Friday, May 9, 2008

Os deuses

Já compreendi: os deuses, ciosos do seu poder, criaram-nos mortais porque desse modo o universo nunca deixa de pertencer-lhes só a eles. Renovam-se os rostos, os corpos, as cidades, os amores. E eles, lá em cima, atentos, voyeurs supremos, deleitam-se a contemplar a beleza sempre nova e inesperada da nossa juventude. Têm alguma tolerância e paciência para observar do canto do olho entediado o nosso envelhecimento, que os satisfaz e ao mesmo tempo lhes repugna. Quando enfim morremos, eles suspiram de alívio. Se a beleza da nossa juventude irrequieta e irreverente resplandece em traços e qualidades nunca vistos antes, eles não resistem a chamar-nos para junto deles antecipadamente. Se por outras razões, que escapam ao nosso entendimento, a nossa existência os incomoda, também não têm escrúpulos em nos fazer morrer jovens. Somos matéria, barro, carne que só existe para satisfazer a obsessão com a beleza que os atormenta e delicia. Séculos e séculos de queixas, acusações e lamentos nossos deixam-nos indiferentes: eles são os deuses e não têm que nos dar explicações sobre a maneira como organizaram os seus prazeres.


(Caderno Azul)

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