Sunday, February 17, 2008

Folhas mortas



A imagem da Betty vai-se esbatendo na minha memória com os meses que passam. Ofereci as obras dela, umas gravuras que ela cá deixou, a um armazém de caridade: tudo o que lhe saiu das mãos enquanto esteve comigo afinal nasceu do disfarce,da dissimulação, da mentira. Escapou-me uma aguarela que ficou ali na estante, deixá-la estar. Custa-me aceitar que durante sete anos não se tenha criado entre essa rapariga e eu nada que valha a pena recordar com respeito, que mereça consideração. Ela não percebeu nem recebeu nada, podia ter vivido com o porteiro do nosso prédio, um bêbedo distraído, ia dar no mesmo. Não terá lampejos de remorso algumas manhãs quando acorda, antes de voltar a enredar-se nos seus medos e confusões, nas suas fantasias? Não haverá entendimento naquele cérebro deturpado? Tudo entre nós foi em vão? Estúpidas garridices de miúda tola, irresponsável, incapaz de sentimentos. Bate os braços e voa, ó borboleta negra, fantasma, avestruz. Perda de tempo, precioso tempo que eu podia ter dedicado a alguém que soubesse e quisesse durar e construir. Foram sete anos e muitas pessoas deitados fora, como se eu fosse rico de tempo de vida e de relações. É a realidade, não adianta iludir-se. Ela não quis ou não soube ser senão uma sombra vaga e banal entre muitas outras que atravessaram a minha vida. Pouca ambição ou incapacidade. Não mereci mais. Podia, nesse tempo, ter conhecido alguém que me amasse, não é?

(Caderno Azul)