Sunday, February 24, 2008

Engano



Fui-me embora de Portugal porque estava farto de ter de me submeter a gente que não me entendia, de ser oprimido por gente que me era inferior. E porque pude, evidentemente. Queriam obrigar-me a ser o que eu não queria ser, que tolice. Depois de muitos anos passados a viajar, veio-me um dia a nostalgia da pátria. Pensando que era altura de fazer as pazes com a minha gente, apaixonei-me por uma rapariga da minha terra e trouxe-a para ao pé de mim. Em má hora. A pátria não mudara e eu também não. A ilusão, o engano, durou cinco anos. E quando abri os olhos para a realidade e me encontrei de novo só, percebi que tinha perdido anos de vida a querer ser o que nunca poderia ser, a querer amar o que não podia amar. Hoje já não me iludo. Encontrei um refúgio secreto nestas montanhas solitárias e é daqui que, longe do lugar onde nasci, hei-de partir um dia para sempre.

(Caderno Azul)