Saturday, April 12, 2008

Ignorância


Quando escrevo coisas como "alguém vai amar-me", saberei do que estou a falar? O que é amar, o que é o amor? É qualquer coisa que vem preencher um espaço que está vazio, que vai frutificar na terra desaproveitada da vida? Pode ser.

Quando alguém nos ouve com a atenção daquilo a que chamamos "o amor" (qual é a diferença entre o amor, a necessidade, a ambição e o desejo, já agora?), sentimo-nos úteis, talvez inteligentes, talvez não feios de todo. Provavelmente sentimo-nos como a flor que foi ou vai ser acariciada com delicadeza, da qual um nariz sequioso de ternura se aproximou. Pode ser isso o amor, porque não?

Bem sei, o amor é uma coisa muito importante, gigantescamente importante, um acontecimento que deixa marcas profundas na existência das pessoas. Mas na minha modéstia é assim que, erradamente, o vejo às vezes.

Não posso evitar dizê-lo: quando uso a palavra "amor" sinto que não sei de que é que estou a falar; imagino que a minha vida vai ser mais interessante se alguém quiser beijar-me ou dormir comigo, coisas assim. Imagino a cumplicidade das conversas, dos sorrisos, das carícias, as brincadeiras, a seriedade que comove. Puras parvoíces, pois quem é suficientemente importante para me fazer sentir melhor do que sou - ou me sinto - só porque quer beijar-me ou dormir comigo ou partilhar comigo os sentimentos e os estados de espírito ?

Mas amei discretamente, profundamente, algumas mulheres ou raparigas, creio. Não me esqueci, nunca me esqueço de quem merecia ser amado e não foi possível. Morre-se com saudades desses olhos, desses braços, dessas mãos que não chegaram a acariciar-nos. E dói na alma ter estado tão perto do amor verdadeiro e profundo antes de o perder. Nós somos assim, estragamos tudo com a nossa falta de talento e de coragem.

Provavelmente idealizei excessivamente as raparigas e as mulheres que amei ou que me preparava para amar. Às vezes tenho saudades de uma menina que gostava do meu cão, eu mandei-lhe as fotografias dele e ela ficou encantada. Aliás o cão não era meu, vinha apenas ao fim da tarde espreguiçar-se no meu tapete, eu deixava a porta que dava para o pátio aberta e ele vinha fazer-me companhia.

Nunca deixei de ver o amor como um malentendido da necessidade, engano que mais tarde ou mais cedo se revela e deixa as pessoas de novo sozinhas. Sou um ignorante. E um ingrato. A minha imperfeição e a minha falta de coragem são assustadoras. Não tenho fé, é isso. Mas ponho-me a ler Spinoza e a tranquilidade, a lucidez, a humildade dele, que era português e exilado como eu, inspiram-me respeito e afecto. Talvez aprenda com ele a ter as ideias claras e a viver melhor.

(Caderno Azul)

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