Monday, May 5, 2008

Medo da intimidade



For all true power and beauty of the body, all sureness
and boldness in combat, all authenticity and inventiveness
of the understanding, are grounded in the spirit and rise
or fall only through the power or impotence of the spirit.
The spirit is the sustaining, dominating principle, the first
and the last, not merely an indispensable third factor.


Heidegger, An Introduction to Methaphysics, translated
by Ralph Manheim, Yale University Press, 1959



1. Por que razão traímos aqueles que amamos? Porque os deixamos em casa e saímos depois de jantar, por exemplo, para irmos abandonar-nos e consolar-nos nos braços e nos lábios de outra pessoa, meter-nos cama com ela? São coisas que eu fiz. E quando regressava a casa beijava a minha mulher, que estava a dormir, com ternura e amor. Ela não aceitaria tal carinho e tal amor, é compreensível, se soubesse que eles tinham a sua origem na minha relação amorosa com outra mulher. Eu amava a outra mulher? Era um amor de outra natureza. Eu gostava de passar regularmente algum tempo com ela, de certo modo amava-a, hoje ainda guardo boas recordações dela e da nossa relação. Magoei alguém ao proceder assim? Magoei. Não a minha mulher, que ignorava o que se passava, mas a rapariga que me amava e sempre se queixou de não ser a pessoa mais importante na minha vida.
2. Por que razão agimos assim? Eu era bastante jovem. Era difícil não ceder à tentação de amar outras mulheres. Não foram essas digressões, porém, que destruíram o meu casamento. O que destruiu o meu casamento foi eu ter começado a suspeitar da fidelidade da Andreia, a minha mulher. Creio que se essa dúvida não tivesse bruscamente tornado as nossas relações e a minha vida um inferno, nunca nos teríamos divorciado. Não lamento ter estado casado com a Andreia. Há tempos perguntei-lhe se alguma vez se arrependera de se ter casado comigo e ela respondeu: não; e também não estou arrependida de me ter divorciado de ti. Somos bons amigos, creio que seremos para sempre da família um do outro apesar de nunca mais terem existido entre nós relações amorosas.
3. Deixa-me dizer-te uma coisa, Laura: no amor, o mais importante é a amizade. O amor às vezes é doido, porta-se mal, não tem respeito pelas pessoas, por aquele ou aquela que é amado intensamente e que será amado para sempre. A amizade, se existe e é profunda, inabalável, protege aqueles que se amam da dor e da tragédia, do desastre e das ofensas provocadas pela falta de juízo que às vezes nos assalta. A amizade, se nem sempre permite evitar o erro, salva o amor da destruição definitiva. O amor, se é verdadeiro, nunca poderá ser destruído, nem sequer pela separação. Mas isto só é verdade se a amizade e o respeito forem componentes indestrutíveis do amor propriamente dito, daquilo a que nós chamamos o amor. Por isso, para mim, quando nós amamos verdadeiramente a pessoa com quem vivemos pode não ter muita importância o desejo sexual por outra pessoa. Pode até ser bom que desejemos outras pessoas além daquela que amamos. Dar e receber ternura, a cumplicidade das confidências e da alegria que nasce dos corpos que se desejam tem por força de ser condenável e evitável? Eu não acho. O amor físico não é para mim a forma de amor mais perfeita, o desejo que é sobretudo desejo do corpo é importante mas é muito imperfeito. Por isso dura pouco tempo, em geral. Mas onde iria o puro amor físico buscar inspiração se só vê e só conhece o corpo? O corpo, sem o espírito que o torna vivo com algum sentido, é em si mesmo uma máquina absurda, metal árido. Só o espírito, só a alma o salvam da estupidez animalesca. As qualidades morais e intelectuais da pessoa, a sua inteligência e sensibilidade, a sua honestidade, sinceridade e capacidade de amor espiritual são portanto muito mais determinantes na qualidade das manifestações do amor físico do que nós pensamos.

4. A amizade, a possibilidade de comunicar são o mais importante. O tempo também é importante. O amor exige tempo. Tempo para se entender a si próprio, para amadurecer, para aprender a existir e a durar. Depois é preciso ter em conta que as palavras que nós usamos têm um sentido pessoal para cada um de nós. O sentido do dicionário é apenas um esqueleto do sentido que as palavras adquirem quando usadas por nós nas situações da vida real. Portanto: estamos a falar de coisas diferentes quando pensamos que estamos a falar da mesma coisa. As palavras têm a envolvê-las a carne com que foram ganhando corpo nos episódios da nossa experiência, que é sempre única e privada, que é em parte inacessível à explicação clara, que por isso só dificilmente é partilhada. Por todas estas razões o desentendimento, a insatisfação, as ofensas graves, a humilhação, as manifestações perigosas da loucura não são facilmente evitáveis. O desajuste entre o sentido das palavras tal como foi sendo amadurecido na experiência pessoal e o sentido das palavras tal como o armazena o frigorifico do dicionário explica muitos dos problemas que nos surgem nas relações amorosas. A amizade, a compaixão, a confiança, o respeito, a capacidade de comunicar sem nos transformarmos na criança birrenta que se refugia, autista, no canto da sala podem ajudar a resolver muitos problemas. Problemas frequentemente menos importantes do que parece. Mas nós vivemos tão preocupados em estabelecer e fazer respeitar os limites da nossa dignidade, em delimitar o espaço em que se exerce a nossa soberania indiscutível de reis e de rainhas, que facilmente nos comportamos como cães: ladramos, ladramos, ninguém consegue calar-nos.

5. Não sei se dizer “eu gosto de ti” , ouvir dizer ”gosto de ti” têm grande importância. É possível que haja uma excitação passageira, uma gratificação momentânea quando se dizem e ouvem essas palavras. Mas uma frase vale o que vale e nada é seguro. Dizem-se e ouvem-se essas coisas, mas nós muitas vezes não sabemos o que dizemos. Usamos as palavras para obter sem muito esforço recompensas de nós próprios e dos outros. Muitas vezes resulta, talvez. Mas nós não sabemos bem o que estamos a dizer. Se resultou, isso convence-nos de que através da linguagem chegámos a algum acordo com outra pessoa. Mas não é seguro que o acordo a que pensámos chegar seja aquele a que pensa ter chegado a outra pessoa. Nem sequer que o acordo a que pensamos ter chegado é o que nós próprios imaginamos, independentemente do que a outra pessoa possa pensar ou imaginar. As coisas não são tão simples como parecem. Talvez as palavras do amor afinal sejam outras e talvez sejam palavras desconhecidas e a descobrir ainda, a descobrir de cada vez. Talvez o próprio silêncio seja uma “palavra” de amor que nenhuma outra palavra pode substituir. O ritual do início de uma relação pode ser agradável, excitante. Mas também é penoso. Eu não gostaria que a minha relação contigo viesse a ser julgada mais tarde pelas frases que eu te disse quando te conheci. Nem cometerei o erro de acreditar que as nossas relações futuras se decidiram nos passos que nos levaram a meter-nos juntos na cama pela primeira vez. Talvez a importância e a seriedade do amor se possam medir pelo desejo que nos juntou, mas duvido. Provavelmente hão-de ter mais importância nas nossas relações futuras os momentos em que ficámos em silêncio, de mãos dadas, na cama onde os nossos corpos se tinham procurado, do que o que dissemos e o que fizemos. O amor necessita de tempo e de silêncio, de espaço de respiração e de atenção, de paz de espírito. A confiança e o entendimento necessitam de tempo para se formarem.

6. Escrever-te não substitui o que ainda não aconteceu. Escrever-te também não é uma maneira de adiar, de condicionar ou de modificar os acontecimentos. Penso que não. O que tiver de ser, será. Eu não estou receoso nem preocupado. Também podia dizer, sem ter medo de estar a faltar à verdade, que já estou ao teu lado. Se tivesse de abandonar o lugar, de ir-me ou vir-me embora neste momento, ficaria frustrado, já seria doloroso.


(cont.)

(Caderno Azul)

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