Monday, January 7, 2008

Distância

Se eu lesse mais Freud, compreenderia melhor por que razão damos tanta importância às nossas relações com outras pessoas? Eu li Freud, admiro-o, aprende-se muito a lê-lo, mas não acredito muito nas histórias que a psicanálise inventa para explicar comportamentos, afectos, sexualidade, a importância que algumas pessoas têm na nossa vida. A psicanálise tem ambições desmedidas: quer que haja uma linguagem do inconsciente, bem organizada mas secreta, e ambiciona decifrá-la. Good luck!

Quando comecei a escrever estes cadernos, provavelmente foi com a secreta esperança de vir a perceber melhor, sem recorrer a sistemas de interpretação e explicação pseudo-científicos, o meu comportamento. Tudo o que sei aprendi-o com os outros, é certo, mas nessa "ciência" há falhas e uma desorganização que me concedem alguma liberdade e sentido crítico.

O meu cinismo, a minha maldade, muito evidentes em determinadas situações, não me escaparam. Pratiquei-os com uma secreta distância irónica, sabendo que de pouco adianta eu querer explicar o mundo a partir dos meus interesses e convicções. Sempre estive consciente da enorme imperfeição da linguagem, que condiciona e limita o nosso entendimento do mundo. Também sei e sabia que não estava a escrever a minha biografia. Sabia que estamos sempre envolvidos em ficções que só parcialmente controlamos. Se não tivéssemos imaginação, se fôssemos objectivos como uma pedra, a dor seria insuportável, porque então seria verdadeira, não seria uma representação, um jogo. A minha raiva e a minha dor sempre foram representação. Se não o fossem, eu seria incapaz de falar delas.

Apesar de eu parecer por vezes, no que escrevo, descontente, frustrado, irritado, zangado, ferido, na realidade não levo nunca nada tão tragicamente a sério como parece. Os meus sentimentos e estados de espírito são apenas um papel que eu me ponho a desempenhar. Podia desempenhar outros, provavelmente escolho racionalmente as minhas preocupações e as narrativas a que adiro. Gostaria de me zangar realmente, mas tudo me passa ao lado. Posso sofrer, mas desprezo o sofrimento. Podem trair-me, mas eu fico apenas a lamentar a imperfeição do ser humano e do mundo, não me sinto nem culpado nem ofendido pessoalmente. Haverá excepções a esta regra? Haverá quem não tinha o direito de nos trair? É possível. Mas pensá-lo só revelaria a minha necessidade de acreditar que o mundo, a minha existência, o amor, o que me acontece, têm sentido e são importantes. Terão? Serão?

O problema, evidentemente, é que se tudo me passa ao lado isso significa que eu estou descentrado em relação à vida. É como se eu não existisse senão nos limites da ficção em que me permito desempenhar um papel. O drama pode ser esse: sermos obrigados a viver distanciados do nosso eu profundo, que provavelmente existe, mas nós fazemos o possível por ignorá-lo e por não o enfrentar - ou desprezamo-lo. E se nos comportamos assim, ambiguamente, deve ser por não nos surgirem na vida as situações graves nas quais seríamos obrigados, sem escapatória, a encarar a existência como coisa séria e importante, a vivê-la com uma intensa atenção e paixão.

Eu só levo a vida tão a sério como me obrigam a levá-la as circunstâncias e as pessoas com quem me dou. Tudo é portanto relativo e a seriedade da vida depende sempre dos outros antes de depender de mim. Um amor que eu quis que fosse sério e não foi, por exemplo, pode ter falhado porque eu, sem pensar muito nisso com clareza, sabia que não estava a ser eu mesmo compreendido e levado suficientemente a sério, por isso mantive-me a alguma distância. Se a outra pessoa não nos entende, se não exige de nós tanto como podia exigir, não se pode aprofundar o conhecimento de nós mesmos - e o amor acaba por ser pouca coisa. Quando tudo acabou só me resta lamentar que uma pessoa que eu queria que fosse importante para mim - e que eu acreditara que podia sê-lo - não o tenha sido. Não o foi porque não pôde, porque não soube, porque não quis. Olho-a de longe na vida dela e lamento a frustração. Sei que não sou inocente. Mas também sei que as nespereiras não dão romãs.


P. S. Não surpreenderá ninguém que tenha sido Lacan, um francês, a acreditar tão piamente no "inconsciente como linguagem" e a vulgarizar a ideia. Os franceses acreditam na existência de alfabetos secretos, para eles o mundo é uma máquina cheia de maquininhas ocultas mas rigorosamente disciplinadas. E o ser humano, para um francês, só é digno de alguma consideração e respeito se for um animal intelectual. A influência que os franceses terão tido e continuam a ter nas nossas vidas é difícil de calcular.

(Caderno Azul)