todos? - padecemos). Nestas histórias de crenças, de critérios de avaliação da loucura, etc., deixam-se entrever as contradições em que vivemos. There is no choice though.

Friday, December 21, 2007

Natal?

Eu gosto do Natal, é uma época propícia à melancolia. Podemos abandonar-nos ao prazer de o detestar e de embirrar com quem anda na rua a preparar-se para o festejar, o que é consolador. Não tenho casa nem tenho nenhuma mulher na minha vida. A questão da casa vai resolver-se. A questão da mulher é mais difícil: só me empenho se acredito e acredito com dificuldade, mas um dia destes distingo uma pessoa entre as outras, tomo a decisão de a conquistar para o amor - e se acreditar o suficiente nisso, acabarei por tê-la ao meu lado, feliz. Depois trata-se de não dar à dúvida a possibilidade de me impedir de partilhar alguma coisa com as outras pessoas.

Thursday, December 20, 2007

Como vai o mundo?

Paulo Portas é o político mais "fake", "phony" e ambicioso qua anda por aí. Para dar nas vistas recorre repetidamente, na sua insignificância, a subterfúgios risíveis (mas ele quer-se sisudo e grave, não se ri). Cada vez que ele exige a presença de um ministro no Parlamento para explicar isto ou aquilo, a gente sente a necessidade que tem o personagem, na sua vacuidade, de acreditar que interfere com a História, de se dar por importante, de intimidar. Mas quem é que o leva a sério? A minha mãe, que sabe distinguir o verdadeiro do falso, o bem do mal, quando o vê na televisão fica irritada e desata a proferir imprecações. Eu acho a sua reação muito saudável.

Os japoneses acreditam em ovnis e acham que o exército deve estar preparadao para agir se eles invadirem, um antigo e fanático ministro PSD acredita em Deus e em Durão Barroso, o Presidente da República acredita que faz parte da sua missão ir informando o povo de que está muito preocupado com isto e com aquilo - e com mais isto e com mais aquilo. Cada um acredita no que quer.

Antonin Artaud pensava que "toute l'écriture est de la cochonnerie". E que "les gens qui sortent du vague pour essayer de préciser quoi que ce soit de ce qui se passe dans leur pensée, sont des cochons." Pare ele, que nem sequer viveu em Portugal, "toute la gent littéraire est cochonne, et spécialement celle de ces temps-ci." Que essa gente das letras, com as suas manias e fantasias sem interesse, a rebentar pelas costuras de tiques de estilo, seja pouco recomendável, eu entendo. Mas porquê "des cochons" em particular, ó Antonin? Eu sei, Lacan também disse que "publier c'est poubelliser". Dão-me ambos razão, afinal, quando eu afirmo que só o silêncio é verdadeiro, incontestável, rigoroso, honesto, admirável. E depois de saber que tenho razão, recomeço a escrever, escrevo sem parar. É que gosto do Eça, do Camilo, do Tchekov, do Tolstoi, do Machado de Assis.

A prova de que a literatura portuguesa está a desaparecer encontra-se nas livrarias portuguesas. Estive lá e não me apeteceu comprar nada do que estava em cima das mesas, proposto aparentemente como "o que é bom". Give me a break. Entretanto tive nas mãos uma elaborada tese de mestrado, com muitas citações de alguns autores reputados e de alguns autores perfeitamente tontos, sobre um soi-disant poeta português contemporâneo, fraquito, sem grande interesse, que ninguém a não ser a menina que escreveu a tese deve saber quem é. A indústria da alma e das visões do mundo tornou-se, mesmo nas universidades, uma coisa tão "pop"! Escrever para quê? Não adianta, os chamados serão muitos, os escolhidos muito poucos. Eles não entendem.


Sunday, December 16, 2007

O erro: benefícios

Durante alguns anos suportei-a. Porque a quem amamos perdoamos tudo. Eu amava-a e estava à espera dela: sem o saber ainda, ela viria ao meu encontro no futuro. Enganei-me. Em vez de se aproximar de mim, ela quis afastar-se. Seduzida por outras promessas, por um destino diferente. Que parvoíce, que desperdício. Com o seu comportamento desastrado, com as suas repetidas ausências, com os seus subterfúgios e ignorância, ela acabou por arruinar a minha fé, destruiu a minha esperança, deixou-me cheio de dúvidas: afinal o que é viver, o que é o bem e o que é o mal, o amor não será apenas uma ingénua tontice, em quem e em quê é que devemos acreditar? Convencera-me de que fazia parte do percurso acidentado que nos havia de reunir um dia ela hesitar, errar, perder-se de si própria e de mim. Quando finalmente entendi que o amor falhara e nos separámos senti-me defraudado e revoltei-me violentamente contra tudo o que na minha vida, enquanto lhe perdoava a ela a sua imperfeição e suportava a sua mediocridade, era simultânea aceitação, muito conformista, de formas de pensar e de viver que eu menosprezava e odiava. Separar-me dela teve uma enorme vantagem: obrigou-me a reflectir, abrindo-me novos horizontes; levou-me a recusar ideias, convicções e comportamentos que até aí, generoso, ignorante ou comodista, eu não pusera ainda radicalmente em causa. Abandonado, desiludido, abri com surpresa os olhos para a realidade e ela pareceu-me detestável. Progredindo no entendimento do que nos acontece e do nosso destino, comecei uma vez mais a renascer das cinzas. Para quem tem o tempo contado, eu dera provas até aí de uma inocente irresponsabilidade, de uma preguiçosa indiferença. Tantos anos perdidos a respeitar maneiras de pensar e de viver tolas, injustificadas. Antes de me separar dela havia muita coisa que eu ainda não tinha percebido e a minha opinião sobre mim e sobre a vida era mais limitada. Os desaires nas relações - radiografias do nosso carácter e sintomas do nosso destino a exigir interpretação - são muito mais importantes na nossa aprendizagem da existência do que nós imaginamos.

Como o amor nem sempre é reconhecido como sendo o amor, acaba por não bastar muitas vezes, apesar de existir, para ligar de maneira duradoira duas pessoas. Não amadurece, não se aprofunda; é sufocado, negado, menosprezado. A insatisfação nasce nestes casos, tudo parece sugeri-lo, da ignorância do que não se sabe que se ignora, da desvalorização do que se possuía. O amor é um mito. Mas como saber antes de o aprender aquilo que não se sabia? Sequiosos de plenitudes imaginárias, os amantes partem cada um para seu lado, mais ou menos confiantes, à procura do amor que pensaram que não tinham. Até descobrirem, através da experiência, que se iludiram e fizeram tolice. Como voltar atrás é difícil, a busca continua, interminavelmente. Às vezes perturbada romanticamente por uma contraditória, inútil e injustificada saudade do amor que, por leviandade, falta de carácter e imaturidade, se perdeu.

(Caderno azul)

Saturday, December 15, 2007

Como se

Que outras pessoas tenham passado por mim sem me conhecer, entende-se. Mas ela, que viveu perto de mim meses e anos, que me viu dormir e me ouviu respirar perto do seu rosto, não tem desculpa por não ter entendido. A traição não foi ela ter procurado ou aceite, tentando libertar-se de mim e do amor que sentia por mim, uma ilusória e frágil intimidade com outra pessoa. A traição foi ela ter passado por mim como se eu fosse um pobre de espírito tão banal, tão pouco interessante como o tipo com quem ela se contentou a seguir a mim. Para tamanho pecado não há redenção.

(Caderno azul)

Tuesday, December 4, 2007

Pessoas

Porque razão é que dou tanta importância às pessoas, aos outros, na minha vida? Eu não me espanto, acho natural, mas há quem se espante, já me o têm dito. Não sei explicar nem quero. É assim, pronto. Provavelmente é uma consequência da minha educação cristã. Eu não penso nisso, não sou religioso. Mas, toutes proportions gardées, devo ter aprendido a considerar os outros como se considera Deus: merecem-me respeito, inspiram-me curiosidade e afecto. Pelo menos a priori e antes de os conhecer. Depois de os conhecer às vezes acho-os menos dignos de atenção ou claramente insuportáveis para a pessoa que eu sou - provavelmente porque escondem a pessoa que são por detrás de máscaras sociais que em vez de suscitarem interesse acabam por irritar e enfastiar. Encontrar e conhecer "pessoas" não é fácil: dá trabalho, é razão de malentendidos e de frustração. Pesam sobre nós de maneira excessiva os códigos sociais, os comportamentos aprendidos, as más experiências feitas anteriormente. É pena. Não há nada mais apaixonante do que uma pessoa, um ser humano com as suas crenças, experiência, qualidades, visão do mundo, projectos, remorsos e penas, alegrias, solidão interior.

Saturday, December 1, 2007

Um poema

Querida Antónia,

Não me deixes demasiado só. Temos de estar atentos ao que vai acontecendo, pois nada do que existe existe eternamente, a morte ameaça de todos os lados.

O amor não é bicho que se possa alimentar a si próprio durante muito tempo, necessita de alimento que lhe chegue de fora. Será por isso que quem ama gosta de inventar intrigas, histórias, complicações?

Fui a Los Angeles. Sabias que estiveste sentada comigo em Sunset Boulevard a comer um “angel hair primavera” e a tomar café, que fomos os dois ver discos à Tower Records? Gostei da tua companhia, tu és uma querida.

Existirá o amor? Para quem acredita, ele existe certamente. Mas às vezes é mais cómodo não acreditar.

Nem tudo o que eu digo merecer ser levado a sério. Não ligues. Tenho estado tão isolado que quando tenho a quem falar ou a quem escrever abuso logo.

Antónia, tudo isto é um sonho, a minha relação contigo não entra nos códigos normais e eu não sei o que significa para ti gostar de mim nem para mim gostar de ti. Seria preciso desrespeitar tantas convenções, ter tanta coragem para continuar. Estou contigo, tu estás sempre comigo, mas até quando é que este delírio vai resistir às exigências da realidade? Se houvesse Deus e eternidade - e lagos e florestas na eternidade - creio que preferia esperar por ti lá. Ando nervoso, angustiado, não sei porquê. Às vezes atrai-me o abismo, deixar-me escorregar lentamente, ir desaparecendo, fugir de tudo, destas aparências, deste mundo de sombras. Mas isto passa.

Eu não te quero perder. Mas quando tu te quiseres ir embora, eu entendo. Tens de viver a tua vida, acabarás por esquecer esta loucura. Se te imagino nos braços de outro homem fico triste, mas sei que me amaste tanto quanto foi possível e enquanto foi possível.

O que é um poema, tu sabes? Olha, isto é um poema:

“Some proteins can take on two
conformations: one that is quite
stable in water, and another that
is triggered (induced) by contact
with the hydrophobic cell membrane.”
Leio estas palavras e elas
dizem: eu amo-a.

Teu, sempre.

Gonçalo

(Caderno verde)

Não haverá Verão

Querido Gonçalo,

Recebi os teus postais, pareces triste, pelo menos num deles. A tua letra é um bocadinho difícil de ler, mas acho que consegui.

Passas o Natal sozinho? Não bebas demasiado, mas ficar alegre não faz mal nenhum, é uma sensação muito boa.

Não, tu não és o terceiro em coisa nenhuma, em muitas és o primeiro, mas isso tu sabes. E eu não te quero atormentar. Estive zangada contigo porque às vezes não entendo o teu sentido de humor, brincas com coisas sérias e eu fico perdida, não sei o que pensar. Agora, depois da nossa conversa telefónica, já entendo tudo e estou mais calma, sei com o que conto, o que para mim é essencial.

Lembras-te que há uma semanas atrás me chamaste sopeira? Sim senhor, olha que lindo elogio. Nem quero acreditar. Mas então não nos conhecíamos como agora e tu estavas desconfiado, pensavas que eu não era eu. Por isso perdoei-te.

Chove torrencialmente lá fora, este ano parece que não vai haver Verão.

Quem sabe se um dia não me convidam para dar uma conferência aí, no Departamento de Física, ficava a conhecer o sítio onde tu vives.

Não te esqueças de mim. Meu amor, I love you.

Antónia

(Caderno verde)