Sunday, June 22, 2008

Bares

Antes de ir para casa parei no bar da Hollister para saborear uma Perrier (conduzo, não posso beber álcool: se a polícia nos apanha são uns cinco mil dólares de despesa). Não havia muita gente (da última vez, há uma semana, estava a abarrotar porque o trimestre e o ano lectivo terminaram e os estudantes, antes de desaparecerem, precisavam de festejar). Sentei-me lá fora, no pátio, tranquilo, com a água na frente, e fiquei a ouvir dois tipos que falavam de literatura a dois metros de mim (colegas, provavelmente, mas eu não os conhecia). À mesa a que me sentei estava sentado um rapaz com um copo de cerveja quase cheio na frente. Tinha todo o ar de se aborrecer. Minutos mais tarde levantou-se e desapareceu, mas deixou a cerveja. Quando os outros dois chegaram, o rapaz americano e a estudante europeia, o americano perguntou-me se podiam sentar-se. Disse-lhe que sim. Foram buscar uma cerveja, voltaram, sentaram-se. O tipo mandou logo a mão para as pernas da rapariga, fiquei quase chocado. Foram falando e eu ouvindo. Ela era uma jovenzinha inocente e tímida que veio passar uns meses à América para aperfeiçoar o Inglês e ia-se embora para a Europa no dia seguinte, estava cheia de pena. A experiência na América, evidentemente, tinha-a entusiasmado. O clima da Califórnia, além disso, é fantástico. E ela tinha visto tanta coisa nova, conhecido gente tão interessante - até brasileiros, tão simpáticos sempre e a falar uma língua tão bonita.

É curioso como nas conversas de engate, quando as coisas ainda não estão seguras, se fala de tudo menos do que está em jogo. O lobo queria comer a ovelhinha e eu, por solidariedade europeia, achava que ela não devia deixar-se comer por um lobo americano. Parecia bom rapaz, talvez o fosse, mas estava a querer resolver o assunto de maneira que achei abusiva, apressada, desenvolta. Ouvi-o falar com uma convicção romântica excessiva do sabor delicioso do leite acabado de ordenhar, das piscinas que limpava num hotel em que trabalhara em Miami, de aviões e de companhias aéreas, de batatas fritas, do país dela, não sei de quê mais. A conversa evoluía nervosamente, não tinha rumo nem tópico definido. O tópico, apesar de dissimulado, era no entanto evidente: tenho de a comer, dê por onde der, ela vai-se embora amanhã. A dado momento meti-me na conversa para confirmar que fries em French fries significa de facto fritas. Depois falámos, primeiro ele eu, depois ela também, de política. Eu disse que não gosto do Obama - fala bem de mais acerca de tudo e é um arrogante, eu prefiro a Hillary - e ele respondeu que de qualquer modo quem vai ganhar as eleições é o candidato republicano. Fiquei informado. Abordámos a questão dos impostos, a questão da debilidade do dólar, falámos do preço proibitivo da gasolina e da guerra do Iraque, tudo assuntos sobre os quais as opiniões dele eram apenas políticas, isto é, "republicanas". Sem interesse para mim, mas dava-me um prazer cínico ter introduzido a fria realidade na fábula poética em que ele tentava envolver a rapariga. Acabei por dizer todo o bem e todo o mal que penso da América, não resisto nunca a tentar fazer uma síntese convincente das contradições deste país. Apesar de me prestar atenção, o americano, compreensivelmente, estava era interessado em seduzir a rapariga. Achei-o vagamente impaciente, eu estava a fazê-lo perder tempo e a prejudicar-lhe a estratégia. Decidi deixá-los em paz. Levantei-me, disse boa noite, saí. Quando me sentei no carro ouvi-me dizer: filho da mãe de republicano sabido, oxalá leves uma tampa.

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