Saturday, May 3, 2008

A palavra

Revi esta noite Ordet (A palavra), o filme de Theodor Deryer. Se me perguntarem o que é uma obra de arte, posso responder: Ordet é a arte. Era a arte em 1955 e continua a ser "a arte" em 2008. Grande arte, arte sublime.

Seria bom que Deus existisse. Mas mesmo que Deus não exista, a ideia de Deus, o conceito da divindade organizou o mundo. Ou devemos dizer que foi o sofrimento humano que para se redimir ou iludir, para se consolar do inconsolável, organizou o mundo à volta da ideia de Deus?

Inger está morta no caixão. O marido está destruído pela dor e o médico que não conseguira salvá-la diz-lhe: "Remember, Borgen, that even in pain there is beauty". Palavras tontas, palavras ofensivas. Revoltado, o marido ateu responde: "Yes. And all that beauty, Doctor, is so frightful important". De facto, que importância tem a beleza para quem está dentro da tragédia? Nenhuma, quem sofre tem mais em que pensar, tem mais que sentir, não se pode tansformar em espectador orientado esteticamente para o que lhe acontece. O que, fatalmente, reduz a maior parte das nossas obras de arte a coisas menores, a brincadeiras de gente desocupada.

O respeito que nos impõe a beleza de Ordet é inseparável do respeito que nos impõe a contemplação da tragédia. O sublime da forma confunde-se em Ordet com o sublime da dor. A grande arte creio que é isso: representação sublime da tragédia. Na grande arte a beleza não se deixa usufruir despudoradamente enquanto puro ornamento, na grande arte a beleza, o sublime, não acontecem como excrescências, não são um suplemento, a prova gratuita e vaidosa de um virtuosismo qualquer.

A apreciação da beleza da tragédia é um luxo que não é concedido a toda a gente. Que na realidade só nos é concedido quando a tragédia não é a nossa. Aquele que está dentro da tragédia não é desprovido de capacidade estética, certamente. Mas quem põe a estética em primeiro lugar quando a dor oprime? Pôr de lado a dor e deixar de ser sujeito e vítima do sofrimento intenso para se tornar puro espectador do acontecimento é prova de irresponsabilidade, de superficiliadade, de desespero, de perdição ou de loucura.

Quando tentam acalmar a dor de Mikkel, o marido que acaba de perder a mulher, dizendo-lhe que ela está no céu, na companhia de Deus, onde é feliz, ele responde: "Her body is here. I loved her body too." Corpo e espírito inseparáveis. Negação da retórica religiosa da consolação.

Give me the word. A palavra dita com fé consegue o milagre. A palavra daquele que crê ressuscita os mortos. Ou produz a verdadeira obra de arte. No filme a criança crê e o louco faz o milagre. Ambos, a criança e o louco, acreditaram, tiveram fé. Fiquei a pensar que o valor real das palavras é no fundo o valor real das situações em que elas surgem. A intensidade da palavra nasce do nosso envolvimento na seriedade da vida, que referida à morte deixa de ser divertimento. Para explicar o poder da palavra trágica, que pode ser noutra circunstância, sendo a mesma palavra, uma pobre palavra sem importância, temos de reconhecer que são as situações em que elas são pronunciadas que conferem às palavras a sua intensidade e o seu temível poder.


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