Thursday, January 10, 2008

Encontros

Tinha-a visto antes, sem prestar muita atenção. E há dias, numa recepção, ela quis tirar uma fotografia, pediu-nos para ficarmos quietinhos. Achei curioso e examinei-lhe o rosto. Um pouco cansado, a pintura por baixo dos olhos um pouco borrada, mas o sorriso dela, o ar dela, simples, gracioso, despertaram a minha atenção. Depois falámos brevemente, ela acariciou-me a mão com alguma ternura. Eu tinha de ir-me embora, mas enquanto me afastava ia pensando: podia apaixonar-me. Não sabia nada ou quase dela, porém, nunca me tinha interessado em sabê-lo. Seria casada, por exemplo? Perguntei a um amigo, ele também não sabia. Não pensei muito mais no assunto. Mas hoje fui ao edifício onde trabalho, a porta do elevador abriu-se, eu ia subir, e lá dentro estava ela. Só ela. Surpresa. Eu tinha antecipado essa possibilidade na minha imaginação. Achei-a mais bela do que nunca, o rosto repousado. Deixei ir o elevador, ficámos a falar. Eu sou lento, muito cuidadoso. Não sempre, é verdade. Podia apaixonar-me seriamente por ela, entendi depois. Como agir, porém? Ela trabalha noutro edifício. Terá vindo ao meu na esperança de me ver? Presunção minha (é assim que se endoidece). O que é que eu posso fazer? Quero esta mulher, pensei eu, é dela que eu estava há espera há muito tempo, eu sei-o,desta vez vou deixar-me de parvoíces e de brincadeiras, vou agir de maneira adulta e responsável. Mas se ela é casada, pensei depois, não tenho hipótese nenhuma. Em resumo: tenho o fim de semana estragado. E como vou a Bogotá para a semana, não tenho muito tempo. Não sei viver só, tenho de pôr-me a fantasiar? Se eu percebesse. Para me distrair, revi Un Coeur en Hiver, o magnífico filme de Claude Sautet. Vieram-me as lágrimas aos olhos várias vezes perante o espectáculo de tão grave solidão. Também pensei na Boring Story de Tchekov, evidentemente. Nos filmes, o amor e as falhas do amor têm a coerência interessante das histórias que progridem. Na vida real não há heróismo nem continuidade, só há frustrações, intermitências, hesitações, dores de que ninguém a não ser quem as sofre sabe nada. Neste filme a interpretação de Daniel Auteuil e dos outros actores deixam pressentir o que se passa na sombra. A beleza de Emanuelle Béart e a música de Ravel são intensas, fazem sonhar.

(Caderno Amarelo)