Thursday, January 31, 2008

Anti-depressivos


É possível continuar a viver no mundo actual sem tomar anti-depressivos? Não sei. Não entendo nada disso, nunca entendi. A pergunta foi-me feita por escrito por uma amiga. O que ela diz pareceu-me interessante:

Ando há muito tempo a tomar anti-depressivos – oh, não muito fortes, mas enfim – e agora pergunto-me se não cometi um erro grave ao deixar-me seduzir por um artigo na Times que nos anos 90 falava tão entusiasticamente do Prozac. Há coisas e pessoas que suportei e provavelmente teria sido melhor que não as tivesse suportado. Há decisões que tomei e que provavelmente não teria tomado. Até que ponto a minha vida foi diferente do que teria sido se os meus estados de espírito e o meu comportamento em geral não tivessem começado a ser influenciados ou condicionados pelos medicamentos anti-depressivos? O que é que eu perdi e o que é que eu ganhei? Não sei, nunca o saberei. Só sei que as crises de pânico que me assaltavam antes de começar a tomar Prozac se resolviam com metade de um Victan, uma benzodiazepina ligeira, e que há dois anos me aconteceu ter de tomar dois desses comprimidos para nem sequer obter o efeito que obtinha antes com apenas meio comprimido. O que parece sugerir que o pânico que me invadia - o medo de estar a enlouquecer – era superficial, passageiro e não necessitava de nenhum Prozac. Mas fui eu que pedi ao meu médico para fazer a experiência e depois de dois meses difíceis em que me apetecia por vezes subir pelas paredes, achei que devia continuar. Fiz bem ou mal? Já disse que não sei.

Mas agora estou decidida a libertar-me de anti-depressivos. Já comecei a alternar com Hypericum Perforatum. Cada dois dias é só isso que tomo, em vez de Prozac e Welbutrin. Sinto coisas curiosas. Fico deprimida, mas tenho consciência disso e não me parece que seja grave. Durmo mais neste momento, fico por vezes menos combativa, menos interessada no que se passa lá fora. Mas o que sinto sobretudo é o regresso obsessivo e doloroso de alguns episódios da minha vida com que não estou nada satisfeita. Creio que entendi o que se passa: estou a voltar ao contacto directo com realidades desagradáveis, com os meus fracassos ou erros, e esse contacto é doloroso. Mas já percebi que, como diz o teu Waztlawick, se a situação é desesperada, no entanto não é séria nem grave. Rio-me. De mim mesma. E creio que vou robustecer a minha força de vontade e acabar por ficar na posse de uma coragem mais sã. Na verdade creio que já tinha saudades de ver o mundo e as pessoas que o habitam na sua dureza ameaçadora, com os seus vícios, sem ter a sensibilidade filtrada por medicamentos. Hei-de contar-te o que vai acontecendo, se for acontecendo alguma coisa digna de ser contada e tu quiseres saber.

Laura