Sunday, June 1, 2008

Desintegração

Prova evidente da minha desintegração social: não cultivo nenhum estilo de vida ou de aparência com intenção deliberada de me tornar notado, interessante, coerente, não sinto necessidade de me caracterizar fazendo referências regulares e criteriosas aos meus gostos literários ou artísticos, actuais ou do passado. Quando me sento num café não me sinto a personagem melancólica e sedutora de nenhum filme feito ou por fazer, de nenhum livro escrito ou por escrever, do sonho de nenhuma mulher. Vestir pullovers cinzentos ou azul escuro, andar de jeans, só fumar cigarros Nat Sherman sem aditivos, ler Hamsun, Dostoievsky, Celan, tentar entender Heidegger e Spinoza além de Wittgenstein, ler Kafka, Gogol, whatever - e nem me refiro à música que oiço, aos filmes que vi ou vou vendo - nada contribui para que eu me sinta uma peça particularmente original no jardim zoológico do mundo. Talvez tenha ultrapassado a fase do narcisismo primário em que necessitamos de definir com clareza uma série de coisas para desenhar para os outros e para nós mesmos o mapa original e inconfundível da nossa personalidade. Sinto-me bem assim, sem mapa, acho que até já estou mais perto do caminho certo (morrer sem a pretensão de ter vivido com estilo). Se às vezes me sinto mal ou coisa nenhuma é por outras razões.

Eu, Gonçalo, se não estou errado, saí definitivamente de Portugal em 1969. Continuar a sentir-me português é uma prova clara da minha teimosia.

(Caderno Azul)

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