Monday, January 28, 2008

Mau tempo

A chuva não pára. Não saio de casa. Ontem veio um estudante meu amigo pedir-me o aspirador emprestado e hoje não encontro as chaves da casa nem do carro. Penso que foi ele que as levou por engano porque eu nunca perco as chaves. Se eu não saí e as chaves desapareceram, a única explicação é ele tê-las levado. Ele diz que de facto costuma roubar as chaves às pessoas por distracção, mas que desta vez não foi ele. Não acredito. Quando ia a sair ele voltou para trás à procura das chaves dele. Imagino que levou as minhas por engano e estou furioso. Mandei-lhe duas mensagens: procura bem, pois não há outra explicação, a única pessoa que eu vi foste tu, eu não saí de casa e as chaves não têm pernas para andar. Aguardo. Vou dormir mal. Ter de resolver problemas de ordem prática neste momento irrita-me, deixa-me irascível. Vou ter de mudar as fechaduras da porta? Como estou sozinho em casa, é comigo que fico irascível. Ou com ele? Não sei se foi por isso, mas numa fúria desatei a tirar todos os quadros da parede, fotografias e gravuras, e atirei com eles para dentro de uma caixa. Estou farto de imagens e das recordações ou sugestões que elas suscitam em mim. Quero que se faça o vazio no meu espírito. Fui ao frigorífico, abri uma garrafa de champagne que lá tinha guardada à espera de uma ocasião. Apeteceu-me beber champagne, sei lá porquê. Se estivesse sol, provavelmente o meu humor seria diferente. Pensando bem, eu podia partir tudo, a madeira dos quadros, os vidros, e rasgar as gravuras, depois tirava uma fotografia artística ao monte de ruínas. Intitulava a obra sublime assim criada "the screaming night mare" e vendia-a na internet por duzentos euros. Mas prefiro oferecer as gravuras, os quadros, as molduras, algumas fotografias, um cobertor e uma série de bugigangas inúteis a uma instituição de caridade. Vou lá amanhã ou um dia destes levar tudo para que o vendam na loja deles e façam algum dinheiro. Eu podia viver com uma cama, uma mesa e uma cadeira numa casa de paredes nuas, não preciso de mais nada.


P.S. Entretanto as minhas chaves apareceram. Tinham caído no saco de papel com umas garrafas que levei para o lixo quando fui ver o correio... O mau tempo influi em tudo.

(Caderno Azul)