Friday, May 9, 2008

Imbecil

Sou um imbecil. Saí como uma rapariga, levei-a a um bom restaurante, jantámos, tudo a correr magnificamente. Estava combinado há uma semana e ela estava mais linda do que nunca. Conhecemo-nos há uns três anos, mas nunca aconteceu nada entre nós. Ela não é bem o meu tipo, mas é bonita e inteligente. Depois de jantar, sentámo-nos lá fora, num banco da praceta, a fumar um cigarro. Estava uma noite fresca mas agradável. Peguei-lhe na mão, ela tinha as mãos frias e eu disse: mãos frias, coração quente. Ela riu-se e disse: tu tens as mãos quentes. Coração frio, respondi eu a rir. As nossas mãos ficaram presas uma na outra, ela acariciou-me levemente. Não dei importância particular ao gesto dela, nem estava seguro de que ela me tivesse acariciado a mão, eu é que tinha a mão na dela e a acariciava. Olhei para ela e apeteceu-me vagamente beijá-la. Em vez disso comecei a falar das relações entre homens e mulheres e de como é difícil perceber o que é que as pessoas esperam de nós. Esta cena já se repetiu umas três vezes esta semana. E no passado, quantas vezes? Receio ser brusco, não tenho confiança em mim, não quero ser ridículo nem ter aborrecimentos? Ando a treinar-me para o grande amor? Sou um imbecil.


(Caderno Verde)

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