Monday, May 26, 2008

O verdadeiro e o falso

O que é verdadeiro
contém em si o poder
da emoção. Não são
precisos os artifícios,
o que é verdadeiro
encontrou as suas
palavras e o seu
estilo.

Às vezes enganamo-nos,
o que é falso parece
verdadeiro e nós sentimos
erradamente. Não estou
a falar da poesia nem
da arte em geral, a questão
da sinceridade da arte
não me interessa neste
momento. E o que é
sentir erradamente?
Arrependo-me agora
de ter visto no brilho
dos teus olhos o amor
que não sentias por mim?
Foi há tanto tempo.
Tu própria não sabias
o que era verdade e
o que era mentira,
embora quisesses
que eu lesse no teu
rosto o que tu pensavas
que já não podia
estar no teu coração.
Não digo estas
coisas para te
desculpar ou
tornar mais suave
a minha pena.
Digo o que sinto,
exactamente.
Se o que eu sinto
está de novo errado
é porque a minha
vocação para a dor
e a minha compaixão
são inesgotáveis.

Não tenho remorsos
de nada. E tenho
remorsos de tudo.
Porque desperdicei
as emoções a sentir
sem razão o que senti?
Estava iludido, para
mim tu ainda eras
aquela que me
amava. Em vez
de perder o meu
tempo a acreditar
no que era falso,
a deixar o que era falso
impressionar o meu
espírito e o meu
coração com as
emoções do que era
verdadeiro, podia ter
tido a sorte de estar
noutro lugar a sentir
as coisas certas. O
que é sentir e o que
são as coisas certas?
Não haveria razão
para remorsos,
eu seria o único
culpado de o amor
ter ficado aquém
das promessas que
nos tinha feito.
Deve ser isso que eu
estou a tentar dizer.

O verdadeiro e o falso,
diria Alberto Caeiro,
são ambos a verdade
dos sentimentos, ambos
são o retrato fiel
daquilo que é a nossa
existência. Tomar
o falso pelo verdadeiro
também enriquece
a nossa experiência
da realidade. Olho
para trás e recordo-me
das cenas que pareciam
ser uma coisa e afinal
eram outra bem
diferente, eram
uma coisa que eu
ignorava. Não tenho
pena de mim nem de
ti por me ter deixado
enganar. Senti o que
era preciso que eu
sentisse nesse momento
que não é este momento.
Se eu tivesse sido
perspicaz e soubesse
distinguir a mentira
da verdade só por
olhar para o teu rosto
ou ouvir as palavras
que tu dizias seria
outra pessoa, não a
pessoa que de facto
sou. Teria interrompido
a narrativa, interferia
bruscamente, feroz,
na ficção da tua
existência e da minha,
talvez gritasse: eu sei
o que é verdade e
o que é mentira,
agora podes ir-te
embora e deixar-me
só. Em vez disso, em
vez de ser o herói
inteligente dessa história
em que tu e eu estávamos
por engano, senti as
emoções que provocam
em nós as coisas
que são verdadeiras.
O teu rosto era mentira,
tudo que tu dizias
eram mentiras
preparadas de antemão,
mas o que eu sentia
era verdadeiro
apesar de saber
e não o dizer
que tu mentias.

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