Sunday, April 27, 2008

Encontro

Eu perguntei-lhe se ela queria ficar com o meu número de telefone e disse-lhe que preferia não ficar com o dela. Acrescentei: se quiseres voltar a ver-me, telefona-me tu. Ela: quer dizer que sou eu que fico com a responsabilidade toda? Não me quero impor, não quero começar a telefonar-te correndo o risco de te aborrecer, disse eu. De acordo, respondeu ela. E foi digitando no telemóvel os algarismos que eu lhe ia ditando.

Provavelmente nunca mais a vejo. Vou ficar com pena. Ela estava sempre a brincar com o cabelo que lhe caía do lado direito do rosto e antes de nos despedirmos, estávamos sentados no meu carro, eu fiz a mesma coisa, pus-me a brincar com os fios pretos do cabelo dela. Com o braço acariciei-lhe discretamente o seio esquerdo, queria saber se ela aceitava o contacto ou me recusava. Não me recusou. Acariciei-lhe o pescoço, a nuca, ela fechava os olhos. Quando nos despedimos beijei-a na cara e não resisti a descer um pouco mais, pus-lhe um beijo no peito descoberto, no princípio dos seios

Quando a vi pela primeira vez ela estava sentada no café a olhar para um livro, a escrever num caderno. De vez em quando pegava no telemóvel. Pareceu-me que se aborrecia. Eu estava com um amigo, mas aproximei-me, perguntei-lhe o que é que ela estava a estudar. Estatística, respondeu ela. Percebi que não a incomodava, ela recebeu-me bem. De onde é que tu és, perguntei-lhe eu. Vim de Hong Kong, mas é uma longa história, disse ela. Então é melhor eu sentar-me para ouvir, disse eu. Posso? Sentei-me e fomos falando. A nossa conversa evoluía rapidamente, o que me agradava muito.

Era uma rapariga inteligente, interessante, sensata. Nada imatura. Atenciosa. Fazia-me perguntas e interessava-se em conhecer a minha resposta, tinha opiniões mas não era chata nem dogmática. Finalmente encontrei uma pessoa real, há quanto tempo é que isso não me acontecia, disse eu para mim mesmo, meio espantado e inseguro do que poderia vir a acontecer. Não queria acreditar na minha sorte. Quantas oportunidades de conhecer uma rapariga que me atraía devo ter desperdiçado por causa da minha timidez, ou da minha boa educação, ou por ser preguiçoso. Nem quero saber. A minha vida podia ter sido totalmente diferente do que foi.

Acabámos por ir jantar. Ela facilitara as coisas, tinha-me dito que tinha fome. A maior parte dos restaurantes nesta cidade são maus, disse eu. Queres comer a sério ou só engolir qualquer coisa? Não sei, disse ela, mas tenho mesmo fome. Pensámos primeiro em ir a um restaurante japonês, mas quando lhe propus um restaurante indiano que eu conheço, ela achou que era boa ideia e disse que estava bem.

Jantámos como se nos conhecêssemos há muito tempo. Ela estava à vontade e eu também. Quando pedimos uma cerveja, o empregado pediu-lhe o bilhete de identidade. Mostra-me, disse eu. Não, disse ela, não sou fotogénica. Ajudei-a a escolher o prato. De vez em quando ela olhava para mim e eu olhava para ela. Gosto de raparigas orientais, mas nunca conheci nenhuma, isto é, nunca tive nenhuma relação com nenhuma. Apetecia-me dizer-lhe: és muito bonita e por isso e por outras razões gosto de ti. Provavelmente disse, lembro-me dela a agradecer-me os elogios que lhe tinha feito. O que é que estás a pensar, perguntei-lhe eu váriass vezes. E tu, o que é que estás a pensar, respondeu-me ela tranquilamente. Tinha uma boca bonita e eu estava fascinado com os seus olhos chineses.

Quando íamos no carro e eu lhe dei um beijo no braço perguntei-lhe, inseguro, outra vez: o que é que tu estás a pensar? Gostas de mim, por isso dás-me beijos, respondeu-me ela. Como as coisas se simplificam quando as pessoas entendem o que se passa e não complicam tudo com observações ou objecções despropositadas.

Agora estou em casa, é tarde. Comecei a ver um filme, 101 Rejyavík, de Baltasar Komákur, deixou-me bem dispoosto, mas os meus pensamentos andavam por outras paragens, desliguei o leitor de DVDs e a televisão. Vejo o resto amanhã.

Deitei-me, mas não consigo dormir. Não consigo esquecer-me dela. Devo estar apaixonado. Como não lhe pedi o número do telefone, não posso fazer nada. É melhor assim. Será ela a mulher, a pessoa de quem eu estava à espera? Estremeço só de pensar nisso, é melhor acalmar-me. Amanhã vou voltar ao café onde a conheci. Quem sabe, talvez ela tenha tido saudades minhas também.

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