Sunday, June 8, 2008

Perseguição

Eu conhecia-o, mas não o imaginava tão perto. Quando ele se sentou na esplanada do café, arregalei os olhos, pensei: persegue-me, ameaça-me, que quererá de mim? Provavelmente tinha vindo para se vingar. Pela segunda ou terceira vez. Um saco preto, pesado, os velhos jeans rotos nos joelhos, um boné castanho na cabeça, o relógio no pulso direito. Acendeu um cigarro. Estava de costas para mim, mas vigiava-me. Fazia de conta que não me vira, mas eu sabia que ele viera para se vingar. Finalmente viera. Não sabia que ele fumava, ouvi-o dizer uma vez que odiava o tabaco. Vi-o mexer-se nervosamente na cadeira, devia estar a reflectir. Não estava à vontade: ó ódio, a loucura, a frustração consumiam-no. Aquela que me amara e por amor de quem ele revolucionara o mundo à sua volta ignorava-o, era inacessível à sua paixão. Ele podia fazer vibrar o seu corpo quando a noite caía e o espírito adormece em si mesmo, mas nunca conseguira ir além disso. Quem com ferros mata, com ferros morre. De início, quando ele a convencera a habitar a casa dos subúrbios, tudo parecia correr segundo os seus desígnios. Mas aquela que me amara sem saber o que é o amor em breve havia de abandoná-lo. Na sua perdição, ele imaginava-me responsável pela ausência do amor, imaginava que o amor que ela sentira por mim a impedia de sentir amor por ele. Era provável, eu não podia responder a essa pergunta, eliminar as suas dúvidas. Sorri. Bruscamente ele levantou-se e afastou-se a correr. Sem me olhar. Mas eu sabia que tinha de permanecer atento, pois um coração ferido é capaz de todos os crimes para se vingar da imperfeição da existência. A minha vida não podia ser modificada, o passado passara e não podia ser refeito nem corrigido, mas eu sorria.

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