Thursday, January 3, 2008

Casas silenciosas

Casas silenciosas, quando toda a gente dorme. Umas a seguir às outras, as minhas casas silenciosas. Usei-as muito durante a noite. De manhã gostava de dormir. Devo ter mudado de casa umas vinte vezes. Haverá uma ou outra excepção, mas as casas onde morei quase todas me agradaram, eram diferentes umas das outras e de cada vez era como recomeçar, protegido por paredes semelhantes, mas noutra vida, a perseguição do meu "destino" (digamos). Permiti algumas vezes que uma companhia errada perturbasse abusivamente a minha relação com a casa. Mas na casa a seguir eu recuperava a inocência e a minha identidade, esquecia os desatinos, punha de lado as más recordações. Restabelecia as fronteiras, era de novo feliz e a minha vida enchia-se de projectos. As casas estão cheias de segredos. São refúgios. Uma casa talvez seja como um corpo, nós entramos nela com a curiosidade e o cuidado com que nos debruçamos sobre a nossa vida interior ou sobre a identidade de outra pessoa.


(Caderno Azul)