Friday, April 18, 2008

Poesia?


O que é a poesia? Escrever, falar, serve para quê? Linguagem do sentimento religioso? Linguagem da ingenuidade e da imaginação infantil? Linguagem da filosofia, do conhecimento? Falar barato de político mundano com leituras camoneanas? A voz da poesia é a voz de certa ternura - mesmo nos protestos e na agressão, mesmo no tédio do estilo muito pensado - pela vida, pelos outros, por nós mesmos. E é um jogo. São muitos jogos, cada um escolhe o seu, adaptado ao momento e ao desejo. Há regras, sistemas. Às vezes há projecto, cada poema é um tijolo do edifício em construção. É preciso acreditar no poder sobrenatural da linguagem, tê-la por coisa mítica, fibra invisível mas sensível da alma, para lhe dar tantos lugares e em seu nome fugir ao esforço da acção incerta. A poesia pode ser queixa, afirmação de identidade, reivindicação da existência. Pode ser tentativa de demonstração da imortalidade do sentido, vontade de provar que acreditar no destino se justifica. Será prova de crença na existência de Deus? A profundidade, a seriedade, a importância da poesia imagino que devem ser proporcionais ao valor da pessoa e da sua fé, mas não estou seguro disso. Quem não acredita em Deus, só tem presente - e sabe que o presente é de curta duração, mesmo o presente mais longo de uma vida humana. Acreditar na poesia é como acreditar em Deus. As convicções, a competência linguística que não é exactamente escrever bem, serão necessárias? Devem ser, mas quem é tão pobre que não tenha uma convicção, que não saiba juntar meia dúzia de palavras numa frase? A poesia é arte? Pode ser, tanto se me dá que o seja ou não. O que é a arte? Maneira de passar ou ver passar o tempo com mais dignidade, estando de fato e gravata à janela? Gesto de melancolia perante a gravidade sem remédio da vida e da morte? Escrever é interpretar. Até pode ser gritar, mas de que serve gritar? Escrever poesia é, enquanto se vai interpretando e reconstruindo, propor sentidos. Escrever um poema, porém, não é a mesma coisa que dar um beijo ou um murro. Ou será? Embelezamos, deformamos, imortalizamos o que nunca será imortal de qualquer modo. Tornamos claro o que nunca deixará de ser obscuro. Perdoam-nos e perdoamo-nos a deturpação poética. Nem sempre. Mas não se escapa à materialidade do mundo. Nem à morte. Embebedemo-nos, para esquecer.

Eu, Gonçalo Matias, deixei de escrever poesia (aliás só publiquei um livro, há muitos anos). Era inevitável. A poesia pode ter-me ajudado a usufruir espiritualmente e materialmente da vida, com alguma elegância talvez, ou refinamento de espírito pretensamente superior, algumas vezes. Ajudou-me, a mim também. Nem quero saber em que é que a poesia me ajudou, mas de certeza que me ajudou a suportar muita coisa, a prosseguir no caminho da perfeição moral e material. Obrigado, poesia, mas agora descansa em paz, deixa-me ser apenas um homem igual aos que nunca escreveram uma linha. Já não necessito de querer ser mais do que aquilo que sou: pura matéria, destinada a dissolver-se. Acho a maior parte da poesia – ou do que se designa por poesia - inútil. Não me serve para nada. Não me enternece sequer a bondade das pessoas que escrevem poesia, seja ela boa, o que é raríssimo, ou má. Na poesia não se marcam golos, é menos apaixonante do que o futebol. A poesia hoje só devia interessar aos arqueólogos. No meio de tanta confusão e de tantos destroços encontrariam de vez em quando um poema a sério e gritariam de alegria. Mas o arqueólogo sou eu, somos nós. Para ser arqueólogo, sabe-se, é necessário um elevadíssimo conhecimento dos objectos, uma qualificadíssima experiência. Os arqueólogos competentes são tão raros como a poesia. Eu estou cansado de molduras. Quero ficar do lado de fora de todos os quadros.


(Caderno Azul)

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