Monday, April 28, 2008

Reflexão sobre o desencontro

Só nos encontramos com imagens, as pessoas reais são-nos inacessíveis. Não se conhece ninguém. A rapariga que encontrei no café e que foi jantar comigo, quando a reencontrei no dia seguinte, sentada à mesma mesa da mesma esplanada do café, tornara-se de novo uma estranha. Era necessário recomeçar tudo de novo. Tudo: a aproximação, o aprofundar das razões e das preferências, o decifrar da visão do mundo, o adivinhar do desejo e das intenções.

Faltava-me o tempo, a coragem, a energia. À nossa volta havia outras pessoas e uma conversa íntima exigia solidão. Ela debruçava-se sem paixão sobre os cadernos de estatística. Não havia continuidade nem intensidade no seu esforço. Eu via-a esticar as pernas na cadeira, alongar-se. Não sei se era uma manifestação do tédio, se pontuação da acção que hoje não ocorria. Afinal vieste, disse ela. Afinal vim, disse eu. Não lhe perguntei se tinha dormido bem. Não a acusei de ter inquietado a minha noite. Calei-me, mas não deixei de pensar.

O desejo, a beleza que perturba, desviam-nos do caminho que tínhamos começado a seguir, da perseguição do ser. O meu interesse pela rapariga nascera da minha admiração pela sua beleza? Impressionou-me muito, sim. Mas talvez não. O que me seduzira fora a solidão e o tédio em que se manifestava a sua insatisfação com a existência. Concluí, a dado momento: as coisas que ela diz, a maneira que ela tem de as dizer, a atenção que ela me solicita quando fala, provam que ela tem em conta de maneira séria a minha existência; não lhe sou indiferente, ela conta comigo; não sei para quê, mas ela conta comigo.

Porque é que eu não percebi logo, porque demorei tanto tempo a entender?

A mulher.
Esquecemos a pessoa e só vemos, aquém dela, a imagem.

É a minha insegurança, o medo de ser recusado ou de ser ridículo que me levam a comportar-me de maneira tão superficial e inconsequente?

Não sabemos ver, não entendemos nada. Ou só vemos e entendemos tarde de mais. E se não há uma segunda oportunidade que permita corrigir os erros, a imperfeição do nosso comportamento?

Amanhã ou depois de amanhã chego ao pé dela e digo-lhe: perdoa-me. Ela não percebe, fica a olhar para mim. E eu continuo: gosto de ti, tu és verdadeira; mas eu sou superficial, mundano, um imbecil. Não mereci o teu interesse, nem a tua confiança, nem a tua curiosidade. Portei-me como um adolescente estouvado que só pensava no teu corpo. Beijei-te no peito, não devia, mas a tua pele. E tu começaste a perceber que eu era igual a todos os outros, que a tua beleza, uma vez mais, era um obstáculo intransponível. Perdoas-me? Perdoas-me? Acreditas na minha sinceridade e no meu arrependimento? Se ela não perceber e olhar para mim estranhamente, eu insisto: a tua existência é um milagre e eu ter-te conhecido outro milagre, quero falar contigo, quero ouvir o que tu tens a dizer, juro que desta vez não me deixarei distrair pelas aparências, pelas imagens.

Não estou apaixonado. Ainda não. Mas não consigo esquecer-me da desilusão que a partir de dado momento se podia ler no seu rosto compenetrado. Uma vez mais não estive à altura da situação, falhei a alguém que esperava outra coisa de mim. Se não puder redimir-me, vou ter de viver com a decepção.

Tantos anos de aprendizagem e não sei nada, sou um ignorante. Desperdicei a vida.

É quase uma da manhã e não pára o canto sublime dos pássaros nas árvores em frente das minhas janelas. A que propósito tanta alegria, tanta subtileza, tanta arte? Deus existe? A imortalidade do espírito não é uma invenção?

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