Wednesday, September 10, 2008

Estrangeiro

Eu podia olhar, mas agir não. O mundo não estava à minha disposição. Deixava-se olhar, mas não me pertencia. Eu perdera a capacidade de querer, se olhava mais firmemente ou com mais convicção para alguém ou para alguma coisa o mundo irritava-se comigo. Era uma experiência interessante, essa, de se ver recusado pelo mundo. Nada a fazer contra as circunstâncias, porém. Ouvir as conversas no café distraía-me. A minha curiosidade era ilimitada. Mas não podia agir e se a rapariga na mesa ao lado da minha me olhava, eu sentia-me intimidado. Se ela, virada para mim, cruzava as pernas, eu sentia-me intimidado. Preferia não olhar, não ver, não me dar conta. O mundo não me pertencia, eu não podia aproximar-me excessivamente dele sem correr o risco de me ver recusado. Eu evitava olhar as pessoas nos olhos. Era um estranho mundo. Era o mundo para mim naquela tarde. O meu olhar incomodava-o, ele incomodava-me. Para onde ir, onde está o meu mundo, interrogava-me eu. Não sabia. Ficava sentado no café até tarde, indeciso, surpreendido talvez. Esperavam-me em casa, mas era cedo para regressar. Uma vez regressado, eu já não voltaria a sair. Estava, nesse Verão, num mundo que não era o meu, mas era um sentimento que me acompanhava recentemente por onde quer que eu fosse. Eu estava de viagem, é certo. E podia continuar a viajar, bastava-me comprar um bilhete, meter-me no comboio, ir para outra cidade. Mas andar de cidade em cidade não tornava o mundo mais habitável, eu fizera a experiência e sentia-me em todo o lado um estranho e um estrangeiro. Por isso deixava-me estar, ia ao café quase todas as tardes, saboreava um martini branco e fumava um cigarro. Às vezes lia e escrevia num caderno as minhas reflexões.

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