Wednesday, May 7, 2008

Medo da intimidade (II)

7. Nada é nunca tão claro como parece. Honestamente: o nosso desentendimento deixou-me triste e com vontade de obter respostas para algumas perguntas que me foram surgindo. Admito que ao duvidar de ti, ao não acreditar em ti , eu agi de maneira menos correcta. Comportei-me de maneira infantil, primitiva, selvagem e estúpida. Mas as nossas relações não são claras, há muita coisa que eu não entendo. E nessas circunstâncias, já se sabe, as dúvidas podem ser mais fortes do que a nossa vontade de confiar. Ainda não te conheço o suficiente e tu não tens feito muito para facilitar uma aproximação mais rápida, para eliminar uma ambiguidade que pode ser perturbadora quando ainda não estamos seguro da relação que iniciámos com uma pessoa. Essa insegurança a teu respeito – quem és tu exactamente, o que é que tu esperas ou queres de mim ? – levou-me a julgar-te mal. Mas depois de tu teres telefonado, tudo se compôs e eu fiquei-te grato. A tua voz de repente ficou mais clara, foi fácil entender-te. Tu estavas concentrada, senti que o que tinhas a dizer-me era importante e necessitava de ser dito. E convenceste-me, reconheço. Nem sempre falas assim, com segurança, firmemente. Por vezes, quando me telefonas, pareces nervosa ou receosa, eu sinto que não estás à vontade. Desta vez foi diferente. Repreendeste-me como nunca ninguém ousou repreender-me e eu interpretei a tua atitude como uma prova de que as nossas relações são importantes para ti. Foi bom, eu fiquei contente. O pior foi a minha reacção, mais tarde, quando voltei a pensar no assunto. Por que razão é que ela se permite pensar e dizer que agi incorrectamente? Quem lhe deu o direito de me julgar? Quem é que ela pensa que é? O que é que eu já recebi dela, o que é que ela me deu até agora, o que é que ela já fez para evitar que eu duvide? E então pensei que podia perfeitamente continuar a viver sem ti. Não era o que eu queria, mas podia fazê-lo. Eu sei o que é a solidão, a frustração e os aborrecimentos que nascem das relações não me são desconhecidos. E posso viver com isso, já vivi antes. Mas uma vez mais ficava pelo caminho qualquer coisa que para mim se tornara importante. E não me apetecia nada perder-te. Eu quero que tu me ames, eu quero amar-te, Laura. Talvez eu espere mais das pessoas e de ti do que devia e me arrisque permanentemente, por essa razão, a ser remetido para o vazio de uma existência árida e desinteressante. Mas eu luto, eu não me conformo. E uma vez que decidi que tu me interessavas, não estava disposto a renunciar. Não há na minha vida muitas relações de que eu tenha guardado uma memória muito forte. Amei seriamente duas mulheres, provavelmente três. Devo ter amado outras, mas as circunstâncias não permitiram que a relação com elas se tenha desenvolvido o que era necessário para que tivessem ficado grandes recordações. Provavelmente tive culpas nisso. Ou foram elas que não acreditaram, não sei. Ter-te conhecido parece-me que fez renascer a esperança.

8. Há outra coisa que tenho de dizer antes de terminar esta carta: os joguinhos que alimentam algumas relações e que provavelmente divertem outras pessoas, a mim não me interessam, não tenho paciência para parvoíces. Eu sou sincero, digo o que tenho a dizer, faço o que tenho a fazer, as manipulações deliberadas aborrecem-me. Por isso, embora correndo o risco de descobrir mais tarde que me enganei, sou quase sempre muito directo, digo o que sinto sem recear as consequências. Entrego-me, seguro de mim e da minha força, sem temer a desilusão ou a frustração. Percebo depressa de mais o que quero? É possível. Tanta certeza da minha parte assusta a outra pessoa, ainda hesitante, ainda a precisar de tempo para pensar e compreender o que se passa? Não é impossível, admito-o sem esforço. Mas eu sou assim. Há dias, quando conversávamos no café, confessei-te que se há outro homem interessado numa mulher que começou a interessar-me e eu não estou ainda suficientemente envolvido na relação, prefiro recuar, afasto-me, deixo correr. Não luto, não quero. Se a mulher que me interessa me procurar, me preferir, fico contente, mas eu não lutei por isso, sobretudo não entrei em despiques com outro homem por causa dela. Acho os despiques por causa de uma mulher infantis, ridículos, degradantes. Não vale a pena forçar as coisas. Se perder, aceito ter perdido, digo para mi mesmo “essa mulher não era para mim”. E esqueço-me, fico-me por aí. O ciúme, a competição, o desejo de ganhar ou de não perder falsificam este tipo de situações. Eu não quero amar uma mulher por causa dos obstáculos que dificultam as nossas relações, não quero amar uma mulher só porque há outro homem interessado nela. Quem me garante que mais tarde, tendo a memória desse episódio ficado a fermentar no seu espírito, ela não vai ceder à curiosidade de ter uma relação com ele? É melhor deixá-la ir. A frustração de nos ter preterido há-de um dia trazê-la de volta e se nós estivermos disponíveis nem tudo se terá perdido. É claro que a relação, se então acontecer, não terá nunca a importância que teria tido se ela tivesse ficado logo connosco. Mas nem todos os amores têm de ser grandiosos, a realidade é o que é.

9. Já percebi que uma das razões, provavelmente a mais importante, que nos leva a procurar gratificações sexuais e afectivas em relações paralelas à relação sólida e séria que temos com uma pessoa é, surpreendentemente, o nosso medo da intimidade. Um medo monstruoso, inconsciente, talvez irracional e incompreendido, da intimidade. Se sentimos que estamos a ficar envolvidos com a pessoa que amamos de maneira muito profunda, receamos perder a nossa identidade. Deixar esfumar-se os contornos da nossa personalidade, do nosso precioso eu, da nossa individualidade aterroriza-nos. A fuga, a escapadela noutra relação é uma forma de protecção contra a desagregação do eu que tem lugar nas relações amorosas intensas. E por essa razão, que pode parecer contraditória e incompreensível, preferimos afastar-nos da pessoa que amamos acima de todas as outras. Uma relação paralela, irresponsável, sem compromissos de seriedade, divertida e superficial, é capaz de ser também um bom antídoto contra o medo da morte que invade os amores muito intensos e profundos, tornando-os trágicos. Parece absurdo, mas não é, pois o amor a dado momento pode de facto transformar-se numa ameaça de castração. Castração é uma palavra da psicanálise, mas neste caso significa simplesmente dissolução da personalidade, desaparecimento do eu que nos individualiza. Pode haver outras explicações para a infidelidade amorosa e acredito que serão válidas. Por experiência própria, esta parece-me a mais convincente.

10. Receio que tudo o que acabo de escrever te pareça muito teórico. Não é fácil exprimir-se, organizar os pensamentos, sem dar essa impressão. Mas podemos voltar ao assunto quando nos encontrarmos, se tu quiseres.

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