Friday, June 6, 2008

Ontem

1. Ela disse em voz baixa quando nos separámos: tenho o teu email. Falou só para mim, quase sem me olhar. Não estávamos sós. Eu percebi. Eu tinha posto a mão no ombro dela ternamente, senti a mão dela na minha cintura. Ela enternece-me desde sempre. Se nos encontrarmos e falarmos, eu digo-lhe: gosto tanto de ti, se tu soubesses.

2. Ela viu-me e veio a correr, abraçou-me. É minha amiga a sério. Os pais, divorciados, não a ajudam, ela não encontra trabalho nem tem dinheiro, mas não se queixa, diz sempre que está tudo bem. Uma vez à noite encontrámo-nos no café, ficámos a falar mais de uma hora. Hoje perguntou-me: se eu estivesse a divertir-me com os meus amigos, tu zangavas-te comigo? Havia um grupo ruidoso de rapazes e raparigas a beber cerveja numa mesa do bar. Respondi, intrigado e surpreendido: claro que não ficava zangado contigo. Para a semana quer que falemos, tenho de lhe tirar umas dúvidas e explicar-lhe melhor como se escreve um ensaio. Eu disse: tu sabes o que eu penso de ti. Ela atalhou: tu dizes que eu sou muito honesta. Continuei: não tenhas medo de dizer o que pensas porque o que tu pensas em geral está certo e é interessante, a tua honestidade e a tua inteligência salvam-te da estupidez e do erro. Foi, pressurosa, à mesa do bar buscar uma amiga, apresentou-ma. Eu disse à amiga: ela diz tanto bem de si. O meu pai é português, respondeu a amiga, e ela é uma tipa formidável. A amiga foi para casa. Ela olhou para mim com os olhos azuis límpidos, o rosto dela não se esconde. É uma pessoa rara. A tua mulher está melhor? E tu, estás bem? Agora vou para a biblioteca estudar, depois telefono-te, vemo-nos na terça-feira. De acordo, disse eu. Subiu para cima da bicicleta e foi-se embora.

3. Ela emprestou-me um filme. A protagonista do filme é muito parecida com ela, o mesmo tipo físico. Beleza muito discreta e severa, magra. Hoje, quando a vi, ela estava sentada ao fundo da sala, receosa, tímida. Fui ter com ela, devolvi-lhe o DVD e dei-lhe o filme do Manuel de Oliveira que tinha trazido para lhe emprestar. Vi a sua satisfação. Percebeu que eu percebi e que não a rejeitei.

4. No café, à noite, estava o bêbedo do costume, um chato, e duas ou três raparigas à volta do estudante de filosofia. Conheço-o. Não sabia que ele é tão popular: sempre rodeado de meninas. A mulher dele trabalha numa pastelaria, conheci-a num bar, ela estava sozinha, mais tarde voltei a encontrá-la com o marido no mesmo bar. Perguntei-lhe: a tua mulher? Respondeu: está a dormir. E continuou a martelar as teclas do Mac. Uma das raparigas que estava com ele é petulante, também a conheço. Outra trabalha no café e escreve novelas. Perguntei-lhe enquanto esperava pela bica: mandas-me o que escreveste por email? São sessenta páginas, disse ela. Eu: e depois, qual é o problema? Está bem, quando o meu computador voltar da reparação eu mando. Fui sentar-me lá fora a ler Ésquilo. Fogoso, comparado com a simplicidade de Eurípedes. Folheei o Decameron, li a introdução. Boccacio diz que sofreu muito por causa de uma paixão exagerada mas que recuperou finalmente a serenidade. Quer agradar às mulheres, escreve sobretudo para elas porque elas, que passam muito tempo em casa e têm menos possibilidades de se escapar, se aborrecem mais do que os homens. Veio o bêbedo, pediu-me um cigarro. Dei-lho mas evitei olhá-lo. Ficou a falar sozinho: li muitos livros, muitos romances do século XX, Kerouac. Depois pôs-se a falar do pai e do avô. Fechei o livro, vim para casa.

5. A vida é um labirinto de caminhos que não param de se abrir diante de nós. A paixão oferece-se a quem seguir o seu instinto e não tiver medo. Eu preferia não morrer.

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