Monday, April 7, 2008

Não falas?

É impressão minha ou decidiste calar-te? Ultimamente só vejo fotografias no teu blogue. Não sei se é o teu silêncio que me incita a falar (para te provocar, para não te perder de vista). Tinha-te escrito há tempos para te dizer que estava a deixar de fumar e de tomar anti-depressivos. Ainda não cheguei ao fim desse projecto, mas acho que ele está bem encaminhado. Ainda fumo uns 4, 5 ou 6 cigarros por dia, mas pus de lado a marca em que estava viciada. Desde há muito que não engulo o fumo. Talvez sempre passasse um pouco, mas a minha consciência de culpa impede-me de encher os pulmões. E com esse remorso permanentemente no espírito, acabo por não ter prazer verdadeiro em fumar. É uma frustração. Creio que não há nenhuma marca de cigarros que possa satisfazer-me, mas essa incapacidade de me regalar como antigamente com um cigarro pode dever-se à minha incapacidade de me abandonar ao vício (terei agido assim com os sentimentos, será a necessidade de me proteger uma atitude normal do meu carácter?). Com os anti-depressivos creio que as coisas correm com mais clareza. Ainda os tomo umas duas ou três vezes por semana, irregularmente, para respeitar os conselhos que me deram. Mas já percebi que em breve tenho o problema resolvido. Creio que já estou mais perto da realidade, o que eu sinto agora já me parece que deixou de estar protegido por esse filme ou verniz que isola os sentidos e atenua o impacto do que nos desagrada ou magoa. E como me sinto bem apesar disso, penso que em breve deixarei de estar dependente dos medicamentos. Este processo tem-me levado a interrogar-me sobre a necessidade que tive no passado de me proteger dos meus traumas, da fealdade da vida e dos obstáculos que ela nos põe no caminho, tomando anti-depressivos. Mas não adianta pensar nisso: se foi erro, já não se pode corrigir; a vida vive-se aprendendo a vivê-la, é um facto. As pessoas que nos fazem mal ou nos tratam com pouca consideração obrigam-nos a encarar, às vezes com brutalidade, o rosto da nossa própria morte; tiram-nos os subterfúgios e a ilusão inconsciente de imortalidade que nos traz de pé. Os anti-depressivos provavelmente ajudam-nos a ter uma consciência atenuada da nossa miséria e da ameaça da morte sem que nos perturbem excessivamente as emoções e o remorso. É possível. Quando deixo de fumar, recupero o olfacto, o que como e bebo tem outro sabor, o meu espírito e as minhas pernas aligeiram-se, sinto-me como se voltasse à adolescência. Deixar de tomar anti-depressivos tem um efeito semelhante. Creio que o que me dá prazer neste momento é sentir-me fisicamente forte e capaz de dominar sem precisar da ajuda de ninguém dois vícios ao mesmo tempo. Fico a olhar para as fotografias que tiraste no Death Valley e apetece-me ir lá ver nascer o sol. Talvez vá. Se for... peço-te conselho antes. Escreves-me?

Laura