Saturday, November 29, 2008

Sete menos vinte

“Não há saída, não há solução”, disse ele. “Não somos nós que decidimos, nós não sabemos o que se passa e por isso não podemos decidir”.

Eu não disse nada. Havia umas raparigas sentadas a uma mesa da esplanada, ao fundo do café, fumavam e bebiam cerveja. Numa mesa mais perto da nossa o rosto (os dentes, os lábios) de outra rapariga ofereciam-se, com uma generosidade comovente, ao rapaz que lhe falava e a escutava.

“Não há nada a fazer”, disse ele, “nós não decidimos nada, as coisas acontecem independentemente da nossa vontade”. “

É possível”, disse eu, desinteressado da conversa, “é muito possível que tu tenhas razão”.

Não me apetecia aprofundar o problema. Não me apetecia pensar.

Passaram dois automóveis na estrada ao lado do rio, algumas pessoas iam e vinham, havia um barco branco encostado ao cais em frente de uma loja de utensílios para casas de banho. A tarde arrefecia, eram sete menos vinte. O sol, que nenhuma nuvem impedia de brilhar, ia-se lentamente afastando. Enrolei um cigarro.

“A noite passada”, disse ele, “sonhei com ela. Não a via há muito tempo, mas ela visitou-me no sonho. Estava em grande forma, os olhos dela brilhavam. Conversámos, ela manteve-se distante. Depois chegaram outras pessoas, ela conhecia-as, começaram a falar entre elas, fiquei de fora. Apanhei um comboio para ir não sei aonde. Ou foi ela que apanhou o comboio, já não me recordo, não consegui perceber. Não a via há muito tempo, gostei de a ver.”

Ficámos calados, depois eu perguntei-lhe se ele ainda gostava dela. Ele não respondeu logo, ficou pensativo. Depois disse que era possível, não estava seguro. “Mas ela vive com o outro”, disse eu, “esqueceu-te, tu deixaste de lhe interessar. O teu sonho não tem sentido”. “

Os sonhos”, replicou ele, “não têm de ter sentido. Eu tinha saudades dela e ela voltou, pude falar com ela”.

Calei-me. Não é fácil aceitar a imperfeição das pessoas, a imperfeção do amor. A menina que ele tinha amado envelhecera, transformara-se, já não existia senão na sua imaginação. Era um remorso, um devaneio absurdo. Mas o que é que eu tinha a ver com o assunto? Nada.

As duas raparigas que estavam ao fundo da esplanada levantaram-se, passaram por nós, foram-se embora. A rapariga que conversava com o rapaz na mesa mais perto da nossa ria-se, via-se que era feliz.

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