Tuesday, December 30, 2008

Boas Festas



A CD player Azur from Cambridge Audio, an hybrid amplifier 170 from Jolida, speakers RS1 from Monitor Audio. Try it and let me know if your CDs didn't sound better... True, it is a bit expensive. Use your credit card, the banks may well die before you and anyway the taxpayers will sponsor them to avoid the end of liberal capitalism. Listen to all kinds of music. As sonatas de Beethoven tocadas por Wilhelm Kempff, por Schnabel, por Kovacevitch, por Gulda, por Solomon, por Richard Goode, pelo jovem Paul Lewis, por Brendel, por Backhaus, pouco a pouco talvez se aprenda a distinguir. A música é rigorosa como a matemática, é certo, mas também se vai desenrolando como um poema, como um romance, como o pensamento, como uma conversa. Oiçam-se sem parar os quartetos de Beethoven, os quartetos e quintetos de Schubert, os lieder e a música de piano de Schumann, Chopin, as Bodas de Fígaro de Mozart. Etc. etc. etc. Em tempos não muito recuados (a avaliação do tempo é sempre muito subjectiva) só gente muito priveligiada podia ir ao concerto ou à ópera. Alguma música ressentiu-se disso, mas não toda. Um dia o planeta vai congelar, disse Nietzsche, e de nós não restará absolutamente nada. Entretanto vai-se morrendo de fome ou debaixo das bombas um pouco por toda a parte, mas não tem grande importância, nós afinal vivemos disso. É preciso aproveitar enquanto é tempo. Encher o bandulho de comida e de álcool para festejar o Natal e o Ano Novo é um vício vulgar, evidentemente, para a plebe. Gente sensata, com um pouco de pudor e educação, não totalmente perdida de si mesma, olha com cepticismo para o esplendor luminoso e colorido que anima as ruas das cidades durante as Festas, embora uma vaga e simpaticamente poética nostalgia invada o espírito quando ao fim da tarde decidimos ir ver o que se passa lá fora. É preferível concentrar-se nas sonatas de Beethoven.

La ci darem la mano

Anna Netrebko and Bo Skovhus

Monday, December 22, 2008

Lixo do Natal

Mais de 60 mensagens na caixa do spam do gmail, eliminadas pelo filtro. Não abri nenhuma. Mas à primeira vista são mensagens convidativas, a suscitar curiosidade ou interesse. Não há ninguém capaz de pôr fim a esta balbúrdia nojenta?

Can’t find you, darling.

Keep trying!

Let’s meet as usually.

Sure. How many condoms should I bring with me this time?

You probably gave wrong number.

I always give the wrong number the first time, baby! (P. S. Are you Chinese?)

When will we meet again?

Not so soon, tonight I am going out with your sister, I think I love her.

I lost your cell number.

Ask Freud for an explanation.

We were looking for you.

I was having breakfast with Natalie Portman.

Your week-end will not be good without good nights.

Don't worry, I already made a reservation at the Four Seasons and will take with me The Brothers Karamazov in a new translation.

Your girlfriend seeks for you.

Please don't tell her that we spent the last night together.

It’s cold, don’t keep me waiting.

What are you waiting for? I have nothing for you.

Don’t reject my calls.

I only do it because it's good for my self-esteem!

Add more splendor to your style.

I am doing my best. Can't you see it?

Don’t disapear now.

I am just going to pee.

Don’t come, let’s cancel it.

Again? You whore!

The whole room waits you.

I adore women, it's true, but will never show me naked to more than one at a time.

What’s your hall of shame?

What's about yours, can we talk about it?

We need you here, now!

Can't you wait until next week? I am in my honeymoon holidays in the Bahamas at this moment.

She is asking for your number.

Give it to her, but don't let her know that I am married.

Light her eyes with fire of true adoration.

Only if you promise to have dinner with me tomorrow.

Come upstairs.

Can't we do it here?

Take her home!

She is married and her husband is very jealous... I can't.

Saturday, November 29, 2008

Sete menos vinte

“Não há saída, não há solução”, disse ele. “Não somos nós que decidimos, nós não sabemos o que se passa e por isso não podemos decidir”.

Eu não disse nada. Havia umas raparigas sentadas a uma mesa da esplanada, ao fundo do café, fumavam e bebiam cerveja. Numa mesa mais perto da nossa o rosto (os dentes, os lábios) de outra rapariga ofereciam-se, com uma generosidade comovente, ao rapaz que lhe falava e a escutava.

“Não há nada a fazer”, disse ele, “nós não decidimos nada, as coisas acontecem independentemente da nossa vontade”. “

É possível”, disse eu, desinteressado da conversa, “é muito possível que tu tenhas razão”.

Não me apetecia aprofundar o problema. Não me apetecia pensar.

Passaram dois automóveis na estrada ao lado do rio, algumas pessoas iam e vinham, havia um barco branco encostado ao cais em frente de uma loja de utensílios para casas de banho. A tarde arrefecia, eram sete menos vinte. O sol, que nenhuma nuvem impedia de brilhar, ia-se lentamente afastando. Enrolei um cigarro.

“A noite passada”, disse ele, “sonhei com ela. Não a via há muito tempo, mas ela visitou-me no sonho. Estava em grande forma, os olhos dela brilhavam. Conversámos, ela manteve-se distante. Depois chegaram outras pessoas, ela conhecia-as, começaram a falar entre elas, fiquei de fora. Apanhei um comboio para ir não sei aonde. Ou foi ela que apanhou o comboio, já não me recordo, não consegui perceber. Não a via há muito tempo, gostei de a ver.”

Ficámos calados, depois eu perguntei-lhe se ele ainda gostava dela. Ele não respondeu logo, ficou pensativo. Depois disse que era possível, não estava seguro. “Mas ela vive com o outro”, disse eu, “esqueceu-te, tu deixaste de lhe interessar. O teu sonho não tem sentido”. “

Os sonhos”, replicou ele, “não têm de ter sentido. Eu tinha saudades dela e ela voltou, pude falar com ela”.

Calei-me. Não é fácil aceitar a imperfeição das pessoas, a imperfeção do amor. A menina que ele tinha amado envelhecera, transformara-se, já não existia senão na sua imaginação. Era um remorso, um devaneio absurdo. Mas o que é que eu tinha a ver com o assunto? Nada.

As duas raparigas que estavam ao fundo da esplanada levantaram-se, passaram por nós, foram-se embora. A rapariga que conversava com o rapaz na mesa mais perto da nossa ria-se, via-se que era feliz.

Wednesday, November 12, 2008

Realismo

Ela queria tirar partido da sua beleza para me seduzir, me subjugar, explorar os meus sentimentos e a minha devoção. Os olhos, as pernas, o cabelo, os lábios, os seios e o resto, incluindo a roupa e as maneiras, eram os argumentos da sua força. Porque outros homens a admiravam, a desejavam, a queriam, ela sentia-se no direito de me impor uma escravidão sem limites. Protestei: eu não posso submeter-me ao amor de uma mulher só porque ela tem outros pretendentes, desengana-te. Ela olhou para mim sem pena, ofendida, e desapareceu, nunca mais me telefonou.


(Caderno Azul)

Monday, November 10, 2008

Separação

 
Se continuo a falar é porque ainda não me separei totalmente das várias comunidades a que pertenço. Ainda oiço o que eles dizem, ainda falo para que me oiçam. Às vezes só falo para dizer o meu desacordo com eles, para me distanciar do universo em que eles vivem. É uma forma de protesto que ainda me mantém no interior da comunidade. Isto é, ainda presto atenção à existência deles, ainda dou alguma importância ao que eles dizem. Eles ainda me inspiram, ainda me irritam. É difícil imaginar o que seria a minha existência se eu me desligasse completamente deles, se deixasse de os ouvir, se ignorasse a comunidade a que eles pertencem. Uma comunidade é uma ficção, as pessoas movem-se no seu interior respeitando um certo número de regras, convencidas de que aquilo em que acreditam tem existência real. Quem está de fora e os ouve falar pode ter dúvidas e olhar para eles com ironia ou desprezo: são tão jovens, ainda não perceberam. Às vezes interrogo-me: vou morrer sem me ter separado radicalmente das crenças que os fazem vituperar ou idolatrar as pessoas e as instituições? Eles organizam o mundo em que vivem, distinguem a verdade da mentira e o que é bom do que é mau como se por detrás do trabalho e dos esforços deles estivesse a figura perfeita e respeitável de Deus. Não me apetece imaginar a minha morte assim. O equívoco não pode continuar, tenho de tomar em breve uma decisão. E então deixarei de falar. Posso continuar a ouvir, a reflectir, não sei. Mas deixo de reagir porque o meu destino deixou de estar relacionado com o deles e com as ficções ordenadas em que eles acreditam. A solidão não me mete medo. Deixarei de esperar, de imaginar, de fazer projectos em que eles estariam envolvidos. A existência deles deixou de me dizer respeito. Se se preocuparem comigo eu ignoro-os porque já não estou ao alcance das palavras deles nem dos olhares deles nem das histórias que eles reinventam todos os dias para que aquilo a que chamamos a vida continue a desenrolar-se segundo a lógica do costume, inabalavelmente. Um dia nasci, um dia morri. Tudo o que se passou entre nascer e morrer foi um mal-entendido. Mas ao separar-me da comunidade das ideias e dos sentimentos aproximei-me enfim, sem ilusões nem esperanças insensatas, da verdade, isto é, do vazio, do nada, do absoluto. É preciso tomar uma decisão, não posso continuar a dar importância ao que não tem importância.

Thursday, October 23, 2008

Minimalismo, virtudes do

It's been a month since I last saw her. I wonder what she's doing right now.

Hoje seria tecnicamente possível pôr todos os livros que já se escreveram numa base de dados na internet e consultar, segundo o desejo, a curiosidade ou a necessidade, por tópicos, o que lá está. Como se fosse uma enciclopédia ou um diconário. Seria interessante seguir o desenrolar ou suceder das perspectivas sobre determinado tema: o amor, a morte, a ambição, por exemplo. E a perda da inocência com que nos atrevemos a escrever de determinada maneira as nossas "obras literárias" provavelmente reduziria em 50 ou 90 por cento o número de livros publicados.

No entanto, apesar do tédio, é ainda possível, escrevendo pouco e despretensiosamente - "underplaying" - captar a atenção de alguém. Porque será?

Sunday, October 19, 2008

Direitos

Eu nunca os critiquei nem me ri deles por eles, rapazes, gostarem de rapazes. Mas eles sempre acharam excessivo e decadente o meu interesse pelas mulheres. Com que direito?

Friday, October 3, 2008

A fotografia

Estou cansada, não olhe para mim.
O que se vê, sabe ? Sombras, linhas.
Já percebi que os meus olhos
o fascinam. Não tenho culpa.
Eu estou sentada a olhar. Não
a olhar para si, não o conheço,
a fotografia é antiga. Não se
iluda. Nem eu me recordo
já. Ou recordo? Que espera?
Que eu o ame? Que eu o
compreenda? Que eu lhe fale?
Lembra-se da história que eu
lhe contei? Absurda, cruel.
As pessoas, quando se lhes mete
uma obsessão na cabeça, são
imprevisíveis. Já passou. A
fotografia data desse tempo,
provavelmente. Mas vê como
eu estou serena? Só os
meus olhos brilham, eu
nunca renuncio, deve ser
por isso, nem me deixo vencer,
nem convencer, ninguém me
humilhará. Já passou, eu
disse-lhe. E você, como está?
Não olhe para mim dessa maneira.
Não se perca de si mesmo, é
arriscado. Nada dura, sabe?
Nada. E dá trabalho, o amor.
Dá muito trabalho. E depois
perguntamo-nos: mas era amor,
era o amor, realmente? Talvez
não fosse. Os malentendidos
acontecem frequentemente. E os
dias sucedem-se, gastamo-nos
neles, perdemo-nos, vamos
à deriva. Objectivos? Sim,
é preferível ter um projecto
e manter-se fiel à inspiração
que o originou. Eu estava
sentada com um caderno na
minha frente, vê? Mas quem me
tirou a fotografia, quem mereceu
aquele olhar, aquele rosto sério?
Não, você eu nem sequer sabia
ainda da sua existência, só nos
conhecemos mais tarde, não
se iluda. Não se ilude? Eu
sei. É uma maneira de falar,
gosto de advertir as pessoas,
que se acautelem comigo, eu
estou tão ferida por dentro que
já não sei se tenho forças para
prestar atenção a alguém. Para
me interessar por si e pela sua
vida. Nem você espera tanto de
mim, provavelmente. Mas eu
aviso-o por uma questão de
respeito - por si e por mim.
Aliás você também tem um ar
cansado. As fotografias que me
enviou, sobretudo a mais recente,
deixam entrever que não há
paz no seu espírito. Que você
provavelmente está ainda
preocupado com qualquer coisa
que recentemente o atormentou.
Tem dormido bem? Tem a certeza?
Não me quero meter na sua vida,
mas você enviou-me as fotografias.
E sugeriu-me que nenhuma
fotografia pode dar uma ideia da
pessoa que você ou eu somos. De
acordo, não contesto. Mas
porque me disse que eu era
bonita e tinha um ar sossegado?
Gostou de mim? Estou cansada,
divido-me entre mil coisas, falta
uma orientação precisa ao meu
destino. Não que eu esteja perdida,
não é isso. Mas necessito de fazer
a síntese de tudo o que me acontece,
do desejo, da inquietação, sei lá,
a síntese. Para ver com mais
clareza o meu rosto no espelho,
pôr os pés no chão com menos
hesitações, afastar-me com mais
determinação de tudo o que não
me serve para nada. Mas porque
lhe conto isto? Você provavelmente
nem quer saber, estou a aborrecê-lo.
Não olhe para mim dessa maneira,
não se ponha a imaginar-me como
eu não sou. Dê tempo ao tempo.
Talvez um dia nos encontremos,
tomamos um café, conversamos.
Quem sabe? Tudo pode acontecer.
Gosto de falar consigo, já lhe disse.
Tenho prestado atenção à sua
existência. Mas quem sabe
o que é o amor? Ou a amizade?
E porque damos nomes aos
nossos sentimentos, para quê,
em vez de deixar as coisas ser
o que são, acontecer como
acontecem? Eu não quero
histórias, estou cansada de
histórias. Deixar correr,
deixar acontecer, não pensar
excessivamente, furtar-se
às regras que nos impõem.
Sem os nomes que lhes
inventamos o que são os
sentimentos? Ora, não
interessa. O desejo não se
explica, nem o tédio, nem o
desinteresse, nem a decepção.
Olhamos, vemos, sentimos.
É isso. Sem ter palavras para
o que vemos, para o que nos
acontece. Como se não
tivéssemos memória, como
se não soubéssemos falar. Que
interessante podia ser a vida se
nada tivesse nome, se nós
não tivéssemos a capacidade de
querer entender e explicar. Mas
basta, esta carta já vai longa.
Escreva-me, se lhe apetecer.
Talvez eu lhe responda.

(9-6-2007)

Tuesday, September 23, 2008

O Encontro

Uma mão fechada, em frente a mim, dormitava sobre a mesa. Voltou-se subitamente e abriu os dedos como se me pedisse para lhe ler a palma.
Mas enquanto lhe observava as linhas saltou subitamente e deu-me uma bofetada.
Comecei a chorar.
E essa mesma mão levantou-se e limpou-me as lágrimas do rosto...

Russell Edson, O Espelho Atormentado, OVNI, 2008
Edição bilingue
(Tradução de Guilherme Mendonça)

Sunday, September 21, 2008

Love is like life

She switches off the light and sits down in the rocking chair, and at that moment it strikes her that love is actually like life. You know it's going to end badly, that it's going to end too soon and there is no hope of its lasting, but you go on living all the same.

Ivan Klíma

No dia 7 de Outubro de 1999 comprei Lovers for a Day, um volume de short stories de Ivan Klíma. Em Junho de 2000 comprei Love and Garbage, um romance do mesmo autor. Só agora abri e estou a acabar de ler o primeiro livro e ainda não comecei o segundo (mas vou lê-lo a seguir). Acontece que alguns livros são comprados e nunca serão lidos por quem os compra. Quais serão as razões que nos levam a comprar um livro, certos livros, e não outros? A resposta a esta pergunta teria de incluir várias alíneas: a ideia que temos do autor; o título; a capa; a editora; o tradutor ou a tradutora, o prefaciador ou a prefaciadora; as relações complicadas que se estabelecem na nossa cabeça entre autores, países, títulos, géneros literários; aquilo que sabemos que lêem as pessoas que nos servem de referência positiva ou negativa; circunstâncias da nossa própria vida, presentes ou passadas; etc. Nem quero saber.

Wednesday, September 17, 2008

Fumo

Nos últimos dias consegui fumar apenas metade (ou menos de metade) de meia dúzia de cigarros. Não é fácil, para quem está habituado a fumar mais mesmo sem engolir deliberadamente o fumo. Já entendi por que razão, instruídos pela experiência, hesitamos antes de acender um cigarro ou o apagamos, culpabilizados, antes de ele chegar ao fim: fumar nasce de uma sede ou fome de qualquer coisa de natureza simultaneamente química e espiritual que o tabaco nunca satisfaz; e ainda por cima o tabaco mata. Porque insistimos? Mais uma metáfora simplória daquilo que é a existência: eterna procura, permanente derrota. 

Sunday, September 14, 2008

Invenções

Falar do que não existe é uma bela invenção. Atribuir sentimentos a personagens fictícias é outra bela invenção. Invenções banais nos tempos que correm, temos de reconhecer. Depende sempre do ouvinte ou do leitor: só o que é lido ou ouvido acede à existência. Si le lecteur se sent concerné, alors la fiction ça marche. Construções mentais, tudo. À volta de uma pedra, de um rosto, de uma estátua, de uma sombra, de um fantasma, de um pesadelo, tecemos fios finos da intriga, cruzamo-los. Trabalho modesto de sobrevivência da aranha ou da abelha? A Betty, por exemplo, fui eu que a inventei para me fazer companhia quando me aborreço. Conheço-a e ao que ela sente e sofre como aos dedos das minhas mãos.

Wednesday, September 10, 2008

Estrangeiro

Eu podia olhar, mas agir não. O mundo não estava à minha disposição. Deixava-se olhar, mas não me pertencia. Eu perdera a capacidade de querer, se olhava mais firmemente ou com mais convicção para alguém ou para alguma coisa o mundo irritava-se comigo. Era uma experiência interessante, essa, de se ver recusado pelo mundo. Nada a fazer contra as circunstâncias, porém. Ouvir as conversas no café distraía-me. A minha curiosidade era ilimitada. Mas não podia agir e se a rapariga na mesa ao lado da minha me olhava, eu sentia-me intimidado. Se ela, virada para mim, cruzava as pernas, eu sentia-me intimidado. Preferia não olhar, não ver, não me dar conta. O mundo não me pertencia, eu não podia aproximar-me excessivamente dele sem correr o risco de me ver recusado. Eu evitava olhar as pessoas nos olhos. Era um estranho mundo. Era o mundo para mim naquela tarde. O meu olhar incomodava-o, ele incomodava-me. Para onde ir, onde está o meu mundo, interrogava-me eu. Não sabia. Ficava sentado no café até tarde, indeciso, surpreendido talvez. Esperavam-me em casa, mas era cedo para regressar. Uma vez regressado, eu já não voltaria a sair. Estava, nesse Verão, num mundo que não era o meu, mas era um sentimento que me acompanhava recentemente por onde quer que eu fosse. Eu estava de viagem, é certo. E podia continuar a viajar, bastava-me comprar um bilhete, meter-me no comboio, ir para outra cidade. Mas andar de cidade em cidade não tornava o mundo mais habitável, eu fizera a experiência e sentia-me em todo o lado um estranho e um estrangeiro. Por isso deixava-me estar, ia ao café quase todas as tardes, saboreava um martini branco e fumava um cigarro. Às vezes lia e escrevia num caderno as minhas reflexões.

Wednesday, August 27, 2008

A verdade

Durante muitos anos escrevi diários. Tenho as gavetas cheias de cadernos. Ao relê-los agora dou-me conta de várias coisas. Quando usei iniciais para me referir a pessoas, nem sempre sei a quem me estou a referir, não tenho às vezes a mínima ideia de quem foi essa pessoa que a dado momento cruzou a minha vida ao ponto de me levar a escrever sobre ela e sobre as nossas relações. O acontecimento que mereceu referência também se apagou frequentemente da minha memória e é-me impossível reconstituí-lo. Nos casos em que os nomes foram citados e em que a narrativa é detalhada e se prolonga, a experiência actual de releitura tem outras características: ao confrontar a memória que conservei desses acontecimentos com a narração que deles ficou registada no diário dou-me conta daquilo que nas duas versões não coincide. O que eu recordo e penso que aconteceu é algumas vezes – muitas vezes? - diferente do que eu escrevi que aconteceu no momento em que registei o acontecimento no diário. Relendo com alguma paciência o que detalhadamente escrevi, sou também obrigado por vezes a corrigir a própria ordem de sucessão dos diversos episódios tal como ela se imprimiu na minha memória ou como ficou anotada no diário – e portanto a importância e a significação desses episódios na história em questão. Em resumo: reajustamentos, reinterpretações sucessivas das partes e do todo. É possível nalguns casos ir seguindo com alguma minúcia o evoluir da relação que tive com uma pessoa. Surpreende-me então, subitamente, às vezes, a minha ingenuidade do tempo dos acontecimentos. Não sei se o facto de ter mais tarde entendido o que não fora capaz de entender enquanto as coisas estavam a acontecer me pode servir de alguma consolação. Talvez. Eu sei que a minha narrativa, quando envolve outras pessoas, há-de ser para sempre imperfeita: falta-lhe a versão dos mesmos acontecimentos contada pela outra pessoa, alguém tão real ou irreal como eu e que fez, disse e sabe coisas que eu ainda hoje ignoro. O que é a verdade, então?

Saturday, August 23, 2008

Museus

Eu não vou aos museus para ver obras de arte. Sento-me cá fora, à entrada ou no pátio interior, a observar as pessoas que vêm, imbuídas de fervor religioso, ver as obras de arte. Vejo-as tirarem-se fotografias umas às outras, vejo-as caminhar descuidadamente para a entrada das salas do museu. São obras de arte vivas, enigmáticas na sua aparente normalidade e na sua talvez genuína banalidade. Os gestos que elas repetem, apesar de semelhantes ou idênticos, devem ter a marca das suas ocultas personalidades, dos seus obscuros desígnios. Quando regresso a casa levo o espírito cheio de imagens, de perplexidades, de movimentos, de enigmas a decifrar.

Friday, August 22, 2008

O corpo


Há o corpo. Sem ele, nada feito. Podem falar, digam o que quiserem, mas não se iludam: o espírito não basta, é preciso dar garantias materiais. O espírito é o mais importante, é a única coisa importante. Mas o corpo é a garantia, o instrumento da soberania e da submissão, a moeda que permite iniciar o negócio. O cinismo, a ingenuidade ou o mal-entendido adivinham-se: o corpo que se ostenta, que solicita a admiração e quer ser desejado quando o objectivo em vista é fazer a conquista do espírito. Reflectir sobre as razões do estranho subterfúgio.

Saturday, August 9, 2008

Cá fora e lá dentro




À distância, longe de casa, pode-se falar. Quando se está dentro da casa as palavras não têm o mesmo sentido e é preferível calar-se. Em casa não se é livre, as paredes limitam o espaço. As janelas, se deixam entrar a luz, não se abrem verdadeiramente para o exterior. Aqueles que vivem na casa vigiam o sentido das palavras. Um país, uma casa, uma cidade, uma família: tudo são fronteiras, paredes, limites. Aqueles que estão fechados na casa não entendem o que se passa lá fora. Metidas em caixas as palavras não respiram e adquirem sentidos que não têm se ditas à distância, longe daqueles que vigiam tudo o que se passa na cidade. Por isso, provavelmente, me fui embora e nunca hei-de voltar. Conheci a liberdade, não me apetece deixar-me amarrar de novo à mesquinha lei local. A ditadura não terminou. Não se pode falar livremente. Eles interpretam mal as nossas palavras, por incapacidade ou porque não admitem que alguém possa ir além daquilo que eles permitem que seja pensado. Não voltarei. As palavras são o que me resta, não aceito perder a liberdade de as usar incitado pela descoberta, pela dúvida, pelo risco, pela possibilidade de escapar à rotina que nos arrasta de dia em dia sem esperança.

Thursday, July 31, 2008

Duração


Qual é a longevidade das palavras? Algumas morrem à nascença, ninguém deu por elas, aquele que as pronunciou esqueceu-as ou nem se deu conta de que as disse. Outras morrem cedo, discretas, para ressuscitar, estranhamente, com consequências imprevistas, mais tarde. Outras duram no momento em que são ditas, a sua existência indecisa ou decidida prolonga-se, por vezes com interrogações e dúvidas, por vezes luminosa e incisiva. Há palavras que nunca mais se esquecem, palavras que duram numa existência intermitente, palavras que ficam suspensas não se sabe em que espaço ou tempo e sobre o sentido das quais se pode longamente discorrer, palavras que queremos esquecer e não conseguimos, palavras erradas, palavras certeiras, palavras que são remorsos, palavras que são o amor ou o ódio em vez de serem palavras. O sentido das palavras não muda com o tempo que passa? Muda: elas amadurecem, envelhecem, rejuvenescem, perdem e adquirem significações e importância, como tudo o que existe. Seria pretensioso querer catalogar em poucas linhas tudo o que pode acontecer às palavras e tudo o que por causa delas nos pode acontecer. É melhor não pensar demasiado no assunto.

Tuesday, July 22, 2008

Linhas

Se eu soubesse desenhar,
desenhava o rosto da rapariga
que estava sentada no café
com as amigas. Era ao fim
da tarde, estava calor. Ainda
tentei, mas a linha do nariz,
depois a da boca, depois o
queixo, para não falar da
linha do seio direito e da
linha do ventre nem da linha
das pernas, foram dificuldades
que eu não soube ultrapassar.
Por isso desisti e limitei-me
a admirar a sua beleza discreta,
tão tranquila. Cada um de nós
é um universo, o mundo. Quem
nos vê nem imagina, não pode
imaginar. Se acontece, por
vezes, falarmos uns com
os outros, e se a curiosidade
não desaparece depois de
trocarmos duas ou três frases,
começamos a pressentir as
razões por que podíamos
amar uma pessoa que no
entanto nos era, alguns
minutos antes, totalmente
desconhecida. A maior
parte das vezes, porém,
limitamo-nos a olhar. E
depois voltamos às páginas
do livro que estávamos a ler.
Ou assaltam-nos as
recordações de um amor
antigo que sempre nos deixa
meio melancólicos. E a
vida, que está cheia de
mistérios, continua sem
mistério nenhum a decifrar,
não podemos iludir-nos,
enquanto as horas vão
passando, a tornar a nossa
existência, esse único tesoiro
que nos foi concedido, mais
interessante do que ela é. O
tédio domina. Para escapar-lhe,
nós acreditamos no futuro
como algumas pessoas
acreditam na felicidade da
vida eterna que nos espera
depois da morte, no paraíso.

Saturday, July 12, 2008

Tudo nos acontece

1

Para o lago escuro
onde moram os deuses
nós íamos. Com os
olhos vendados
fixos na luz.

2

Os braços que
abraçaram,
os lábios que
beijaram. E a
palidez do
corpo inerte.
Tudo nos
acontece.

3

As palavras.
As mesmas.
Para
dizer a verdade
e para mentir.
O amor e
a imitação
do amor.
Tudo nos
acontece.

4

Os lábios que
nos sorriram.
Os olhos que
não mentiam
ainda (não era
preciso).
Tudo nos
acontece.

5

Eu lembro-me.
Tu lembras-te?

A manhã nascia
na floresta,
à beira do lago.

A torre da igreja,
tão próxima,
batia as horas.

A dor, às vezes,
depois,
tanto sofrimento.

Tudo nos acontece,
ninguém escapa
ao destino
de todos.

Wednesday, July 9, 2008

Pensar e agir, etc.




1. É possível atribuir um sentido correcto às palavras sem saber quem as disse?

2. Num romance, num conto, o sentido e a importância das palavras que são ditas pelas personagens é condicionado pela sua origem: as personagens, imitação das pessoas reais, apresentam-se-nos com uma identidade. O valor, a importância, o sentido das palavras proferidas ou pensadas forma-se tendo em conta essa identidade da personagem.

3. Antes de haver conhecimento da identidade não há nada. Como se constrói, a partir do nada, a identidade da personagem num romance ou num conto? Através da palavra do narrador: as personagens agem, falam, vestem-se, de certa maneira; possuem isto ou aquilo, dão-se de determinada maneira com outras personagens e essas personagens com elas; mas também merecem comentários mais directos ao narrador. A partir dessas diversas manifestações da existência da personagem o leitor vai-se construindo a sua própria imagem ou ideia da personagem.

4. Na vida real, nas nossas relações, acontece a mesma coisa. As razões para adoptar alguma prudência na avaliação do carácter de outras pessoas são as mesmas na ficção e na vida real: que sabemos nós acerca de seja quem for? Pouco, nada, cometemos repetidamente erros a julgar quem não conhecemos e quem conhecemos. Mas ainda assim o sistema de interpretação vai funcionando, o sentido vai-se revelando e impondo aos poucos, nós acabamos por não hesitar excessivamente, o mundo à nossa volta tem sentido. E concluímos, agimos.

5. Devíamos talvez reduzir a importância de todas as nossas conclusões acerca do que nos é exterior (do que nos é íntimo é melhor não falar agora) e sobretudo acerca das pessoas reais e das personagens de ficção – elas são-nos sempre exteriores, puros objectos para nós, mas isso não invalida que sejam sujeitos com uma interioridade e uma complexidade desconhecidas.

6. Que nos enganamos, é um facto. Todo o conhecimento é apenas uma etapa para um conhecimento mais apurado ou mais perfeito. Correcto e perfeito num momento, o conhecimento é depois posto em causa pela experiência quando esta se prolonga (morremos em cima de uma verdade que no dia seguinte se revelaria duvidosa, imperfeita).

7. Todas as nossas certezas, que nos permitem pensar, decidir, agir, concluir, avaliar, etc., são, durante um instante, indiscutíveis. Duvidar impedir-nos-ia de fazer, de concluir, de viver, de progredir no conhecimento, pois havia de manter-nos num estado de inércia estéril. Podemos saber ou pressentir que todas as nossas certezas e verdades são momentâneas, mas se ficássemos, hoje, à espera da verdade de amanhã, e amanhã à espera da verdade de depois de amanhã, não dizíamos uma única palavra, não tomávamos uma única decisão, não nos detínhamos nem apoiávamos o suficiente em nenhuma conclusão. Mesmo provisório, o sentido imperfeito de hoje é sentido válido e útil, a ter em conta. Aceitá-lo, confiar nele, permite-nos agir, avançar, ir indo de actividade em actividade no caminho da vida.

8. Pequenos e grandes erros cometidos. Avaliamos mal os acontecimentos e as pessoas. Mas não há outra maneira de viver: o conhecimento actual, o de hoje, será sempre inferior ao conhecimento que teremos amanhã, no futuro. Nós agimos porque o facto de a verdade de hoje ser por natureza inferior à de amanhã não pode impedir-nos de estimá-la, de adoptá-la, de avançar na vida impelidos por ela.

9. Gadamer*, citando Aristóteles, Vico, Bergson e outros filósofos do passado, reflecte sobre a importância do “senso comum” e do “bom senso”. Refere Thomas Reid e comenta: “Inquiry into the senses and their cognitive capacity comes from this tradition [Aristóteles e a tradição escolástica do “senso comum”] and is ultimately intended to correct the exagerations of philosohical speculation. At the same time, however, the connection between common sense and society is preserved: ‘They serve to direct us in the common affairs of life, where our reasoning faculty would leave us in the dark.’ “

Hans-Georg Gadamer, Truth and Method, second
revised edition, Crossroad, New York, 1990

Monday, July 7, 2008

O tempo: digressões (2)

1. O que é o tempo? Qualquer coisa começa, continua, acaba. A imagem do cigarro que se fuma dá-nos uma ideia que parece correcta do que é o tempo.

2. Mesmo que não se perca o tempo, o tempo sempre se perde. Perde-se quando acaba o nosso tempo.

3. Nascemos, o tempo nasce connosco. Morremos, o tempo acaba connosco. Cada um de nós é o tempo. Inseparáveis, o tempo e nós. Não podemos viver um sem o outro.

4. O tempo? Um cigarro de onde sobe o fumo que desaparece no infinito. No fim restam as cinzas, que se dispersam e desaparecem para sempre.

5. Cada um de nós é o tempo. Tudo o que nos acontece é o tempo.

6. Tudo o que nós vemos é o tempo.

7. As pessoas que nos vêem viver assistem à existência (à passagem) do tempo.

8. O tempo é o que existe. O tempo é o que nos acontece ou não nos acontece, o que nós vemos acontecer e nos lembramos de ter visto acontecer.

9. Os nossos hábitos mentais fazem-nos separar o tempo daquilo que acontece porque o tempo não tem existência própria. Para o tornar visível, nós, que sabemos isso, separamos artificialmente o tempo do que existe.

10. Como se o tempo fosse uma coisa e o que existe outra coisa, como se o tempo fosse a pele que cobre a carne do que existe, dizemos: “foi nesse tempo que eu amei e fui amado”.

11. Ama-me enquanto é tempo quer dizer ama-me enquanto o tempo é. Por outras palavras: enquanto eu estou vivo. Depois é tarde de mais, quando eu já cá não estiver não há tempo, já não tens tempo. O tempo sou eu a existir.

12. Passa, na praça, um miúdo de bicicleta. É o tempo a passar diante de nós. O tempo atravessa o espaço, traceja-o com a sua presença. Nós seguimo-lo com o olhar. Se o miúdo parar, é o tempo que pára, o tempo deixa de existir? O tempo não pára nem deixa de existir porque o miúdo e a bicicleta são o tempo, mesmo quando não se movem.

13. Tiro uma fotografia com uma máquina fotográfica antiga, uso um filme Kodak pouco sensível, 100 ou 200 ASA. Escolho uma velocidade de abertura e fecho do diafragma demasiado lenta: a rapariga que ia a caminhar na rua e que eu fotografei risca a película, atravessa-a como o miúdo da bicicleta atravessava a praça. O seu rosto, o seu cabelo, as suas pernas arrastaram-se na paisagem, vê-se que estiveram e estão quase ao mesmo tempo, ter estado e estar confundem-se. Basta revelar a fotografia para ver o tempo em movimento.

14. Tu estás sentada na minha frente, silenciosa, imóvel, de olhos fechados, cara fechada, ausente ou como se estivesses morta. A tua imobilidade e a minha dão-me a ilusão da intemporalidade ou da eternidade. Quando abres os olhos e me vês percebo que a inexistência do tempo era ilusória, um esquecimento ou distracção.

15. O que nos seduz na imobilidade, quando a imobilidade nos seduz, é provavelmente a impressão que nós temos da inexistência do tempo. Sem ruído, sem movimento, a existência do tempo é um halo de silêncio e de paz, torna-se ainda mais difícil imaginá-la..

16. Não é necessário eu ver ou ouvir o tempo passar diante de mim para saber que ele existe. Eu também sou o tempo.

17. O piano: os sons, as notas, são o tempo a desfilar. O rio: o tempo a correr para o mar, isto é, para a eternidade, para o nada.

Janelas


Monday, June 30, 2008

Frases

O amor tem os efeitos de uma droga: faz-nos ver o mundo, a vida, as outras pessoas, com uma generosidade e um optimismo desajustados da realidade tal como ela é, da vida como ela é.

O sucesso social tem os mesmos efeitos: torna desnescessária a dúvida, a reflexão, a necessidade de continuar a aprender e a aperfeiçoar-se.

É por se quererem estáveis que as instituições, submetidas ao poder central de que são os principais pilares, não toleram a dúvida nem a desobediência.

A própria arte - a literatura, a música, a pintura, etc. - quando satisfaz a barriga mental dos detentores do poder cultural e das massas pouco exigentes, transforma-se numa instituição. Semelhante, nos estatutos e processos, às instituições políticas. A procura, a contestação e a dúvida desapareceram. Os artistas institucionais, festejando-se mutuamente, ainda se atribuem um lugar honroso à margem da "mediocridade reinante", que pretendem denunciar, contestar, contribuir para eliminar. Não se dão conta - ou deram e é por isso que se multiplicam em gestos de mútua solidariedade pública? - de que foram ultrapassados pela consciência que outros já têm dos acontecimentos.

O poder político gosta muito dos artistas que vendem, que são populares. Por isso os condecora: porque eles, os artistas que vendem muito, ajudam a manter a ordem social. Aliás eles são uma prova do funcionamento perfeito das instituições, que ajudam a subsistir canalizando a rebelião e a insatisfação na boa direcção.

O triunfo das instituições políticas, intelectuais, artísticas, reduz a nossa procura da verdade e a nossa aspiração à verdade a veleidades ingénuas: quem és tu, que não nos admiras nem te submetes ao gosto e ao poder que triunfaram, para pôr em causa as razões do nosso sucesso? E assim acabam por surgir às vezes, denodados, gastando-se fisicamente e mentalmente na luta, os génios verdadeiros.

Todos os movimentos modernistas tiveram de recorrer a formas de comportamento mais ou menos "revolucionárias" para tentar desalojar a arte que estava no poder. Muitas vezes conseguiram. Cometeram um erro, porém: imaginaram, com uma imaturidade de adolescente, que a verdade que tentavam impor era definitiva e ia durar.

Às religiões, em contrapartida, não escapam a imperfeição, a crueldade, o vício, a mediocridade humana.

A ver alguns filmes ficamos convencidos de que o amor de facto existe e é uma força terrível que permite escapar à mediocridade das relações. E sentimo-nos mais pobres, mais desprovidos da sorte ou do talento que permitem amar e ser amado. E assaltam-nos recordações que podem ser muito dolorosas dos dias que vivemos junto de alguém. Estava a pensar em In Mood for Love, por exemplo, de Wong Kar-wai, que também fez 2046 (estou à espera de ver My Bluebbery Nights).

Friday, June 27, 2008

O tempo: digressão

Passou o tempo.
Passa o tempo.
O tempo é
um comboio que
nós vemos passar e
à janela, a afastar-se,
vão as pessoas que nós
conhecemos e amámos,
que esquecemos ou nunca
vimos. Ainda acenam com
a mão, ainda sorriem?
filme impreciso, as imagens
não são claras. Talvez
a melancolia se tenha
entranhado nas almas daqueles
que uma vez, no tempo
irrecuperável, nos falaram
e nos ouviram, nos
beijaram e abraçaram, nos
amaram ou nos odiaram,
nos ignoraram ou tentaram
destruir-nos sem o conseguir,
coitados. O comboio
afasta-se, é uma silhueta
vaga em movimento
incerto, aonde irá? Os
meus olhos tentam reter
os rostos que se vão embora
e nunca mais hão-de voltar.
Mas não é fácil fixar o que
vai desaparecendo. Provavelmente
o tempo não existe, é uma aguarela
pintada pelas mãos inocentes
de uma rapariga. Talvez
o tempo seja um dos nomes
que nós damos ao que não
tem nome. O tempo
nunca pára de passar?
O tempo nunca sai
do mesmo sítio?
Somos nós que
passamos por ele,
o tempo somos nós
que vamos na vida de
viagem em viagem?
Pelo menos nas histórias
que nós contamos
é assim que as coisas
se passam. Tão
estranhamente, é verdade.

Monday, June 23, 2008

LETRÁRIO: Nova Editora, Digital

http://www.letrario.pt/1_pt/900/9002.htm

A terra: alguns detalhes



Quando se tiram fotografias de um carro em andamento, a nitidez da fotografia, evidentemente, é menor do que se estivéssemos parados e usássemos um tripé.


Sunday, June 22, 2008

Bares

Antes de ir para casa parei no bar da Hollister para saborear uma Perrier (conduzo, não posso beber álcool: se a polícia nos apanha são uns cinco mil dólares de despesa). Não havia muita gente (da última vez, há uma semana, estava a abarrotar porque o trimestre e o ano lectivo terminaram e os estudantes, antes de desaparecerem, precisavam de festejar). Sentei-me lá fora, no pátio, tranquilo, com a água na frente, e fiquei a ouvir dois tipos que falavam de literatura a dois metros de mim (colegas, provavelmente, mas eu não os conhecia). À mesa a que me sentei estava sentado um rapaz com um copo de cerveja quase cheio na frente. Tinha todo o ar de se aborrecer. Minutos mais tarde levantou-se e desapareceu, mas deixou a cerveja. Quando os outros dois chegaram, o rapaz americano e a estudante europeia, o americano perguntou-me se podiam sentar-se. Disse-lhe que sim. Foram buscar uma cerveja, voltaram, sentaram-se. O tipo mandou logo a mão para as pernas da rapariga, fiquei quase chocado. Foram falando e eu ouvindo. Ela era uma jovenzinha inocente e tímida que veio passar uns meses à América para aperfeiçoar o Inglês e ia-se embora para a Europa no dia seguinte, estava cheia de pena. A experiência na América, evidentemente, tinha-a entusiasmado. O clima da Califórnia, além disso, é fantástico. E ela tinha visto tanta coisa nova, conhecido gente tão interessante - até brasileiros, tão simpáticos sempre e a falar uma língua tão bonita.

É curioso como nas conversas de engate, quando as coisas ainda não estão seguras, se fala de tudo menos do que está em jogo. O lobo queria comer a ovelhinha e eu, por solidariedade europeia, achava que ela não devia deixar-se comer por um lobo americano. Parecia bom rapaz, talvez o fosse, mas estava a querer resolver o assunto de maneira que achei abusiva, apressada, desenvolta. Ouvi-o falar com uma convicção romântica excessiva do sabor delicioso do leite acabado de ordenhar, das piscinas que limpava num hotel em que trabalhara em Miami, de aviões e de companhias aéreas, de batatas fritas, do país dela, não sei de quê mais. A conversa evoluía nervosamente, não tinha rumo nem tópico definido. O tópico, apesar de dissimulado, era no entanto evidente: tenho de a comer, dê por onde der, ela vai-se embora amanhã. A dado momento meti-me na conversa para confirmar que fries em French fries significa de facto fritas. Depois falámos, primeiro ele eu, depois ela também, de política. Eu disse que não gosto do Obama - fala bem de mais acerca de tudo e é um arrogante, eu prefiro a Hillary - e ele respondeu que de qualquer modo quem vai ganhar as eleições é o candidato republicano. Fiquei informado. Abordámos a questão dos impostos, a questão da debilidade do dólar, falámos do preço proibitivo da gasolina e da guerra do Iraque, tudo assuntos sobre os quais as opiniões dele eram apenas políticas, isto é, "republicanas". Sem interesse para mim, mas dava-me um prazer cínico ter introduzido a fria realidade na fábula poética em que ele tentava envolver a rapariga. Acabei por dizer todo o bem e todo o mal que penso da América, não resisto nunca a tentar fazer uma síntese convincente das contradições deste país. Apesar de me prestar atenção, o americano, compreensivelmente, estava era interessado em seduzir a rapariga. Achei-o vagamente impaciente, eu estava a fazê-lo perder tempo e a prejudicar-lhe a estratégia. Decidi deixá-los em paz. Levantei-me, disse boa noite, saí. Quando me sentei no carro ouvi-me dizer: filho da mãe de republicano sabido, oxalá leves uma tampa.

Friday, June 20, 2008

Acontecimentos

Há acontecimentos que não só nunca aconteceram mas se tivessem acontecido continuavam a não ser acontecimentos. A insignificância inventa insignificâncias para se distrair, para se inserir no universo clamoroso do insignificante, do que mesmo que tivesse acontecido não era acontecimento. É grave? É, porque o mundo, a terra, a vida, estão cheios de acontecimentos que passam despercebidos e entretanto os anos que nos foram dados vão-se esgotando e nós não os aproveitamos.

Thursday, June 19, 2008

Sonho

Ela sonhou com ele, mas não lhe disse nada. Ele, sempre atento, enviou-lhe mentalmente uma mensagem: está descansada, eu nunca deixarei de gostar de ti, embora te odeie. Ou foi ao contrário, nunca deixarei de te odiar embora goste de ti? Confuso, não sabia se devia enviar outra mensagem a corrigir a anterior.

Wednesday, June 18, 2008

Porquê?

Ainda não percebi bem por que razão estarem de acordo connosco - amarem-nos, por exemplo, que é uma atitude de adesão ao nosso hipotético amor por nós próprios - nos dá prazer, nos envaidece, nos leva a acreditar que estamos no caminho certo. Triunfar na vida é isso?


Friday, June 13, 2008

Eles amam-nos



O preço da gasolina continua a subir e as companhias petrolíferas a enriquecer-se escandalosamente. Aqueles que nós escolhemos para nos governar amam-nos, mas não dão provas disso, esquecem-se de usar do poder que depositámos nas mãos deles. As fábricas de automóveis um dia destes fecham, o desemprego aumenta, os nossos automóveis vão apodrecer na rua ou na garagem. Haverá burros suficientes para nos transportar todas as manhãs ao local de trabalho? Haverá local de trabalho? Em breve recomeçaremos a viajar de Nova Iorque para Lisboa de barco à vela, deve ser divertido. Se houver barcos e dinheiro para pagar o bilhete. Já não há revoluções, hélas! Preferimos distrair-nos a ver jogos de futebol, a amar a poesia e a pintura. C'est le monde à l'envers.

Tuesday, June 10, 2008

A poesia

Escrever livros
e publicá-los,
falarem deles
nos jornais,
para algumas
pessoas
é isso a
literatura.
Mas eu conheço
poetas
que nunca
publicaram
um livro
e são mais
poetas
do que os
poetas de que
falam os jornais.
Não me espanto
nem me aborreço.
Não preciso
que me ensinem
o que é a
literatura
nem que indiquem
o caminho. Sei
onde
está a poesia,
vou lá
e leio-a. Às
vezes imagino
que sou simples
e verdadeiro
como um poema
contraditório
de Alberto Caeiro.
E não dou
importância a isso,
são apenas
pensamentos
que cruzam
o meu espirito.

Amo as pessoas
sem saber
se elas
merecem
ser amadas.
Se me engano,
não tem muita
importância. Posso
queixar-me, mas
sei que queixar-se
não traz de volta
o amor. Sou humano,
também sei isso,
não sou infalível.

Não vivo obcecado
com a poesia
nem com o amor,
ela e ele vêm
ao meu encontro
naturalmente, como
as folhas crescem
na árvore e nalguns
casos caem no Outono.

Monday, June 9, 2008

Idanha Hotel

A gente viaja e descobre coisas que não entende: de onde surgiu este Idanha Hotel em Idaho, USA? Algum emigrante português da Idanha (Nova ou Velha) que por ali se fixou? Algum turista americano que quis recordar o nome de um lugar que visitou e o seduziu pela sua beleza ou alguma experiência romântica? Pura semelhança de nomes, Idaho/Idanha? Curioso. Nenhuma referência além de ser hotel de luas-de-mel noutros tempos em Idaho. Mas já não é hotel, agora é uma estação, lugar de negócios, tem apartamentos nos andares de cima.

Sunday, June 8, 2008

Perseguição

Eu conhecia-o, mas não o imaginava tão perto. Quando ele se sentou na esplanada do café, arregalei os olhos, pensei: persegue-me, ameaça-me, que quererá de mim? Provavelmente tinha vindo para se vingar. Pela segunda ou terceira vez. Um saco preto, pesado, os velhos jeans rotos nos joelhos, um boné castanho na cabeça, o relógio no pulso direito. Acendeu um cigarro. Estava de costas para mim, mas vigiava-me. Fazia de conta que não me vira, mas eu sabia que ele viera para se vingar. Finalmente viera. Não sabia que ele fumava, ouvi-o dizer uma vez que odiava o tabaco. Vi-o mexer-se nervosamente na cadeira, devia estar a reflectir. Não estava à vontade: ó ódio, a loucura, a frustração consumiam-no. Aquela que me amara e por amor de quem ele revolucionara o mundo à sua volta ignorava-o, era inacessível à sua paixão. Ele podia fazer vibrar o seu corpo quando a noite caía e o espírito adormece em si mesmo, mas nunca conseguira ir além disso. Quem com ferros mata, com ferros morre. De início, quando ele a convencera a habitar a casa dos subúrbios, tudo parecia correr segundo os seus desígnios. Mas aquela que me amara sem saber o que é o amor em breve havia de abandoná-lo. Na sua perdição, ele imaginava-me responsável pela ausência do amor, imaginava que o amor que ela sentira por mim a impedia de sentir amor por ele. Era provável, eu não podia responder a essa pergunta, eliminar as suas dúvidas. Sorri. Bruscamente ele levantou-se e afastou-se a correr. Sem me olhar. Mas eu sabia que tinha de permanecer atento, pois um coração ferido é capaz de todos os crimes para se vingar da imperfeição da existência. A minha vida não podia ser modificada, o passado passara e não podia ser refeito nem corrigido, mas eu sorria.

Recordações

Ela levou-me pela mão
até aos dias distantes
da infância. Eu fui o
rapazinho que ela
olhava da janela, a quem,
no intervalo dos jogos
com as bonecas, ela
fazia caretas. Descia as
escadas, abria a porta
da rua, vinha ao meu
encontro com um sorriso
de desfaçatez nos lábios.
Falava comigo, o estranho.
Fiz-lhe companhia na sua
solidão. Mais tarde assisti,
sem dizer uma palavra, ao
brotar dos seus sonhos
de adolescente. Vi-a
passar na mota, agarrada
ao namorado. Observei-a,
incrédulo, quando ela
beijou o homem que a
levava de carro para as
ruas escuras da cidade.
Ela cresceu por fora,
mas nunca cresceu por
dentro. Nunca soube
apreciar o meu silêncio,
o que se passava no meu
espírito era como se não
existisse. Mas agradou-lhe
ter-me por companheiro
dos anos que nunca mais
hão-de voltar. Quando
imaginou que não era
amada, para fugir à
confusão inventou a
paixão mais forte do que
a vontade, sem acreditar
no que estava a fazer.
Chamou amor ao tumulto
incompreensível da
curiosidade e da dúvida,
assim evitou ter de entender
o seu próprio destino.
Desejos contraditórios.
Ela sabe sofrer? Ou
resolve todos os
conflitos mentindo
a si própria? Tudo
tem um preço,
não se pode apagar
o que aconteceu, nunca.
Sinto-me mais só, agora?
Ela deixou-me as
recordações da sua
infância para que eu
pense nela na sua
ausência. Como
se para sempre
as recordações e
a infância dela
fossem as minhas.
A morte talvez seja
o reencontro com o
tempo perdido. Na
eternidade, a infância
inocente e todas as
idades ressuscitam.
Ser feliz é estar no
tempo, em todos os
tempos, sem memória
nem imaginação. Isto
são palavras dos vivos.

Friday, June 6, 2008

Ontem

1. Ela disse em voz baixa quando nos separámos: tenho o teu email. Falou só para mim, quase sem me olhar. Não estávamos sós. Eu percebi. Eu tinha posto a mão no ombro dela ternamente, senti a mão dela na minha cintura. Ela enternece-me desde sempre. Se nos encontrarmos e falarmos, eu digo-lhe: gosto tanto de ti, se tu soubesses.

2. Ela viu-me e veio a correr, abraçou-me. É minha amiga a sério. Os pais, divorciados, não a ajudam, ela não encontra trabalho nem tem dinheiro, mas não se queixa, diz sempre que está tudo bem. Uma vez à noite encontrámo-nos no café, ficámos a falar mais de uma hora. Hoje perguntou-me: se eu estivesse a divertir-me com os meus amigos, tu zangavas-te comigo? Havia um grupo ruidoso de rapazes e raparigas a beber cerveja numa mesa do bar. Respondi, intrigado e surpreendido: claro que não ficava zangado contigo. Para a semana quer que falemos, tenho de lhe tirar umas dúvidas e explicar-lhe melhor como se escreve um ensaio. Eu disse: tu sabes o que eu penso de ti. Ela atalhou: tu dizes que eu sou muito honesta. Continuei: não tenhas medo de dizer o que pensas porque o que tu pensas em geral está certo e é interessante, a tua honestidade e a tua inteligência salvam-te da estupidez e do erro. Foi, pressurosa, à mesa do bar buscar uma amiga, apresentou-ma. Eu disse à amiga: ela diz tanto bem de si. O meu pai é português, respondeu a amiga, e ela é uma tipa formidável. A amiga foi para casa. Ela olhou para mim com os olhos azuis límpidos, o rosto dela não se esconde. É uma pessoa rara. A tua mulher está melhor? E tu, estás bem? Agora vou para a biblioteca estudar, depois telefono-te, vemo-nos na terça-feira. De acordo, disse eu. Subiu para cima da bicicleta e foi-se embora.

3. Ela emprestou-me um filme. A protagonista do filme é muito parecida com ela, o mesmo tipo físico. Beleza muito discreta e severa, magra. Hoje, quando a vi, ela estava sentada ao fundo da sala, receosa, tímida. Fui ter com ela, devolvi-lhe o DVD e dei-lhe o filme do Manuel de Oliveira que tinha trazido para lhe emprestar. Vi a sua satisfação. Percebeu que eu percebi e que não a rejeitei.

4. No café, à noite, estava o bêbedo do costume, um chato, e duas ou três raparigas à volta do estudante de filosofia. Conheço-o. Não sabia que ele é tão popular: sempre rodeado de meninas. A mulher dele trabalha numa pastelaria, conheci-a num bar, ela estava sozinha, mais tarde voltei a encontrá-la com o marido no mesmo bar. Perguntei-lhe: a tua mulher? Respondeu: está a dormir. E continuou a martelar as teclas do Mac. Uma das raparigas que estava com ele é petulante, também a conheço. Outra trabalha no café e escreve novelas. Perguntei-lhe enquanto esperava pela bica: mandas-me o que escreveste por email? São sessenta páginas, disse ela. Eu: e depois, qual é o problema? Está bem, quando o meu computador voltar da reparação eu mando. Fui sentar-me lá fora a ler Ésquilo. Fogoso, comparado com a simplicidade de Eurípedes. Folheei o Decameron, li a introdução. Boccacio diz que sofreu muito por causa de uma paixão exagerada mas que recuperou finalmente a serenidade. Quer agradar às mulheres, escreve sobretudo para elas porque elas, que passam muito tempo em casa e têm menos possibilidades de se escapar, se aborrecem mais do que os homens. Veio o bêbedo, pediu-me um cigarro. Dei-lho mas evitei olhá-lo. Ficou a falar sozinho: li muitos livros, muitos romances do século XX, Kerouac. Depois pôs-se a falar do pai e do avô. Fechei o livro, vim para casa.

5. A vida é um labirinto de caminhos que não param de se abrir diante de nós. A paixão oferece-se a quem seguir o seu instinto e não tiver medo. Eu preferia não morrer.

Sunday, June 1, 2008

Desintegração

Prova evidente da minha desintegração social: não cultivo nenhum estilo de vida ou de aparência com intenção deliberada de me tornar notado, interessante, coerente, não sinto necessidade de me caracterizar fazendo referências regulares e criteriosas aos meus gostos literários ou artísticos, actuais ou do passado. Quando me sento num café não me sinto a personagem melancólica e sedutora de nenhum filme feito ou por fazer, de nenhum livro escrito ou por escrever, do sonho de nenhuma mulher. Vestir pullovers cinzentos ou azul escuro, andar de jeans, só fumar cigarros Nat Sherman sem aditivos, ler Hamsun, Dostoievsky, Celan, tentar entender Heidegger e Spinoza além de Wittgenstein, ler Kafka, Gogol, whatever - e nem me refiro à música que oiço, aos filmes que vi ou vou vendo - nada contribui para que eu me sinta uma peça particularmente original no jardim zoológico do mundo. Talvez tenha ultrapassado a fase do narcisismo primário em que necessitamos de definir com clareza uma série de coisas para desenhar para os outros e para nós mesmos o mapa original e inconfundível da nossa personalidade. Sinto-me bem assim, sem mapa, acho que até já estou mais perto do caminho certo (morrer sem a pretensão de ter vivido com estilo). Se às vezes me sinto mal ou coisa nenhuma é por outras razões.

Eu, Gonçalo, se não estou errado, saí definitivamente de Portugal em 1969. Continuar a sentir-me português é uma prova clara da minha teimosia.

(Caderno Azul)

Monday, May 26, 2008

O verdadeiro e o falso

O que é verdadeiro
contém em si o poder
da emoção. Não são
precisos os artifícios,
o que é verdadeiro
encontrou as suas
palavras e o seu
estilo.

Às vezes enganamo-nos,
o que é falso parece
verdadeiro e nós sentimos
erradamente. Não estou
a falar da poesia nem
da arte em geral, a questão
da sinceridade da arte
não me interessa neste
momento. E o que é
sentir erradamente?
Arrependo-me agora
de ter visto no brilho
dos teus olhos o amor
que não sentias por mim?
Foi há tanto tempo.
Tu própria não sabias
o que era verdade e
o que era mentira,
embora quisesses
que eu lesse no teu
rosto o que tu pensavas
que já não podia
estar no teu coração.
Não digo estas
coisas para te
desculpar ou
tornar mais suave
a minha pena.
Digo o que sinto,
exactamente.
Se o que eu sinto
está de novo errado
é porque a minha
vocação para a dor
e a minha compaixão
são inesgotáveis.

Não tenho remorsos
de nada. E tenho
remorsos de tudo.
Porque desperdicei
as emoções a sentir
sem razão o que senti?
Estava iludido, para
mim tu ainda eras
aquela que me
amava. Em vez
de perder o meu
tempo a acreditar
no que era falso,
a deixar o que era falso
impressionar o meu
espírito e o meu
coração com as
emoções do que era
verdadeiro, podia ter
tido a sorte de estar
noutro lugar a sentir
as coisas certas. O
que é sentir e o que
são as coisas certas?
Não haveria razão
para remorsos,
eu seria o único
culpado de o amor
ter ficado aquém
das promessas que
nos tinha feito.
Deve ser isso que eu
estou a tentar dizer.

O verdadeiro e o falso,
diria Alberto Caeiro,
são ambos a verdade
dos sentimentos, ambos
são o retrato fiel
daquilo que é a nossa
existência. Tomar
o falso pelo verdadeiro
também enriquece
a nossa experiência
da realidade. Olho
para trás e recordo-me
das cenas que pareciam
ser uma coisa e afinal
eram outra bem
diferente, eram
uma coisa que eu
ignorava. Não tenho
pena de mim nem de
ti por me ter deixado
enganar. Senti o que
era preciso que eu
sentisse nesse momento
que não é este momento.
Se eu tivesse sido
perspicaz e soubesse
distinguir a mentira
da verdade só por
olhar para o teu rosto
ou ouvir as palavras
que tu dizias seria
outra pessoa, não a
pessoa que de facto
sou. Teria interrompido
a narrativa, interferia
bruscamente, feroz,
na ficção da tua
existência e da minha,
talvez gritasse: eu sei
o que é verdade e
o que é mentira,
agora podes ir-te
embora e deixar-me
só. Em vez disso, em
vez de ser o herói
inteligente dessa história
em que tu e eu estávamos
por engano, senti as
emoções que provocam
em nós as coisas
que são verdadeiras.
O teu rosto era mentira,
tudo que tu dizias
eram mentiras
preparadas de antemão,
mas o que eu sentia
era verdadeiro
apesar de saber
e não o dizer
que tu mentias.

Sunday, May 25, 2008

Cegueira

As coisas estão a acontecer e nós, a quem as coisas acontecem, pensamos que sabemos o que está a acontecer. Mas a história e o sentido da história só posteriormente se hão-de revelar, é preciso que passe muito tempo para entendermos. O que parecia oiro ou prata afinal era apenas barro, mas nós não nos demos conta da gravidade do erro. A cegueira que nos caracteriza é digna de lástima.

O outro, aqui ao lado, preocupa-se com a arte. Mas quando tenta escrever um poema repete o que já tinha dito antes. Dá-se conta disso? Ter estilo é uma maldição, as palavras que se juntam estão cansadas umas das outras, já não se podem ver, ninguém as pode ver. Numa vida inteira quantas vezes falámos verdade, quantas vezes dissemos alguma coisa que tivesse importância?

Lamentar que se tivéssemos uma segunda oportunidade nas circunstâncias que desperdiçámos e que por isso evocamos com grande dor interior pode ser compreensível. Podíamos falhar de novo, pela segunda vez, e então só teríamos de queixar-nos de nós mesmos, sem nos desculparmos com outras razões. Mas falar assim é pressupor que não somos responsáveis pelo desperdício da primeira oportunidade. Percorro a cidade à procura de uma mulher com quem falei uma vez e a quem não dei a atenção que ela merecia, mas não a encontro, nunca mais a verei. Às vezes penso: ela não sabe a importância que eu lhe estou a dar, a importância que podia ter na minha vida, mas se soubesse talvez pensasse em mim também, talvez voltasse ao lugar onde nos encontrámos. Ontem vi o filme que fizeram de Seda, o livro do italiano, e percebi melhor o que é o amor verdadeiro.

Thursday, May 15, 2008

Presentes envenenados

Quem dá a vida também dá a morte, mas não se costuma realçar esse aspecto da questão. Se a cronologia é respeitada, àquele que deu a vida é poupada a dor de ver morrer adulta a criança que fez nascer. Mas a ausência dos pais no acontecimento da morte dos filhos não os desculpa de ter agido de maneira irresponsável. Pode-se valorizar a dor, o sofrimento. Mas não estou seguro de que, informados de antemão da natureza do presente que nos é oferecido, o aceitássemos. Eu sei, esta conversa é absurda, porque para poder ter uma opinião sobre o assunto teríamos de estar já dentro da vida. Mas pus-me a pensar estas coisas esta tarde num momento de tédio.

(Caderno Azul)

Monday, May 12, 2008

Perspectivas

Para a entender eu tinha de adoptar o seu ponto de vista sobre o que se estava a passar e esquecer o meu (foi isso que ela sempre quis, sem grande consistência, de maneira tão atabalhoada, incoerente e vaga como hoje se me revela o seu destino). É qualquer coisa que certamente conseguimos fazer e fazemos, com algum esforço e boa vontade: adoptar o ponto de vista da outra pessoa acerca de um "episódio" que vivemos juntos. Mas a nossa capacidade de adoptar uma perspectiva alheia sobre seja o que for, e sobretudo acerca de acontecimentos que nos dizem directamente respeito, é limitada. Quando me era difícil ou impossível compreendê-la - ela mentia constantemente, mas não queria ir-se embora; se interrompíamos as nossas relações, instalava-se com o novo amante em casa dos primos ou dos amigos e depois, para retribuir, instalava os primos e os amigos em minha casa, aonde tinha querido voltar; é apenas um exemplo - eu recorria à lógica do senso comum para não ficar confuso. Mas a lógica do senso comum era muito menos flexivel, infinitamente menos tolerante do que a minha. O respeito pela lógica do senso comum ajuda-nos, no dia a dia, a evitar aborrecimentos inúteis, é certo. Mas eu não ia renunciar nem nunca renunciarei à minha visão do mundo, que me deu tanto trabalho a ir construindo, para me submeter à maneira de pensar e de avaliar do senso comum. Era o que me faltava. Por isso acabei por regressar, para tentar compreendê-la, a mim mesmo. E os problemas recomeçaram. De vez em quando desfila no meu espírito, brevemente, uma narrativa que seria apenas a da sua perspectiva, a da sua lógica, a do seu destino. Mas esses vislumbres de uma história diferente da que eu tenho para contar não a tornam a ela mais amável, mais interessante ou mais digna de compreensão ou de perdão. Antes pelo contrário, a personagem dessa narrativa aparece-me como desprezível e o meu próprio desempenho como comparsa de história tão burlesca está longe de me engrandecer aos meus próprios olhos. Penso então: sem te dares conta disso desperdiçaste anos importantes da tua vida a ocupar-te de uma pessoa que não o merecia e daquilo que sempre te pareceu indício de uma condição humana inferior; foste medíocre.


(Caderno Azul)

Friday, May 9, 2008

Os deuses

Já compreendi: os deuses, ciosos do seu poder, criaram-nos mortais porque desse modo o universo nunca deixa de pertencer-lhes só a eles. Renovam-se os rostos, os corpos, as cidades, os amores. E eles, lá em cima, atentos, voyeurs supremos, deleitam-se a contemplar a beleza sempre nova e inesperada da nossa juventude. Têm alguma tolerância e paciência para observar do canto do olho entediado o nosso envelhecimento, que os satisfaz e ao mesmo tempo lhes repugna. Quando enfim morremos, eles suspiram de alívio. Se a beleza da nossa juventude irrequieta e irreverente resplandece em traços e qualidades nunca vistos antes, eles não resistem a chamar-nos para junto deles antecipadamente. Se por outras razões, que escapam ao nosso entendimento, a nossa existência os incomoda, também não têm escrúpulos em nos fazer morrer jovens. Somos matéria, barro, carne que só existe para satisfazer a obsessão com a beleza que os atormenta e delicia. Séculos e séculos de queixas, acusações e lamentos nossos deixam-nos indiferentes: eles são os deuses e não têm que nos dar explicações sobre a maneira como organizaram os seus prazeres.


(Caderno Azul)

Imbecil

Sou um imbecil. Saí como uma rapariga, levei-a a um bom restaurante, jantámos, tudo a correr magnificamente. Estava combinado há uma semana e ela estava mais linda do que nunca. Conhecemo-nos há uns três anos, mas nunca aconteceu nada entre nós. Ela não é bem o meu tipo, mas é bonita e inteligente. Depois de jantar, sentámo-nos lá fora, num banco da praceta, a fumar um cigarro. Estava uma noite fresca mas agradável. Peguei-lhe na mão, ela tinha as mãos frias e eu disse: mãos frias, coração quente. Ela riu-se e disse: tu tens as mãos quentes. Coração frio, respondi eu a rir. As nossas mãos ficaram presas uma na outra, ela acariciou-me levemente. Não dei importância particular ao gesto dela, nem estava seguro de que ela me tivesse acariciado a mão, eu é que tinha a mão na dela e a acariciava. Olhei para ela e apeteceu-me vagamente beijá-la. Em vez disso comecei a falar das relações entre homens e mulheres e de como é difícil perceber o que é que as pessoas esperam de nós. Esta cena já se repetiu umas três vezes esta semana. E no passado, quantas vezes? Receio ser brusco, não tenho confiança em mim, não quero ser ridículo nem ter aborrecimentos? Ando a treinar-me para o grande amor? Sou um imbecil.


(Caderno Verde)

Wednesday, May 7, 2008

Montes no deserto


Medo da intimidade (II)

7. Nada é nunca tão claro como parece. Honestamente: o nosso desentendimento deixou-me triste e com vontade de obter respostas para algumas perguntas que me foram surgindo. Admito que ao duvidar de ti, ao não acreditar em ti , eu agi de maneira menos correcta. Comportei-me de maneira infantil, primitiva, selvagem e estúpida. Mas as nossas relações não são claras, há muita coisa que eu não entendo. E nessas circunstâncias, já se sabe, as dúvidas podem ser mais fortes do que a nossa vontade de confiar. Ainda não te conheço o suficiente e tu não tens feito muito para facilitar uma aproximação mais rápida, para eliminar uma ambiguidade que pode ser perturbadora quando ainda não estamos seguro da relação que iniciámos com uma pessoa. Essa insegurança a teu respeito – quem és tu exactamente, o que é que tu esperas ou queres de mim ? – levou-me a julgar-te mal. Mas depois de tu teres telefonado, tudo se compôs e eu fiquei-te grato. A tua voz de repente ficou mais clara, foi fácil entender-te. Tu estavas concentrada, senti que o que tinhas a dizer-me era importante e necessitava de ser dito. E convenceste-me, reconheço. Nem sempre falas assim, com segurança, firmemente. Por vezes, quando me telefonas, pareces nervosa ou receosa, eu sinto que não estás à vontade. Desta vez foi diferente. Repreendeste-me como nunca ninguém ousou repreender-me e eu interpretei a tua atitude como uma prova de que as nossas relações são importantes para ti. Foi bom, eu fiquei contente. O pior foi a minha reacção, mais tarde, quando voltei a pensar no assunto. Por que razão é que ela se permite pensar e dizer que agi incorrectamente? Quem lhe deu o direito de me julgar? Quem é que ela pensa que é? O que é que eu já recebi dela, o que é que ela me deu até agora, o que é que ela já fez para evitar que eu duvide? E então pensei que podia perfeitamente continuar a viver sem ti. Não era o que eu queria, mas podia fazê-lo. Eu sei o que é a solidão, a frustração e os aborrecimentos que nascem das relações não me são desconhecidos. E posso viver com isso, já vivi antes. Mas uma vez mais ficava pelo caminho qualquer coisa que para mim se tornara importante. E não me apetecia nada perder-te. Eu quero que tu me ames, eu quero amar-te, Laura. Talvez eu espere mais das pessoas e de ti do que devia e me arrisque permanentemente, por essa razão, a ser remetido para o vazio de uma existência árida e desinteressante. Mas eu luto, eu não me conformo. E uma vez que decidi que tu me interessavas, não estava disposto a renunciar. Não há na minha vida muitas relações de que eu tenha guardado uma memória muito forte. Amei seriamente duas mulheres, provavelmente três. Devo ter amado outras, mas as circunstâncias não permitiram que a relação com elas se tenha desenvolvido o que era necessário para que tivessem ficado grandes recordações. Provavelmente tive culpas nisso. Ou foram elas que não acreditaram, não sei. Ter-te conhecido parece-me que fez renascer a esperança.

8. Há outra coisa que tenho de dizer antes de terminar esta carta: os joguinhos que alimentam algumas relações e que provavelmente divertem outras pessoas, a mim não me interessam, não tenho paciência para parvoíces. Eu sou sincero, digo o que tenho a dizer, faço o que tenho a fazer, as manipulações deliberadas aborrecem-me. Por isso, embora correndo o risco de descobrir mais tarde que me enganei, sou quase sempre muito directo, digo o que sinto sem recear as consequências. Entrego-me, seguro de mim e da minha força, sem temer a desilusão ou a frustração. Percebo depressa de mais o que quero? É possível. Tanta certeza da minha parte assusta a outra pessoa, ainda hesitante, ainda a precisar de tempo para pensar e compreender o que se passa? Não é impossível, admito-o sem esforço. Mas eu sou assim. Há dias, quando conversávamos no café, confessei-te que se há outro homem interessado numa mulher que começou a interessar-me e eu não estou ainda suficientemente envolvido na relação, prefiro recuar, afasto-me, deixo correr. Não luto, não quero. Se a mulher que me interessa me procurar, me preferir, fico contente, mas eu não lutei por isso, sobretudo não entrei em despiques com outro homem por causa dela. Acho os despiques por causa de uma mulher infantis, ridículos, degradantes. Não vale a pena forçar as coisas. Se perder, aceito ter perdido, digo para mi mesmo “essa mulher não era para mim”. E esqueço-me, fico-me por aí. O ciúme, a competição, o desejo de ganhar ou de não perder falsificam este tipo de situações. Eu não quero amar uma mulher por causa dos obstáculos que dificultam as nossas relações, não quero amar uma mulher só porque há outro homem interessado nela. Quem me garante que mais tarde, tendo a memória desse episódio ficado a fermentar no seu espírito, ela não vai ceder à curiosidade de ter uma relação com ele? É melhor deixá-la ir. A frustração de nos ter preterido há-de um dia trazê-la de volta e se nós estivermos disponíveis nem tudo se terá perdido. É claro que a relação, se então acontecer, não terá nunca a importância que teria tido se ela tivesse ficado logo connosco. Mas nem todos os amores têm de ser grandiosos, a realidade é o que é.

9. Já percebi que uma das razões, provavelmente a mais importante, que nos leva a procurar gratificações sexuais e afectivas em relações paralelas à relação sólida e séria que temos com uma pessoa é, surpreendentemente, o nosso medo da intimidade. Um medo monstruoso, inconsciente, talvez irracional e incompreendido, da intimidade. Se sentimos que estamos a ficar envolvidos com a pessoa que amamos de maneira muito profunda, receamos perder a nossa identidade. Deixar esfumar-se os contornos da nossa personalidade, do nosso precioso eu, da nossa individualidade aterroriza-nos. A fuga, a escapadela noutra relação é uma forma de protecção contra a desagregação do eu que tem lugar nas relações amorosas intensas. E por essa razão, que pode parecer contraditória e incompreensível, preferimos afastar-nos da pessoa que amamos acima de todas as outras. Uma relação paralela, irresponsável, sem compromissos de seriedade, divertida e superficial, é capaz de ser também um bom antídoto contra o medo da morte que invade os amores muito intensos e profundos, tornando-os trágicos. Parece absurdo, mas não é, pois o amor a dado momento pode de facto transformar-se numa ameaça de castração. Castração é uma palavra da psicanálise, mas neste caso significa simplesmente dissolução da personalidade, desaparecimento do eu que nos individualiza. Pode haver outras explicações para a infidelidade amorosa e acredito que serão válidas. Por experiência própria, esta parece-me a mais convincente.

10. Receio que tudo o que acabo de escrever te pareça muito teórico. Não é fácil exprimir-se, organizar os pensamentos, sem dar essa impressão. Mas podemos voltar ao assunto quando nos encontrarmos, se tu quiseres.