Sunday, May 25, 2008

Cegueira

As coisas estão a acontecer e nós, a quem as coisas acontecem, pensamos que sabemos o que está a acontecer. Mas a história e o sentido da história só posteriormente se hão-de revelar, é preciso que passe muito tempo para entendermos. O que parecia oiro ou prata afinal era apenas barro, mas nós não nos demos conta da gravidade do erro. A cegueira que nos caracteriza é digna de lástima.

O outro, aqui ao lado, preocupa-se com a arte. Mas quando tenta escrever um poema repete o que já tinha dito antes. Dá-se conta disso? Ter estilo é uma maldição, as palavras que se juntam estão cansadas umas das outras, já não se podem ver, ninguém as pode ver. Numa vida inteira quantas vezes falámos verdade, quantas vezes dissemos alguma coisa que tivesse importância?

Lamentar que se tivéssemos uma segunda oportunidade nas circunstâncias que desperdiçámos e que por isso evocamos com grande dor interior pode ser compreensível. Podíamos falhar de novo, pela segunda vez, e então só teríamos de queixar-nos de nós mesmos, sem nos desculparmos com outras razões. Mas falar assim é pressupor que não somos responsáveis pelo desperdício da primeira oportunidade. Percorro a cidade à procura de uma mulher com quem falei uma vez e a quem não dei a atenção que ela merecia, mas não a encontro, nunca mais a verei. Às vezes penso: ela não sabe a importância que eu lhe estou a dar, a importância que podia ter na minha vida, mas se soubesse talvez pensasse em mim também, talvez voltasse ao lugar onde nos encontrámos. Ontem vi o filme que fizeram de Seda, o livro do italiano, e percebi melhor o que é o amor verdadeiro.

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