Monday, May 26, 2008

O verdadeiro e o falso

O que é verdadeiro
contém em si o poder
da emoção. Não são
precisos os artifícios,
o que é verdadeiro
encontrou as suas
palavras e o seu
estilo.

Às vezes enganamo-nos,
o que é falso parece
verdadeiro e nós sentimos
erradamente. Não estou
a falar da poesia nem
da arte em geral, a questão
da sinceridade da arte
não me interessa neste
momento. E o que é
sentir erradamente?
Arrependo-me agora
de ter visto no brilho
dos teus olhos o amor
que não sentias por mim?
Foi há tanto tempo.
Tu própria não sabias
o que era verdade e
o que era mentira,
embora quisesses
que eu lesse no teu
rosto o que tu pensavas
que já não podia
estar no teu coração.
Não digo estas
coisas para te
desculpar ou
tornar mais suave
a minha pena.
Digo o que sinto,
exactamente.
Se o que eu sinto
está de novo errado
é porque a minha
vocação para a dor
e a minha compaixão
são inesgotáveis.

Não tenho remorsos
de nada. E tenho
remorsos de tudo.
Porque desperdicei
as emoções a sentir
sem razão o que senti?
Estava iludido, para
mim tu ainda eras
aquela que me
amava. Em vez
de perder o meu
tempo a acreditar
no que era falso,
a deixar o que era falso
impressionar o meu
espírito e o meu
coração com as
emoções do que era
verdadeiro, podia ter
tido a sorte de estar
noutro lugar a sentir
as coisas certas. O
que é sentir e o que
são as coisas certas?
Não haveria razão
para remorsos,
eu seria o único
culpado de o amor
ter ficado aquém
das promessas que
nos tinha feito.
Deve ser isso que eu
estou a tentar dizer.

O verdadeiro e o falso,
diria Alberto Caeiro,
são ambos a verdade
dos sentimentos, ambos
são o retrato fiel
daquilo que é a nossa
existência. Tomar
o falso pelo verdadeiro
também enriquece
a nossa experiência
da realidade. Olho
para trás e recordo-me
das cenas que pareciam
ser uma coisa e afinal
eram outra bem
diferente, eram
uma coisa que eu
ignorava. Não tenho
pena de mim nem de
ti por me ter deixado
enganar. Senti o que
era preciso que eu
sentisse nesse momento
que não é este momento.
Se eu tivesse sido
perspicaz e soubesse
distinguir a mentira
da verdade só por
olhar para o teu rosto
ou ouvir as palavras
que tu dizias seria
outra pessoa, não a
pessoa que de facto
sou. Teria interrompido
a narrativa, interferia
bruscamente, feroz,
na ficção da tua
existência e da minha,
talvez gritasse: eu sei
o que é verdade e
o que é mentira,
agora podes ir-te
embora e deixar-me
só. Em vez disso, em
vez de ser o herói
inteligente dessa história
em que tu e eu estávamos
por engano, senti as
emoções que provocam
em nós as coisas
que são verdadeiras.
O teu rosto era mentira,
tudo que tu dizias
eram mentiras
preparadas de antemão,
mas o que eu sentia
era verdadeiro
apesar de saber
e não o dizer
que tu mentias.

Sunday, May 25, 2008

Cegueira

As coisas estão a acontecer e nós, a quem as coisas acontecem, pensamos que sabemos o que está a acontecer. Mas a história e o sentido da história só posteriormente se hão-de revelar, é preciso que passe muito tempo para entendermos. O que parecia oiro ou prata afinal era apenas barro, mas nós não nos demos conta da gravidade do erro. A cegueira que nos caracteriza é digna de lástima.

O outro, aqui ao lado, preocupa-se com a arte. Mas quando tenta escrever um poema repete o que já tinha dito antes. Dá-se conta disso? Ter estilo é uma maldição, as palavras que se juntam estão cansadas umas das outras, já não se podem ver, ninguém as pode ver. Numa vida inteira quantas vezes falámos verdade, quantas vezes dissemos alguma coisa que tivesse importância?

Lamentar que se tivéssemos uma segunda oportunidade nas circunstâncias que desperdiçámos e que por isso evocamos com grande dor interior pode ser compreensível. Podíamos falhar de novo, pela segunda vez, e então só teríamos de queixar-nos de nós mesmos, sem nos desculparmos com outras razões. Mas falar assim é pressupor que não somos responsáveis pelo desperdício da primeira oportunidade. Percorro a cidade à procura de uma mulher com quem falei uma vez e a quem não dei a atenção que ela merecia, mas não a encontro, nunca mais a verei. Às vezes penso: ela não sabe a importância que eu lhe estou a dar, a importância que podia ter na minha vida, mas se soubesse talvez pensasse em mim também, talvez voltasse ao lugar onde nos encontrámos. Ontem vi o filme que fizeram de Seda, o livro do italiano, e percebi melhor o que é o amor verdadeiro.

Thursday, May 15, 2008

Presentes envenenados

Quem dá a vida também dá a morte, mas não se costuma realçar esse aspecto da questão. Se a cronologia é respeitada, àquele que deu a vida é poupada a dor de ver morrer adulta a criança que fez nascer. Mas a ausência dos pais no acontecimento da morte dos filhos não os desculpa de ter agido de maneira irresponsável. Pode-se valorizar a dor, o sofrimento. Mas não estou seguro de que, informados de antemão da natureza do presente que nos é oferecido, o aceitássemos. Eu sei, esta conversa é absurda, porque para poder ter uma opinião sobre o assunto teríamos de estar já dentro da vida. Mas pus-me a pensar estas coisas esta tarde num momento de tédio.

(Caderno Azul)

Monday, May 12, 2008

Perspectivas

Para a entender eu tinha de adoptar o seu ponto de vista sobre o que se estava a passar e esquecer o meu (foi isso que ela sempre quis, sem grande consistência, de maneira tão atabalhoada, incoerente e vaga como hoje se me revela o seu destino). É qualquer coisa que certamente conseguimos fazer e fazemos, com algum esforço e boa vontade: adoptar o ponto de vista da outra pessoa acerca de um "episódio" que vivemos juntos. Mas a nossa capacidade de adoptar uma perspectiva alheia sobre seja o que for, e sobretudo acerca de acontecimentos que nos dizem directamente respeito, é limitada. Quando me era difícil ou impossível compreendê-la - ela mentia constantemente, mas não queria ir-se embora; se interrompíamos as nossas relações, instalava-se com o novo amante em casa dos primos ou dos amigos e depois, para retribuir, instalava os primos e os amigos em minha casa, aonde tinha querido voltar; é apenas um exemplo - eu recorria à lógica do senso comum para não ficar confuso. Mas a lógica do senso comum era muito menos flexivel, infinitamente menos tolerante do que a minha. O respeito pela lógica do senso comum ajuda-nos, no dia a dia, a evitar aborrecimentos inúteis, é certo. Mas eu não ia renunciar nem nunca renunciarei à minha visão do mundo, que me deu tanto trabalho a ir construindo, para me submeter à maneira de pensar e de avaliar do senso comum. Era o que me faltava. Por isso acabei por regressar, para tentar compreendê-la, a mim mesmo. E os problemas recomeçaram. De vez em quando desfila no meu espírito, brevemente, uma narrativa que seria apenas a da sua perspectiva, a da sua lógica, a do seu destino. Mas esses vislumbres de uma história diferente da que eu tenho para contar não a tornam a ela mais amável, mais interessante ou mais digna de compreensão ou de perdão. Antes pelo contrário, a personagem dessa narrativa aparece-me como desprezível e o meu próprio desempenho como comparsa de história tão burlesca está longe de me engrandecer aos meus próprios olhos. Penso então: sem te dares conta disso desperdiçaste anos importantes da tua vida a ocupar-te de uma pessoa que não o merecia e daquilo que sempre te pareceu indício de uma condição humana inferior; foste medíocre.


(Caderno Azul)

Friday, May 9, 2008

Os deuses

Já compreendi: os deuses, ciosos do seu poder, criaram-nos mortais porque desse modo o universo nunca deixa de pertencer-lhes só a eles. Renovam-se os rostos, os corpos, as cidades, os amores. E eles, lá em cima, atentos, voyeurs supremos, deleitam-se a contemplar a beleza sempre nova e inesperada da nossa juventude. Têm alguma tolerância e paciência para observar do canto do olho entediado o nosso envelhecimento, que os satisfaz e ao mesmo tempo lhes repugna. Quando enfim morremos, eles suspiram de alívio. Se a beleza da nossa juventude irrequieta e irreverente resplandece em traços e qualidades nunca vistos antes, eles não resistem a chamar-nos para junto deles antecipadamente. Se por outras razões, que escapam ao nosso entendimento, a nossa existência os incomoda, também não têm escrúpulos em nos fazer morrer jovens. Somos matéria, barro, carne que só existe para satisfazer a obsessão com a beleza que os atormenta e delicia. Séculos e séculos de queixas, acusações e lamentos nossos deixam-nos indiferentes: eles são os deuses e não têm que nos dar explicações sobre a maneira como organizaram os seus prazeres.


(Caderno Azul)

Imbecil

Sou um imbecil. Saí como uma rapariga, levei-a a um bom restaurante, jantámos, tudo a correr magnificamente. Estava combinado há uma semana e ela estava mais linda do que nunca. Conhecemo-nos há uns três anos, mas nunca aconteceu nada entre nós. Ela não é bem o meu tipo, mas é bonita e inteligente. Depois de jantar, sentámo-nos lá fora, num banco da praceta, a fumar um cigarro. Estava uma noite fresca mas agradável. Peguei-lhe na mão, ela tinha as mãos frias e eu disse: mãos frias, coração quente. Ela riu-se e disse: tu tens as mãos quentes. Coração frio, respondi eu a rir. As nossas mãos ficaram presas uma na outra, ela acariciou-me levemente. Não dei importância particular ao gesto dela, nem estava seguro de que ela me tivesse acariciado a mão, eu é que tinha a mão na dela e a acariciava. Olhei para ela e apeteceu-me vagamente beijá-la. Em vez disso comecei a falar das relações entre homens e mulheres e de como é difícil perceber o que é que as pessoas esperam de nós. Esta cena já se repetiu umas três vezes esta semana. E no passado, quantas vezes? Receio ser brusco, não tenho confiança em mim, não quero ser ridículo nem ter aborrecimentos? Ando a treinar-me para o grande amor? Sou um imbecil.


(Caderno Verde)

Wednesday, May 7, 2008

Montes no deserto


Medo da intimidade (II)

7. Nada é nunca tão claro como parece. Honestamente: o nosso desentendimento deixou-me triste e com vontade de obter respostas para algumas perguntas que me foram surgindo. Admito que ao duvidar de ti, ao não acreditar em ti , eu agi de maneira menos correcta. Comportei-me de maneira infantil, primitiva, selvagem e estúpida. Mas as nossas relações não são claras, há muita coisa que eu não entendo. E nessas circunstâncias, já se sabe, as dúvidas podem ser mais fortes do que a nossa vontade de confiar. Ainda não te conheço o suficiente e tu não tens feito muito para facilitar uma aproximação mais rápida, para eliminar uma ambiguidade que pode ser perturbadora quando ainda não estamos seguro da relação que iniciámos com uma pessoa. Essa insegurança a teu respeito – quem és tu exactamente, o que é que tu esperas ou queres de mim ? – levou-me a julgar-te mal. Mas depois de tu teres telefonado, tudo se compôs e eu fiquei-te grato. A tua voz de repente ficou mais clara, foi fácil entender-te. Tu estavas concentrada, senti que o que tinhas a dizer-me era importante e necessitava de ser dito. E convenceste-me, reconheço. Nem sempre falas assim, com segurança, firmemente. Por vezes, quando me telefonas, pareces nervosa ou receosa, eu sinto que não estás à vontade. Desta vez foi diferente. Repreendeste-me como nunca ninguém ousou repreender-me e eu interpretei a tua atitude como uma prova de que as nossas relações são importantes para ti. Foi bom, eu fiquei contente. O pior foi a minha reacção, mais tarde, quando voltei a pensar no assunto. Por que razão é que ela se permite pensar e dizer que agi incorrectamente? Quem lhe deu o direito de me julgar? Quem é que ela pensa que é? O que é que eu já recebi dela, o que é que ela me deu até agora, o que é que ela já fez para evitar que eu duvide? E então pensei que podia perfeitamente continuar a viver sem ti. Não era o que eu queria, mas podia fazê-lo. Eu sei o que é a solidão, a frustração e os aborrecimentos que nascem das relações não me são desconhecidos. E posso viver com isso, já vivi antes. Mas uma vez mais ficava pelo caminho qualquer coisa que para mim se tornara importante. E não me apetecia nada perder-te. Eu quero que tu me ames, eu quero amar-te, Laura. Talvez eu espere mais das pessoas e de ti do que devia e me arrisque permanentemente, por essa razão, a ser remetido para o vazio de uma existência árida e desinteressante. Mas eu luto, eu não me conformo. E uma vez que decidi que tu me interessavas, não estava disposto a renunciar. Não há na minha vida muitas relações de que eu tenha guardado uma memória muito forte. Amei seriamente duas mulheres, provavelmente três. Devo ter amado outras, mas as circunstâncias não permitiram que a relação com elas se tenha desenvolvido o que era necessário para que tivessem ficado grandes recordações. Provavelmente tive culpas nisso. Ou foram elas que não acreditaram, não sei. Ter-te conhecido parece-me que fez renascer a esperança.

8. Há outra coisa que tenho de dizer antes de terminar esta carta: os joguinhos que alimentam algumas relações e que provavelmente divertem outras pessoas, a mim não me interessam, não tenho paciência para parvoíces. Eu sou sincero, digo o que tenho a dizer, faço o que tenho a fazer, as manipulações deliberadas aborrecem-me. Por isso, embora correndo o risco de descobrir mais tarde que me enganei, sou quase sempre muito directo, digo o que sinto sem recear as consequências. Entrego-me, seguro de mim e da minha força, sem temer a desilusão ou a frustração. Percebo depressa de mais o que quero? É possível. Tanta certeza da minha parte assusta a outra pessoa, ainda hesitante, ainda a precisar de tempo para pensar e compreender o que se passa? Não é impossível, admito-o sem esforço. Mas eu sou assim. Há dias, quando conversávamos no café, confessei-te que se há outro homem interessado numa mulher que começou a interessar-me e eu não estou ainda suficientemente envolvido na relação, prefiro recuar, afasto-me, deixo correr. Não luto, não quero. Se a mulher que me interessa me procurar, me preferir, fico contente, mas eu não lutei por isso, sobretudo não entrei em despiques com outro homem por causa dela. Acho os despiques por causa de uma mulher infantis, ridículos, degradantes. Não vale a pena forçar as coisas. Se perder, aceito ter perdido, digo para mi mesmo “essa mulher não era para mim”. E esqueço-me, fico-me por aí. O ciúme, a competição, o desejo de ganhar ou de não perder falsificam este tipo de situações. Eu não quero amar uma mulher por causa dos obstáculos que dificultam as nossas relações, não quero amar uma mulher só porque há outro homem interessado nela. Quem me garante que mais tarde, tendo a memória desse episódio ficado a fermentar no seu espírito, ela não vai ceder à curiosidade de ter uma relação com ele? É melhor deixá-la ir. A frustração de nos ter preterido há-de um dia trazê-la de volta e se nós estivermos disponíveis nem tudo se terá perdido. É claro que a relação, se então acontecer, não terá nunca a importância que teria tido se ela tivesse ficado logo connosco. Mas nem todos os amores têm de ser grandiosos, a realidade é o que é.

9. Já percebi que uma das razões, provavelmente a mais importante, que nos leva a procurar gratificações sexuais e afectivas em relações paralelas à relação sólida e séria que temos com uma pessoa é, surpreendentemente, o nosso medo da intimidade. Um medo monstruoso, inconsciente, talvez irracional e incompreendido, da intimidade. Se sentimos que estamos a ficar envolvidos com a pessoa que amamos de maneira muito profunda, receamos perder a nossa identidade. Deixar esfumar-se os contornos da nossa personalidade, do nosso precioso eu, da nossa individualidade aterroriza-nos. A fuga, a escapadela noutra relação é uma forma de protecção contra a desagregação do eu que tem lugar nas relações amorosas intensas. E por essa razão, que pode parecer contraditória e incompreensível, preferimos afastar-nos da pessoa que amamos acima de todas as outras. Uma relação paralela, irresponsável, sem compromissos de seriedade, divertida e superficial, é capaz de ser também um bom antídoto contra o medo da morte que invade os amores muito intensos e profundos, tornando-os trágicos. Parece absurdo, mas não é, pois o amor a dado momento pode de facto transformar-se numa ameaça de castração. Castração é uma palavra da psicanálise, mas neste caso significa simplesmente dissolução da personalidade, desaparecimento do eu que nos individualiza. Pode haver outras explicações para a infidelidade amorosa e acredito que serão válidas. Por experiência própria, esta parece-me a mais convincente.

10. Receio que tudo o que acabo de escrever te pareça muito teórico. Não é fácil exprimir-se, organizar os pensamentos, sem dar essa impressão. Mas podemos voltar ao assunto quando nos encontrarmos, se tu quiseres.

Monday, May 5, 2008

Medo da intimidade



For all true power and beauty of the body, all sureness
and boldness in combat, all authenticity and inventiveness
of the understanding, are grounded in the spirit and rise
or fall only through the power or impotence of the spirit.
The spirit is the sustaining, dominating principle, the first
and the last, not merely an indispensable third factor.


Heidegger, An Introduction to Methaphysics, translated
by Ralph Manheim, Yale University Press, 1959



1. Por que razão traímos aqueles que amamos? Porque os deixamos em casa e saímos depois de jantar, por exemplo, para irmos abandonar-nos e consolar-nos nos braços e nos lábios de outra pessoa, meter-nos cama com ela? São coisas que eu fiz. E quando regressava a casa beijava a minha mulher, que estava a dormir, com ternura e amor. Ela não aceitaria tal carinho e tal amor, é compreensível, se soubesse que eles tinham a sua origem na minha relação amorosa com outra mulher. Eu amava a outra mulher? Era um amor de outra natureza. Eu gostava de passar regularmente algum tempo com ela, de certo modo amava-a, hoje ainda guardo boas recordações dela e da nossa relação. Magoei alguém ao proceder assim? Magoei. Não a minha mulher, que ignorava o que se passava, mas a rapariga que me amava e sempre se queixou de não ser a pessoa mais importante na minha vida.
2. Por que razão agimos assim? Eu era bastante jovem. Era difícil não ceder à tentação de amar outras mulheres. Não foram essas digressões, porém, que destruíram o meu casamento. O que destruiu o meu casamento foi eu ter começado a suspeitar da fidelidade da Andreia, a minha mulher. Creio que se essa dúvida não tivesse bruscamente tornado as nossas relações e a minha vida um inferno, nunca nos teríamos divorciado. Não lamento ter estado casado com a Andreia. Há tempos perguntei-lhe se alguma vez se arrependera de se ter casado comigo e ela respondeu: não; e também não estou arrependida de me ter divorciado de ti. Somos bons amigos, creio que seremos para sempre da família um do outro apesar de nunca mais terem existido entre nós relações amorosas.
3. Deixa-me dizer-te uma coisa, Laura: no amor, o mais importante é a amizade. O amor às vezes é doido, porta-se mal, não tem respeito pelas pessoas, por aquele ou aquela que é amado intensamente e que será amado para sempre. A amizade, se existe e é profunda, inabalável, protege aqueles que se amam da dor e da tragédia, do desastre e das ofensas provocadas pela falta de juízo que às vezes nos assalta. A amizade, se nem sempre permite evitar o erro, salva o amor da destruição definitiva. O amor, se é verdadeiro, nunca poderá ser destruído, nem sequer pela separação. Mas isto só é verdade se a amizade e o respeito forem componentes indestrutíveis do amor propriamente dito, daquilo a que nós chamamos o amor. Por isso, para mim, quando nós amamos verdadeiramente a pessoa com quem vivemos pode não ter muita importância o desejo sexual por outra pessoa. Pode até ser bom que desejemos outras pessoas além daquela que amamos. Dar e receber ternura, a cumplicidade das confidências e da alegria que nasce dos corpos que se desejam tem por força de ser condenável e evitável? Eu não acho. O amor físico não é para mim a forma de amor mais perfeita, o desejo que é sobretudo desejo do corpo é importante mas é muito imperfeito. Por isso dura pouco tempo, em geral. Mas onde iria o puro amor físico buscar inspiração se só vê e só conhece o corpo? O corpo, sem o espírito que o torna vivo com algum sentido, é em si mesmo uma máquina absurda, metal árido. Só o espírito, só a alma o salvam da estupidez animalesca. As qualidades morais e intelectuais da pessoa, a sua inteligência e sensibilidade, a sua honestidade, sinceridade e capacidade de amor espiritual são portanto muito mais determinantes na qualidade das manifestações do amor físico do que nós pensamos.

4. A amizade, a possibilidade de comunicar são o mais importante. O tempo também é importante. O amor exige tempo. Tempo para se entender a si próprio, para amadurecer, para aprender a existir e a durar. Depois é preciso ter em conta que as palavras que nós usamos têm um sentido pessoal para cada um de nós. O sentido do dicionário é apenas um esqueleto do sentido que as palavras adquirem quando usadas por nós nas situações da vida real. Portanto: estamos a falar de coisas diferentes quando pensamos que estamos a falar da mesma coisa. As palavras têm a envolvê-las a carne com que foram ganhando corpo nos episódios da nossa experiência, que é sempre única e privada, que é em parte inacessível à explicação clara, que por isso só dificilmente é partilhada. Por todas estas razões o desentendimento, a insatisfação, as ofensas graves, a humilhação, as manifestações perigosas da loucura não são facilmente evitáveis. O desajuste entre o sentido das palavras tal como foi sendo amadurecido na experiência pessoal e o sentido das palavras tal como o armazena o frigorifico do dicionário explica muitos dos problemas que nos surgem nas relações amorosas. A amizade, a compaixão, a confiança, o respeito, a capacidade de comunicar sem nos transformarmos na criança birrenta que se refugia, autista, no canto da sala podem ajudar a resolver muitos problemas. Problemas frequentemente menos importantes do que parece. Mas nós vivemos tão preocupados em estabelecer e fazer respeitar os limites da nossa dignidade, em delimitar o espaço em que se exerce a nossa soberania indiscutível de reis e de rainhas, que facilmente nos comportamos como cães: ladramos, ladramos, ninguém consegue calar-nos.

5. Não sei se dizer “eu gosto de ti” , ouvir dizer ”gosto de ti” têm grande importância. É possível que haja uma excitação passageira, uma gratificação momentânea quando se dizem e ouvem essas palavras. Mas uma frase vale o que vale e nada é seguro. Dizem-se e ouvem-se essas coisas, mas nós muitas vezes não sabemos o que dizemos. Usamos as palavras para obter sem muito esforço recompensas de nós próprios e dos outros. Muitas vezes resulta, talvez. Mas nós não sabemos bem o que estamos a dizer. Se resultou, isso convence-nos de que através da linguagem chegámos a algum acordo com outra pessoa. Mas não é seguro que o acordo a que pensámos chegar seja aquele a que pensa ter chegado a outra pessoa. Nem sequer que o acordo a que pensamos ter chegado é o que nós próprios imaginamos, independentemente do que a outra pessoa possa pensar ou imaginar. As coisas não são tão simples como parecem. Talvez as palavras do amor afinal sejam outras e talvez sejam palavras desconhecidas e a descobrir ainda, a descobrir de cada vez. Talvez o próprio silêncio seja uma “palavra” de amor que nenhuma outra palavra pode substituir. O ritual do início de uma relação pode ser agradável, excitante. Mas também é penoso. Eu não gostaria que a minha relação contigo viesse a ser julgada mais tarde pelas frases que eu te disse quando te conheci. Nem cometerei o erro de acreditar que as nossas relações futuras se decidiram nos passos que nos levaram a meter-nos juntos na cama pela primeira vez. Talvez a importância e a seriedade do amor se possam medir pelo desejo que nos juntou, mas duvido. Provavelmente hão-de ter mais importância nas nossas relações futuras os momentos em que ficámos em silêncio, de mãos dadas, na cama onde os nossos corpos se tinham procurado, do que o que dissemos e o que fizemos. O amor necessita de tempo e de silêncio, de espaço de respiração e de atenção, de paz de espírito. A confiança e o entendimento necessitam de tempo para se formarem.

6. Escrever-te não substitui o que ainda não aconteceu. Escrever-te também não é uma maneira de adiar, de condicionar ou de modificar os acontecimentos. Penso que não. O que tiver de ser, será. Eu não estou receoso nem preocupado. Também podia dizer, sem ter medo de estar a faltar à verdade, que já estou ao teu lado. Se tivesse de abandonar o lugar, de ir-me ou vir-me embora neste momento, ficaria frustrado, já seria doloroso.


(cont.)

(Caderno Azul)

Saturday, May 3, 2008

A palavra

Revi esta noite Ordet (A palavra), o filme de Theodor Deryer. Se me perguntarem o que é uma obra de arte, posso responder: Ordet é a arte. Era a arte em 1955 e continua a ser "a arte" em 2008. Grande arte, arte sublime.

Seria bom que Deus existisse. Mas mesmo que Deus não exista, a ideia de Deus, o conceito da divindade organizou o mundo. Ou devemos dizer que foi o sofrimento humano que para se redimir ou iludir, para se consolar do inconsolável, organizou o mundo à volta da ideia de Deus?

Inger está morta no caixão. O marido está destruído pela dor e o médico que não conseguira salvá-la diz-lhe: "Remember, Borgen, that even in pain there is beauty". Palavras tontas, palavras ofensivas. Revoltado, o marido ateu responde: "Yes. And all that beauty, Doctor, is so frightful important". De facto, que importância tem a beleza para quem está dentro da tragédia? Nenhuma, quem sofre tem mais em que pensar, tem mais que sentir, não se pode tansformar em espectador orientado esteticamente para o que lhe acontece. O que, fatalmente, reduz a maior parte das nossas obras de arte a coisas menores, a brincadeiras de gente desocupada.

O respeito que nos impõe a beleza de Ordet é inseparável do respeito que nos impõe a contemplação da tragédia. O sublime da forma confunde-se em Ordet com o sublime da dor. A grande arte creio que é isso: representação sublime da tragédia. Na grande arte a beleza não se deixa usufruir despudoradamente enquanto puro ornamento, na grande arte a beleza, o sublime, não acontecem como excrescências, não são um suplemento, a prova gratuita e vaidosa de um virtuosismo qualquer.

A apreciação da beleza da tragédia é um luxo que não é concedido a toda a gente. Que na realidade só nos é concedido quando a tragédia não é a nossa. Aquele que está dentro da tragédia não é desprovido de capacidade estética, certamente. Mas quem põe a estética em primeiro lugar quando a dor oprime? Pôr de lado a dor e deixar de ser sujeito e vítima do sofrimento intenso para se tornar puro espectador do acontecimento é prova de irresponsabilidade, de superficiliadade, de desespero, de perdição ou de loucura.

Quando tentam acalmar a dor de Mikkel, o marido que acaba de perder a mulher, dizendo-lhe que ela está no céu, na companhia de Deus, onde é feliz, ele responde: "Her body is here. I loved her body too." Corpo e espírito inseparáveis. Negação da retórica religiosa da consolação.

Give me the word. A palavra dita com fé consegue o milagre. A palavra daquele que crê ressuscita os mortos. Ou produz a verdadeira obra de arte. No filme a criança crê e o louco faz o milagre. Ambos, a criança e o louco, acreditaram, tiveram fé. Fiquei a pensar que o valor real das palavras é no fundo o valor real das situações em que elas surgem. A intensidade da palavra nasce do nosso envolvimento na seriedade da vida, que referida à morte deixa de ser divertimento. Para explicar o poder da palavra trágica, que pode ser noutra circunstância, sendo a mesma palavra, uma pobre palavra sem importância, temos de reconhecer que são as situações em que elas são pronunciadas que conferem às palavras a sua intensidade e o seu temível poder.


Thursday, May 1, 2008

Confuso

Que não gostem de mim, que alguém que me dizia que me amava me tenho dito um dia que já não gostava de mim, eu posso entender, eu próprio não tenho grande opinião acerca da minha cara actual. O que me surpreende é que raparigas iguais àquelas de quem eu sempre gostei me prestem ainda atenção, às vezes uma atenção muito particular, evidenciada nos olhos com que me olham em silêncio, nas palavras que me dirigem, nas atitudes que tomam para comigo. Embora eu não tenha sabido, por pudor ou por falta de fé, frequentemente, tirar partido do amor que parecem ter-me ou prometer-me, é agradável pressentir que o amor ainda não está totalmente fora do meu alcance.

P. S.

Seguindo o exemplo da Laura, pus de lado todos os anti-depressivos (ia a escrever "preservativos", que confusão no meu espírito). Descobri, com surpresa, que afinal não andava deprimido. Sinto-me muito melhor na vida agora. Lamento os erros que cometi enquanto andei calmamente domesticado, conformado e tranquilo, a usufruir, privando-me de muita coisa, da minha paz artificial. Não se pode voltar atrás para recuperar, portanto não vale a pena perder mais tempo a pensar nisso. Se lidaram comigo nos ultimos anos, tenham em conta que provavelmente je étáit (étais?) un autre.


(Caderno Verde)