Tuesday, February 26, 2008

Des manières

C'est pas parce qu'on est - ou qu'on a été - amoureux de quelqu'un et qu'on vit ou a vécu avec lui qu'on a le droit de lui manquer au respect et de ne pas avoir de manières. On n'est pas des brutes.

Sunday, February 24, 2008

Engano



Fui-me embora de Portugal porque estava farto de ter de me submeter a gente que não me entendia, de ser oprimido por gente que me era inferior. E porque pude, evidentemente. Queriam obrigar-me a ser o que eu não queria ser, que tolice. Depois de muitos anos passados a viajar, veio-me um dia a nostalgia da pátria. Pensando que era altura de fazer as pazes com a minha gente, apaixonei-me por uma rapariga da minha terra e trouxe-a para ao pé de mim. Em má hora. A pátria não mudara e eu também não. A ilusão, o engano, durou cinco anos. E quando abri os olhos para a realidade e me encontrei de novo só, percebi que tinha perdido anos de vida a querer ser o que nunca poderia ser, a querer amar o que não podia amar. Hoje já não me iludo. Encontrei um refúgio secreto nestas montanhas solitárias e é daqui que, longe do lugar onde nasci, hei-de partir um dia para sempre.

(Caderno Azul)

Wednesday, February 20, 2008

O vício do amor


Aquilo a que chamamos amor é como um vício, como fumar ou beber ou drogar-se. Pouco a pouco a pessoa "amada" vai entrando em nós. Inicialmente há hesitações, resistências, sentimos que se trata de um corpo estranho a querer ocupar-nos por dentro abusivamente e privar-nos de liberdade. Lutamos, mas sem termos uma estratégia definida. Ao mesmo tempo esforçamo-nos por nos adaptar à invasão, que apoiamos. Pomos de lado as restrições, não damos importância a algum cansaço que nos vem da presença excessiva da invasora. Acreditamos que começámos a ver o mundo com outros olhos, mais espertos, mais optimistas. Acabamos por ajudar alegremente a invasora a invadir-nos. Que bom não termos de nos suportar a nós mesmos apenas na nossa solidão, devíamos estar fartos de tanta independência de movimentos. O prazer circula, deve ter efeitos soporíficos, anestesiantes, no cérebro.

Quando o filme acaba e as luzes se acendem de novo na sala é que sabemos que de facto se tratou de uma invasão. Pouco a pouco começamos a dar-nos conta das infracções que fizemos à nossa maneira de ser, de tudo o que sacrificámos progressivamente à invasora. Deixámos de ser quem éramos, tornámo-nos outra pessoa, que cobardia e que fraqueza de carácter as nossas. O trabalho e a pena que dá, depois da separação, limpar os vestígios da presença de um corpo estranho na nossa existência é enorme. É de facto como libertar-se de uma droga, do vício do tabaco, do vício do álcool.

O amor é uma religião, uma doença, um vício. Como Deus, a loucura, o álcool ou o tabaco. A vida é monótona e as perspectivas de durarmos são escassas. Encontrámos essa maneira de nos irmos consolando ou iludindo. E torturando.

(Caderno Azul)

Sunday, February 17, 2008

Sem paixão...


Meti-me no carro, fui conduzindo ao longo da costa do Pacífico, para o Sul. A tarde estava bonita. À ida fui ouvindo os quartetos 15 e 16 de Beethoven, à volta os três quartetos opus 54 de Haydn. Tenho pena de morrer um dia porque não posso continuar a ouvir esta música nem a saber da existência das pessoas de quem gostei. Já percebi: sem paixão, sem a consciência, mesmo desajustada, de termos um destino, a vida é árida, não tem poesia nem sentido. A loucura, paixão incurável, deve saber isso.

Folhas mortas



A imagem da Betty vai-se esbatendo na minha memória com os meses que passam. Ofereci as obras dela, umas gravuras que ela cá deixou, a um armazém de caridade: tudo o que lhe saiu das mãos enquanto esteve comigo afinal nasceu do disfarce,da dissimulação, da mentira. Escapou-me uma aguarela que ficou ali na estante, deixá-la estar. Custa-me aceitar que durante sete anos não se tenha criado entre essa rapariga e eu nada que valha a pena recordar com respeito, que mereça consideração. Ela não percebeu nem recebeu nada, podia ter vivido com o porteiro do nosso prédio, um bêbedo distraído, ia dar no mesmo. Não terá lampejos de remorso algumas manhãs quando acorda, antes de voltar a enredar-se nos seus medos e confusões, nas suas fantasias? Não haverá entendimento naquele cérebro deturpado? Tudo entre nós foi em vão? Estúpidas garridices de miúda tola, irresponsável, incapaz de sentimentos. Bate os braços e voa, ó borboleta negra, fantasma, avestruz. Perda de tempo, precioso tempo que eu podia ter dedicado a alguém que soubesse e quisesse durar e construir. Foram sete anos e muitas pessoas deitados fora, como se eu fosse rico de tempo de vida e de relações. É a realidade, não adianta iludir-se. Ela não quis ou não soube ser senão uma sombra vaga e banal entre muitas outras que atravessaram a minha vida. Pouca ambição ou incapacidade. Não mereci mais. Podia, nesse tempo, ter conhecido alguém que me amasse, não é?

(Caderno Azul)

Saturday, February 16, 2008

About love


(...)

"We were a great crowd to see Anna Alexyevna off. When she had said good-bye to her husband and her children and there was only a minute left before the third bell, I ran into her compartment to put a basket, which she had almost forgotten, on the rack, and I had to say good-bye. When our eyes met in the compartment our spiritual fortitude deserted us both; I took her in my arms, she pressed her face to my breast, and tears flowed from her eyes. Kissing her face, her shoulders, her hands wet with tears -- oh, how unhappy we were! -- I confessed my love for her, and with a burning pain in my heart I realized how unnecessary, how petty, and how deceptive all that had hindered us from loving was. I understood that when you love you must either, in your reasonings about that love, start from what is highest, from what is more important than happiness or unhappiness, sin or virtue in their accepted meaning, or you must not reason at all.
"I kissed her for the last time, pressed her hand, and parted for ever. The train had already started. I went into the next compartment -- it was empty -- and until I reached the next station I sat there crying. Then I walked home to Sofino. . ."

(...)

Anton Chekhov

Thursday, February 14, 2008

Monday, February 11, 2008

Sunday, February 10, 2008

Nicotina

Deixar de fumar é fácil. Basta imaginar que o desejo de nicotina é um desejo físico e espiritual de absoluto que nunca será satisfeito - evidentemente, pois não há produto nenhum conhecido que possa satisfazer plenamente necessidades tão intensas. Um cigarro dá-nos a ilusão passageira da satisfação. Mas em breve é preciso recomeçar. E quanto mais cigarros se fumam, mais se afasta o absoluto. Digamos que é um pouco como o amor. Há casos em que se passa directamente da insatisfação ao enjoo.

Friday, February 8, 2008

Quís pró quós


Pouco tempo depois de nos separarmos perguntei à Betty por que razão deixara de dar notícias e ela respondeu-me muito determinada e séria que não queria alimentar o risco de um "reatamento" da nossa relação. Dormiste na minha cama e no meu sofá, comeste o meu pão e bebeste o meu vinho, conduziste o meu carro e deste guarida ao meu esperma - e agora não queres falar comigo e referes-te à nossa relação como a um "atamento"? Pergunta retórica minha, pois eu tinha percebido: as relações ditas amorosas, para pessoas imaturas ou deficientemente educadas, são muito pouco amorosas. Mais tarde, tendo a Betty surgido no meu caminho quase por acaso numa rua da nossa cidade, perguntei-lhe: tomamos um café? Ela: não tenho nada para te dizer. Wittgenstein tinha razão: ao convidá-la para tomar um café eu estava a querer perniciosamente que ela tivesse ainda alguma coisa a conversar comigo; enganei-me, não tinha. Coitada da Betty. Pobre de mim.


(Caderno Azul)

Wednesday, February 6, 2008

Why?


Why?



Why do we waste our time trying to understand what happened... instead of just letting it go and concentrate on the present and on the future? I know why. When you invest your time and energy in some project, or in someone's friendship and love, and things fail to satisfy you, you feel guilty - you are unhappy even when others, not you, are responsible for the disaster. If we had more time, if we didn't believe that our life is supposed to have some meaning and develop under our own control, maybe we would more easily forget our sins.

Tuesday, February 5, 2008

Monday, February 4, 2008

Ar puro


Pus de lado há muito tempo Aperture e acabo de renunciar ao Adobe Lightroom (desnecessariamente minucioso, talvez, além de lento e pesadão). Continuo com o Photopshop e acho
o Nikon Capture NX útil e interessante, apesar de um tanto rudimentar ainda na gestão das janelas.

Insectos

Há pessoas que têm um prazer sádico em observar a morte lenta de um insecto, em contemplar o sofrimento de um animal indefeso. A mim desgosta-me perder tempo e energias a assistir às manobras ambíguas de quem me quer manipular, de quem me julga cego e se crê dotado de um poder de sedução infalível. Não me imcomoda que me tomem por estúpido, mas o espectáculo da falta de escrúpulos e de carácter é desagradável (mesmo a posteriori) e vem reforçar desnecessariamente o meu lado pessimista. Perdoar ou ignorar não apaga a existência da ofensa.

Sunday, February 3, 2008

Os olhos

One can terrify with one's eyes, not with one's ear or nose.

Wittgenstein, Zettel, University of California
Press, Berkeley and Los Angeles, 1967