Monday, March 31, 2008

Karl Krauss

As long as you have inner covering, losses in the external world have nothing on you.

You don't even live once.

Reading one of this mythological-political treatises, you learn to hate culture more than it is absolutely necessary.

Not forgiving the manner means not forgiving the matter.

The old science denied recognition to the adult sex drive. The new one asserts that babies at stool already feel lust. The old model was better. At least the parties involved were capable of specific assertions to the contrary.

Sentimental irony is a dog that barks at the moon as he pisses on graves.

So many people write because they lack the character not to.

Prostitutes and journalists share the ability to numb themselves. Prostitues have the added ability not to dumb themselves.

The public will not swallow everything. It rejects immoral writing with outrage as soon as it notices its cultural intent.

Dicta and Contradicta,
Translated from the German by Jonathan
McVity, University of Illinois Press, Urbana and Chicago, 2001

Death Valley










Friday, March 28, 2008

Christopher Boe

Vi Reconstruction há tempos ("Caméra d'Or" em Cannes, 2003) e agora Allegro (2005). Tentarei encontrar as três curtas metragens "Obsession," "Virginity" e "Anxiety." Gosto de histórias complicadas quando a complicação, nada gratuita, tenta captar a complexidade da existência - sem a dar por resolvida simplificando os sentimentos. Gosto da arte narrativa de Boe. Acho que ele, como Lars von Trier, são grandes cineastas contemporâneos. Eu, se tivesse nascido noutro país, provavelmente seria cineasta, romancista ou antropólogo. Estava a ver Allegro e a pensar que a minha maneira de falar da minha relação com a Betty tinha sentido, mesmo se ela não entendeu nem entenderá nunca nada do que se passou. Mas só entende quem tem interesse em entender. Eu entendi - e sei que ainda tenho muito que aprender, se me apetecer, porque nada nos acontece em vão. Isso basta. Não é que a pessoa da Betty tenha ainda qualquer interesse para mim enquanto tal. A Betty é um exemplar de pessoa como tantas outras que eu nunca conheci mas que na verdade conheci através dela. A Betty é, além disso, uma página cinzenta da minha existência, um erro absurdo, a prova irrefutável da minha falibilidade, da minha mediocridade, da minha pequenez. Não soube ou não pude amá-la. A Betty foi "a queda", o pecado de que não nos poderemos nunca redimir. A Betty é a prova da minha fragilidade de ser imperfeito. Deve ser por isso que lhe tenho dado tanta importância. Não adianta, eu sei: o amor é uma ilusão, uma teimosia, uma perda de tempo, uma ficção que nós vamos construindo, uma narrativa tão insensata como todas as outras. Uma relação séria entre duas pessoas reais é outra coisa. Não tem nada a ver. Há ficções sublimes e ficções tolas. E ambas merecem ser decifradas, digo-me eu com humildade apesar dos remorsos. Haver quem obedeça às regras convencionais da intriga amorosa como os maus romancistas e os maus poetas que se limitam a produzir textos de imitação do que eles pensam que é a literatura será surpreendente? Posso dizer que a Betty é uma tonta, mas os problemas que ela tem para resolver, sejam eles quais forem, são dignos de atenção, pois ninguém é tão insignificante como parece. As questões que a Betty tem a resolver são tão merecedoras de atenção, por fúteis que possam parecer, como as de todas as pessoas que nós julgamos, com despropositada arrogância, do cimo da nossa distracção, banais e desinteressantes. Eu não fui menos tonto do que ela ao acreditar, através da nossa relação, no amor. Creio que me seduziu a sua juventude, uma inocência ainda por corromper, havia ali a promessa de uma relação amorosa. Feitas as contas agora, podia ter-me apaixonado por uma criada de servir de um romance do Lobo Antunes, se é que raparigas assim, rudes e pejorativamente simples, ainda existem ou alguma vez existiram, e o resultado teria sido o mesmo, para humilhação do meu orgulho e vergonha minha. Nós desperdiçamos a vida e cremo-nos inteligentes. E depois da separação, durante algum tempo, enquanto ainda não voltámos à realidade, continuamos a acreditar que o amor que falhou merecia não ter falhado. É o renascer da esperança, a reabilitação do passado. A vaca já anda a pastar noutro prado com os olhos no campino, os chocalhos a badalar alegremente noutras planícies, e nós ainda metafisicamente saudosos da ausente. Há remissão para tanta estupidez? Talvez haja. Mas a quase totalidade da literatura actual só sabe ocupar-se de problemas já resolvidos, só sabe repetir o que nós já sabemos ou divagar de maneira interessante e literária sobre os tópicos considerados relevantes . Há que procurar ajuda e um caminho em si próprio, continuando a correr riscos e a cometer erros. Escrever bem, só por si, não nos leva muito longe, é como ser sepultado numa urna de madeira luxuosa em vez de num caixão de pinho. À morte tanto se lhe dá. Sim, é isso, a literatura é uma actividade sem consequências, insignificante. Afinal é só uma maneira de falar.
(Caderno Azul)

Wednesday, March 26, 2008

Saturday, March 15, 2008

Suspeitos



Fui ao aeroporto buscar a minha filha. O avião chegou atrasado. Era tarde, passava da uma da manhã, estava eu cá fora a distrair-me com a máquina fotográfica de bolso: fotografias, filmes curtos e péssimos de carros e pessoas a passar (o meu primeiro video anda a preparar-se). Devia ter percebido que dava nas vistas, pensei nisso mas não me preocupei. A dado momento veio o polícia, estava intrigado, perguntou-me porque é que eu estava a tirar fotografias. Não fiquei nada surpreendido, a dizer a verdade eu até estava espantado que tivessem passado outros polícias antes dele sem me prestar atenção - e até os tinha filmado. I am bored, disse-lhe eu, o avião da minha filha atrasou-se mais de uma hora, por isso distraio-me a filmar e tirar fotografias. Inútil entrar em pormenores. Claro que a desconfiança anda por todo o lado e o polícia reagiu como tinha de reagir. Conversámos, ele também gosta de tirar fotografias. Aconselhou-me a meter a máquina fotográfica no bolso, o que fiz amavelmente e sem esforço. O avião entretanto chegou, despedi-me e lá fui. Somos todos suspeitos aos olhos dos outros de podermos ser o terrorista que nós mesmos receamos.

Sunday, March 9, 2008

The power of love


Será que isto me ajuda a compreender alguma coisa?

It became clear to me that I changed radically every time a great love gained power over me. This is because of the fact that a true love affair makes me similar to the woman I love. This transformation into a similar being was most prominent in my relationship with Asja.

Walter Benjamin, citado por Momme Bridersen in Walter Benjamin, A Biography, translated by Malcolm R. Green and Ingrida Ligers, edited by Martina Dervis, Verso, London and New York, 1996

Friday, March 7, 2008

Misoginia...


Schopenhauer era misógino. Atribuía às mulheres em geral atributos que são defeitos apenas de algumas. Além disso nem todas as formas de dissimulação se equivalem: algumas são inocentes e até podem inspirar ternura, outras são feias e têm consequências trágicas.

A completely truthful woman who does not practice dissimulation is perhaps an impossibility, which is why women see through the dissimulation of others so easily it is inadvisable to attempt it with them.

Arthur Schopenhauer

(Caderno Azul)

Wednesday, March 5, 2008

Afectos, paixões


Recordar que e. e. cummings percebeu que a função do amor é criar "unknowness". E que Spinoza já o tinha proclamado muito antes, quando escreveu, lucidamente, que:

"Um afecto que é uma paixão deixa de ser paixão assim que nos formamos uma ideia clara e distinta dele."

"Não há afecto do corpo acerca do qual não se possa formar um conceito claro e distinto."

Indirectamente, e com uma distinção ética, Spinoza diz o mesmo e outras coisas noutro passo:

"Um amor puramente sensual, isto é, um desejo de procriar que nasça de aparências exteriores, e de maneira absoluta todo o amor que não nasça num espírito livre, facilmente se tansforma em ódio - excepto (o que é pior) se for uma espécie de loucura. E então é mais encorajado pela discórdia do que pela harmonia."

E para me dar razão e me divertir agora (não me apetece explicar porquê):

"Se a mente foi uma vez afectada por dois afectos ao mesmo tempo, então, depois, quando é afectada por um deles, é também afectada pelo outro."

(Caderno Azul)

Monday, March 3, 2008

Dasein, Das Sein, etc.


Em Finisterra, de Carlos de Oliveira, anda um personagem à procura da fórmula da “porcelana etérea” e os outros à procura da realidade perdida. Strindberg viveu obcecado com a alquimia, queria transformar, se a memória não me trai, o carvão em oiro (mas o que ele perseguia de facto não se sabe exactamente). Holderlin canta, festeja num poema, creio que ilusoriamente, o regresso acertado e feliz à terra das origens. Heidegger, se o entendi, identificou a plenitude na existência com a capacidade de “habitar o mundo como poeta”. Sugestionado por estas inquietações, enquanto me passeava a pé pelo centro da cidade eu ia-me interrogando: existirá aquilo que eles, aqueles que referi, procuravam tão afanosamente? Ou a condenação da metafísica levada a cabo por Derrida pretende denunciar que o que nos faz andar de um lado para o outro são sentidos que não existem senão na nossa imaginação ao serviço da alma perplexa e insatisfeita com o seu destino? Não soube que responder. Em que consiste a “sapaticidade” de um sapato, o seu Das Sein ou o seu Dasein, exactamente? E a “literariedade” da literatura, aquilo que a faz ser literatura e a distingue do uso da linguagem que não é considerado literário, em que consiste exactamente se nós não acreditarmos que consiste no estilo, na rima, na solenidade, no uso de palavras que se usam pouco ou menos, na metáfora ou na metonímia exactamente, no exagero ficcional e na tontice poética? Graves questões, cocei-me a cabeça. Daí, sem dar conta, passei a outra coisa, pus-me a pensar no insolúvel problema do amor: existirá realmente como entidade profunda, independente de tudo o que não é amor, independente da capacidade de amar e de ser amado dos indivíduos, independente dos nossos erros e ilusões, da nossa imaginação, das traições, mentiras, mal-entendidos? Por outras palavras, existirá a “amoricidade” do amor como se pode pensar que existe a “sapaticidade” do sapato e a “literariedade” da literatura? Ou trata-se de um enorme mal-entendido e o amor (e a literatura) é, mais do que tudo o resto que existe, aquilo que deve a sua existência a tudo o que não é, nem de perto nem de longe, o amor propriamente dito (literatura propriamente dita)? Não tenho uma resposta clara para a pergunta. Mas pensei no Deleuze dos Mil "Plateaux". Também podemos imaginar, para adiar a solução, que pode ser uma aporia.

Saturday, March 1, 2008

Pressentimento


As pessoas não deixaram de me interessar, mas muitas vezes, quando as tenho na frente ou ao meu lado, não sei que fazer delas. Nem elas provavelmente o que fazer de mim. Talvez eu entenda sem esforço a maior parte das vezes o que se passa e saiba o que é necessário dizer e fazer. Mas demorou muito tempo até eu chegar aqui e poder perceber. Os outros ainda estão muito atrasados no entendimento da vida e da morte e eu não quero ou não sei esperar por eles, falta-me a paciência e falta-me o tempo. Apetece-me então cortar todos os contactos com as pessoas e ir viver para um lugar distante onde ninguém tenha a mínima ideia de quem eu sou, nem o queira saber, nem queira ter nada a ver comigo. Talvez me aproximasse assim da verdade e sentisse sem entristecer o que é existir, o que é ser, o que é estar cá de passagem na terra. Talvez o pensamento da morte nos ajude a entender a estranheza da nossa existência. Talvez separados da ilusão dos sentimentos que só aparentemente nos ligam aos outros, numa solidão sem esperanças nem remorsos, nos sintamos vivos e felizes, whatever that may be.

(Caderno Azul)