Friday, February 8, 2008

Quís pró quós


Pouco tempo depois de nos separarmos perguntei à Betty por que razão deixara de dar notícias e ela respondeu-me muito determinada e séria que não queria alimentar o risco de um "reatamento" da nossa relação. Dormiste na minha cama e no meu sofá, comeste o meu pão e bebeste o meu vinho, conduziste o meu carro e deste guarida ao meu esperma - e agora não queres falar comigo e referes-te à nossa relação como a um "atamento"? Pergunta retórica minha, pois eu tinha percebido: as relações ditas amorosas, para pessoas imaturas ou deficientemente educadas, são muito pouco amorosas. Mais tarde, tendo a Betty surgido no meu caminho quase por acaso numa rua da nossa cidade, perguntei-lhe: tomamos um café? Ela: não tenho nada para te dizer. Wittgenstein tinha razão: ao convidá-la para tomar um café eu estava a querer perniciosamente que ela tivesse ainda alguma coisa a conversar comigo; enganei-me, não tinha. Coitada da Betty. Pobre de mim.


(Caderno Azul)