Sunday, June 8, 2008

Recordações

Ela levou-me pela mão
até aos dias distantes
da infância. Eu fui o
rapazinho que ela
olhava da janela, a quem,
no intervalo dos jogos
com as bonecas, ela
fazia caretas. Descia as
escadas, abria a porta
da rua, vinha ao meu
encontro com um sorriso
de desfaçatez nos lábios.
Falava comigo, o estranho.
Fiz-lhe companhia na sua
solidão. Mais tarde assisti,
sem dizer uma palavra, ao
brotar dos seus sonhos
de adolescente. Vi-a
passar na mota, agarrada
ao namorado. Observei-a,
incrédulo, quando ela
beijou o homem que a
levava de carro para as
ruas escuras da cidade.
Ela cresceu por fora,
mas nunca cresceu por
dentro. Nunca soube
apreciar o meu silêncio,
o que se passava no meu
espírito era como se não
existisse. Mas agradou-lhe
ter-me por companheiro
dos anos que nunca mais
hão-de voltar. Quando
imaginou que não era
amada, para fugir à
confusão inventou a
paixão mais forte do que
a vontade, sem acreditar
no que estava a fazer.
Chamou amor ao tumulto
incompreensível da
curiosidade e da dúvida,
assim evitou ter de entender
o seu próprio destino.
Desejos contraditórios.
Ela sabe sofrer? Ou
resolve todos os
conflitos mentindo
a si própria? Tudo
tem um preço,
não se pode apagar
o que aconteceu, nunca.
Sinto-me mais só, agora?
Ela deixou-me as
recordações da sua
infância para que eu
pense nela na sua
ausência. Como
se para sempre
as recordações e
a infância dela
fossem as minhas.
A morte talvez seja
o reencontro com o
tempo perdido. Na
eternidade, a infância
inocente e todas as
idades ressuscitam.
Ser feliz é estar no
tempo, em todos os
tempos, sem memória
nem imaginação. Isto
são palavras dos vivos.

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