Monday, June 30, 2008

Frases

O amor tem os efeitos de uma droga: faz-nos ver o mundo, a vida, as outras pessoas, com uma generosidade e um optimismo desajustados da realidade tal como ela é, da vida como ela é.

O sucesso social tem os mesmos efeitos: torna desnescessária a dúvida, a reflexão, a necessidade de continuar a aprender e a aperfeiçoar-se.

É por se quererem estáveis que as instituições, submetidas ao poder central de que são os principais pilares, não toleram a dúvida nem a desobediência.

A própria arte - a literatura, a música, a pintura, etc. - quando satisfaz a barriga mental dos detentores do poder cultural e das massas pouco exigentes, transforma-se numa instituição. Semelhante, nos estatutos e processos, às instituições políticas. A procura, a contestação e a dúvida desapareceram. Os artistas institucionais, festejando-se mutuamente, ainda se atribuem um lugar honroso à margem da "mediocridade reinante", que pretendem denunciar, contestar, contribuir para eliminar. Não se dão conta - ou deram e é por isso que se multiplicam em gestos de mútua solidariedade pública? - de que foram ultrapassados pela consciência que outros já têm dos acontecimentos.

O poder político gosta muito dos artistas que vendem, que são populares. Por isso os condecora: porque eles, os artistas que vendem muito, ajudam a manter a ordem social. Aliás eles são uma prova do funcionamento perfeito das instituições, que ajudam a subsistir canalizando a rebelião e a insatisfação na boa direcção.

O triunfo das instituições políticas, intelectuais, artísticas, reduz a nossa procura da verdade e a nossa aspiração à verdade a veleidades ingénuas: quem és tu, que não nos admiras nem te submetes ao gosto e ao poder que triunfaram, para pôr em causa as razões do nosso sucesso? E assim acabam por surgir às vezes, denodados, gastando-se fisicamente e mentalmente na luta, os génios verdadeiros.

Todos os movimentos modernistas tiveram de recorrer a formas de comportamento mais ou menos "revolucionárias" para tentar desalojar a arte que estava no poder. Muitas vezes conseguiram. Cometeram um erro, porém: imaginaram, com uma imaturidade de adolescente, que a verdade que tentavam impor era definitiva e ia durar.

Às religiões, em contrapartida, não escapam a imperfeição, a crueldade, o vício, a mediocridade humana.

A ver alguns filmes ficamos convencidos de que o amor de facto existe e é uma força terrível que permite escapar à mediocridade das relações. E sentimo-nos mais pobres, mais desprovidos da sorte ou do talento que permitem amar e ser amado. E assaltam-nos recordações que podem ser muito dolorosas dos dias que vivemos junto de alguém. Estava a pensar em In Mood for Love, por exemplo, de Wong Kar-wai, que também fez 2046 (estou à espera de ver My Bluebbery Nights).

Friday, June 27, 2008

O tempo: digressão

Passou o tempo.
Passa o tempo.
O tempo é
um comboio que
nós vemos passar e
à janela, a afastar-se,
vão as pessoas que nós
conhecemos e amámos,
que esquecemos ou nunca
vimos. Ainda acenam com
a mão, ainda sorriem?
filme impreciso, as imagens
não são claras. Talvez
a melancolia se tenha
entranhado nas almas daqueles
que uma vez, no tempo
irrecuperável, nos falaram
e nos ouviram, nos
beijaram e abraçaram, nos
amaram ou nos odiaram,
nos ignoraram ou tentaram
destruir-nos sem o conseguir,
coitados. O comboio
afasta-se, é uma silhueta
vaga em movimento
incerto, aonde irá? Os
meus olhos tentam reter
os rostos que se vão embora
e nunca mais hão-de voltar.
Mas não é fácil fixar o que
vai desaparecendo. Provavelmente
o tempo não existe, é uma aguarela
pintada pelas mãos inocentes
de uma rapariga. Talvez
o tempo seja um dos nomes
que nós damos ao que não
tem nome. O tempo
nunca pára de passar?
O tempo nunca sai
do mesmo sítio?
Somos nós que
passamos por ele,
o tempo somos nós
que vamos na vida de
viagem em viagem?
Pelo menos nas histórias
que nós contamos
é assim que as coisas
se passam. Tão
estranhamente, é verdade.

Monday, June 23, 2008

LETRÁRIO: Nova Editora, Digital

http://www.letrario.pt/1_pt/900/9002.htm

A terra: alguns detalhes



Quando se tiram fotografias de um carro em andamento, a nitidez da fotografia, evidentemente, é menor do que se estivéssemos parados e usássemos um tripé.


Sunday, June 22, 2008

Bares

Antes de ir para casa parei no bar da Hollister para saborear uma Perrier (conduzo, não posso beber álcool: se a polícia nos apanha são uns cinco mil dólares de despesa). Não havia muita gente (da última vez, há uma semana, estava a abarrotar porque o trimestre e o ano lectivo terminaram e os estudantes, antes de desaparecerem, precisavam de festejar). Sentei-me lá fora, no pátio, tranquilo, com a água na frente, e fiquei a ouvir dois tipos que falavam de literatura a dois metros de mim (colegas, provavelmente, mas eu não os conhecia). À mesa a que me sentei estava sentado um rapaz com um copo de cerveja quase cheio na frente. Tinha todo o ar de se aborrecer. Minutos mais tarde levantou-se e desapareceu, mas deixou a cerveja. Quando os outros dois chegaram, o rapaz americano e a estudante europeia, o americano perguntou-me se podiam sentar-se. Disse-lhe que sim. Foram buscar uma cerveja, voltaram, sentaram-se. O tipo mandou logo a mão para as pernas da rapariga, fiquei quase chocado. Foram falando e eu ouvindo. Ela era uma jovenzinha inocente e tímida que veio passar uns meses à América para aperfeiçoar o Inglês e ia-se embora para a Europa no dia seguinte, estava cheia de pena. A experiência na América, evidentemente, tinha-a entusiasmado. O clima da Califórnia, além disso, é fantástico. E ela tinha visto tanta coisa nova, conhecido gente tão interessante - até brasileiros, tão simpáticos sempre e a falar uma língua tão bonita.

É curioso como nas conversas de engate, quando as coisas ainda não estão seguras, se fala de tudo menos do que está em jogo. O lobo queria comer a ovelhinha e eu, por solidariedade europeia, achava que ela não devia deixar-se comer por um lobo americano. Parecia bom rapaz, talvez o fosse, mas estava a querer resolver o assunto de maneira que achei abusiva, apressada, desenvolta. Ouvi-o falar com uma convicção romântica excessiva do sabor delicioso do leite acabado de ordenhar, das piscinas que limpava num hotel em que trabalhara em Miami, de aviões e de companhias aéreas, de batatas fritas, do país dela, não sei de quê mais. A conversa evoluía nervosamente, não tinha rumo nem tópico definido. O tópico, apesar de dissimulado, era no entanto evidente: tenho de a comer, dê por onde der, ela vai-se embora amanhã. A dado momento meti-me na conversa para confirmar que fries em French fries significa de facto fritas. Depois falámos, primeiro ele eu, depois ela também, de política. Eu disse que não gosto do Obama - fala bem de mais acerca de tudo e é um arrogante, eu prefiro a Hillary - e ele respondeu que de qualquer modo quem vai ganhar as eleições é o candidato republicano. Fiquei informado. Abordámos a questão dos impostos, a questão da debilidade do dólar, falámos do preço proibitivo da gasolina e da guerra do Iraque, tudo assuntos sobre os quais as opiniões dele eram apenas políticas, isto é, "republicanas". Sem interesse para mim, mas dava-me um prazer cínico ter introduzido a fria realidade na fábula poética em que ele tentava envolver a rapariga. Acabei por dizer todo o bem e todo o mal que penso da América, não resisto nunca a tentar fazer uma síntese convincente das contradições deste país. Apesar de me prestar atenção, o americano, compreensivelmente, estava era interessado em seduzir a rapariga. Achei-o vagamente impaciente, eu estava a fazê-lo perder tempo e a prejudicar-lhe a estratégia. Decidi deixá-los em paz. Levantei-me, disse boa noite, saí. Quando me sentei no carro ouvi-me dizer: filho da mãe de republicano sabido, oxalá leves uma tampa.

Friday, June 20, 2008

Acontecimentos

Há acontecimentos que não só nunca aconteceram mas se tivessem acontecido continuavam a não ser acontecimentos. A insignificância inventa insignificâncias para se distrair, para se inserir no universo clamoroso do insignificante, do que mesmo que tivesse acontecido não era acontecimento. É grave? É, porque o mundo, a terra, a vida, estão cheios de acontecimentos que passam despercebidos e entretanto os anos que nos foram dados vão-se esgotando e nós não os aproveitamos.

Thursday, June 19, 2008

Sonho

Ela sonhou com ele, mas não lhe disse nada. Ele, sempre atento, enviou-lhe mentalmente uma mensagem: está descansada, eu nunca deixarei de gostar de ti, embora te odeie. Ou foi ao contrário, nunca deixarei de te odiar embora goste de ti? Confuso, não sabia se devia enviar outra mensagem a corrigir a anterior.

Wednesday, June 18, 2008

Porquê?

Ainda não percebi bem por que razão estarem de acordo connosco - amarem-nos, por exemplo, que é uma atitude de adesão ao nosso hipotético amor por nós próprios - nos dá prazer, nos envaidece, nos leva a acreditar que estamos no caminho certo. Triunfar na vida é isso?


Friday, June 13, 2008

Eles amam-nos



O preço da gasolina continua a subir e as companhias petrolíferas a enriquecer-se escandalosamente. Aqueles que nós escolhemos para nos governar amam-nos, mas não dão provas disso, esquecem-se de usar do poder que depositámos nas mãos deles. As fábricas de automóveis um dia destes fecham, o desemprego aumenta, os nossos automóveis vão apodrecer na rua ou na garagem. Haverá burros suficientes para nos transportar todas as manhãs ao local de trabalho? Haverá local de trabalho? Em breve recomeçaremos a viajar de Nova Iorque para Lisboa de barco à vela, deve ser divertido. Se houver barcos e dinheiro para pagar o bilhete. Já não há revoluções, hélas! Preferimos distrair-nos a ver jogos de futebol, a amar a poesia e a pintura. C'est le monde à l'envers.

Tuesday, June 10, 2008

A poesia

Escrever livros
e publicá-los,
falarem deles
nos jornais,
para algumas
pessoas
é isso a
literatura.
Mas eu conheço
poetas
que nunca
publicaram
um livro
e são mais
poetas
do que os
poetas de que
falam os jornais.
Não me espanto
nem me aborreço.
Não preciso
que me ensinem
o que é a
literatura
nem que indiquem
o caminho. Sei
onde
está a poesia,
vou lá
e leio-a. Às
vezes imagino
que sou simples
e verdadeiro
como um poema
contraditório
de Alberto Caeiro.
E não dou
importância a isso,
são apenas
pensamentos
que cruzam
o meu espirito.

Amo as pessoas
sem saber
se elas
merecem
ser amadas.
Se me engano,
não tem muita
importância. Posso
queixar-me, mas
sei que queixar-se
não traz de volta
o amor. Sou humano,
também sei isso,
não sou infalível.

Não vivo obcecado
com a poesia
nem com o amor,
ela e ele vêm
ao meu encontro
naturalmente, como
as folhas crescem
na árvore e nalguns
casos caem no Outono.

Monday, June 9, 2008

Idanha Hotel

A gente viaja e descobre coisas que não entende: de onde surgiu este Idanha Hotel em Idaho, USA? Algum emigrante português da Idanha (Nova ou Velha) que por ali se fixou? Algum turista americano que quis recordar o nome de um lugar que visitou e o seduziu pela sua beleza ou alguma experiência romântica? Pura semelhança de nomes, Idaho/Idanha? Curioso. Nenhuma referência além de ser hotel de luas-de-mel noutros tempos em Idaho. Mas já não é hotel, agora é uma estação, lugar de negócios, tem apartamentos nos andares de cima.

Sunday, June 8, 2008

Perseguição

Eu conhecia-o, mas não o imaginava tão perto. Quando ele se sentou na esplanada do café, arregalei os olhos, pensei: persegue-me, ameaça-me, que quererá de mim? Provavelmente tinha vindo para se vingar. Pela segunda ou terceira vez. Um saco preto, pesado, os velhos jeans rotos nos joelhos, um boné castanho na cabeça, o relógio no pulso direito. Acendeu um cigarro. Estava de costas para mim, mas vigiava-me. Fazia de conta que não me vira, mas eu sabia que ele viera para se vingar. Finalmente viera. Não sabia que ele fumava, ouvi-o dizer uma vez que odiava o tabaco. Vi-o mexer-se nervosamente na cadeira, devia estar a reflectir. Não estava à vontade: ó ódio, a loucura, a frustração consumiam-no. Aquela que me amara e por amor de quem ele revolucionara o mundo à sua volta ignorava-o, era inacessível à sua paixão. Ele podia fazer vibrar o seu corpo quando a noite caía e o espírito adormece em si mesmo, mas nunca conseguira ir além disso. Quem com ferros mata, com ferros morre. De início, quando ele a convencera a habitar a casa dos subúrbios, tudo parecia correr segundo os seus desígnios. Mas aquela que me amara sem saber o que é o amor em breve havia de abandoná-lo. Na sua perdição, ele imaginava-me responsável pela ausência do amor, imaginava que o amor que ela sentira por mim a impedia de sentir amor por ele. Era provável, eu não podia responder a essa pergunta, eliminar as suas dúvidas. Sorri. Bruscamente ele levantou-se e afastou-se a correr. Sem me olhar. Mas eu sabia que tinha de permanecer atento, pois um coração ferido é capaz de todos os crimes para se vingar da imperfeição da existência. A minha vida não podia ser modificada, o passado passara e não podia ser refeito nem corrigido, mas eu sorria.

Recordações

Ela levou-me pela mão
até aos dias distantes
da infância. Eu fui o
rapazinho que ela
olhava da janela, a quem,
no intervalo dos jogos
com as bonecas, ela
fazia caretas. Descia as
escadas, abria a porta
da rua, vinha ao meu
encontro com um sorriso
de desfaçatez nos lábios.
Falava comigo, o estranho.
Fiz-lhe companhia na sua
solidão. Mais tarde assisti,
sem dizer uma palavra, ao
brotar dos seus sonhos
de adolescente. Vi-a
passar na mota, agarrada
ao namorado. Observei-a,
incrédulo, quando ela
beijou o homem que a
levava de carro para as
ruas escuras da cidade.
Ela cresceu por fora,
mas nunca cresceu por
dentro. Nunca soube
apreciar o meu silêncio,
o que se passava no meu
espírito era como se não
existisse. Mas agradou-lhe
ter-me por companheiro
dos anos que nunca mais
hão-de voltar. Quando
imaginou que não era
amada, para fugir à
confusão inventou a
paixão mais forte do que
a vontade, sem acreditar
no que estava a fazer.
Chamou amor ao tumulto
incompreensível da
curiosidade e da dúvida,
assim evitou ter de entender
o seu próprio destino.
Desejos contraditórios.
Ela sabe sofrer? Ou
resolve todos os
conflitos mentindo
a si própria? Tudo
tem um preço,
não se pode apagar
o que aconteceu, nunca.
Sinto-me mais só, agora?
Ela deixou-me as
recordações da sua
infância para que eu
pense nela na sua
ausência. Como
se para sempre
as recordações e
a infância dela
fossem as minhas.
A morte talvez seja
o reencontro com o
tempo perdido. Na
eternidade, a infância
inocente e todas as
idades ressuscitam.
Ser feliz é estar no
tempo, em todos os
tempos, sem memória
nem imaginação. Isto
são palavras dos vivos.

Friday, June 6, 2008

Ontem

1. Ela disse em voz baixa quando nos separámos: tenho o teu email. Falou só para mim, quase sem me olhar. Não estávamos sós. Eu percebi. Eu tinha posto a mão no ombro dela ternamente, senti a mão dela na minha cintura. Ela enternece-me desde sempre. Se nos encontrarmos e falarmos, eu digo-lhe: gosto tanto de ti, se tu soubesses.

2. Ela viu-me e veio a correr, abraçou-me. É minha amiga a sério. Os pais, divorciados, não a ajudam, ela não encontra trabalho nem tem dinheiro, mas não se queixa, diz sempre que está tudo bem. Uma vez à noite encontrámo-nos no café, ficámos a falar mais de uma hora. Hoje perguntou-me: se eu estivesse a divertir-me com os meus amigos, tu zangavas-te comigo? Havia um grupo ruidoso de rapazes e raparigas a beber cerveja numa mesa do bar. Respondi, intrigado e surpreendido: claro que não ficava zangado contigo. Para a semana quer que falemos, tenho de lhe tirar umas dúvidas e explicar-lhe melhor como se escreve um ensaio. Eu disse: tu sabes o que eu penso de ti. Ela atalhou: tu dizes que eu sou muito honesta. Continuei: não tenhas medo de dizer o que pensas porque o que tu pensas em geral está certo e é interessante, a tua honestidade e a tua inteligência salvam-te da estupidez e do erro. Foi, pressurosa, à mesa do bar buscar uma amiga, apresentou-ma. Eu disse à amiga: ela diz tanto bem de si. O meu pai é português, respondeu a amiga, e ela é uma tipa formidável. A amiga foi para casa. Ela olhou para mim com os olhos azuis límpidos, o rosto dela não se esconde. É uma pessoa rara. A tua mulher está melhor? E tu, estás bem? Agora vou para a biblioteca estudar, depois telefono-te, vemo-nos na terça-feira. De acordo, disse eu. Subiu para cima da bicicleta e foi-se embora.

3. Ela emprestou-me um filme. A protagonista do filme é muito parecida com ela, o mesmo tipo físico. Beleza muito discreta e severa, magra. Hoje, quando a vi, ela estava sentada ao fundo da sala, receosa, tímida. Fui ter com ela, devolvi-lhe o DVD e dei-lhe o filme do Manuel de Oliveira que tinha trazido para lhe emprestar. Vi a sua satisfação. Percebeu que eu percebi e que não a rejeitei.

4. No café, à noite, estava o bêbedo do costume, um chato, e duas ou três raparigas à volta do estudante de filosofia. Conheço-o. Não sabia que ele é tão popular: sempre rodeado de meninas. A mulher dele trabalha numa pastelaria, conheci-a num bar, ela estava sozinha, mais tarde voltei a encontrá-la com o marido no mesmo bar. Perguntei-lhe: a tua mulher? Respondeu: está a dormir. E continuou a martelar as teclas do Mac. Uma das raparigas que estava com ele é petulante, também a conheço. Outra trabalha no café e escreve novelas. Perguntei-lhe enquanto esperava pela bica: mandas-me o que escreveste por email? São sessenta páginas, disse ela. Eu: e depois, qual é o problema? Está bem, quando o meu computador voltar da reparação eu mando. Fui sentar-me lá fora a ler Ésquilo. Fogoso, comparado com a simplicidade de Eurípedes. Folheei o Decameron, li a introdução. Boccacio diz que sofreu muito por causa de uma paixão exagerada mas que recuperou finalmente a serenidade. Quer agradar às mulheres, escreve sobretudo para elas porque elas, que passam muito tempo em casa e têm menos possibilidades de se escapar, se aborrecem mais do que os homens. Veio o bêbedo, pediu-me um cigarro. Dei-lho mas evitei olhá-lo. Ficou a falar sozinho: li muitos livros, muitos romances do século XX, Kerouac. Depois pôs-se a falar do pai e do avô. Fechei o livro, vim para casa.

5. A vida é um labirinto de caminhos que não param de se abrir diante de nós. A paixão oferece-se a quem seguir o seu instinto e não tiver medo. Eu preferia não morrer.

Sunday, June 1, 2008

Desintegração

Prova evidente da minha desintegração social: não cultivo nenhum estilo de vida ou de aparência com intenção deliberada de me tornar notado, interessante, coerente, não sinto necessidade de me caracterizar fazendo referências regulares e criteriosas aos meus gostos literários ou artísticos, actuais ou do passado. Quando me sento num café não me sinto a personagem melancólica e sedutora de nenhum filme feito ou por fazer, de nenhum livro escrito ou por escrever, do sonho de nenhuma mulher. Vestir pullovers cinzentos ou azul escuro, andar de jeans, só fumar cigarros Nat Sherman sem aditivos, ler Hamsun, Dostoievsky, Celan, tentar entender Heidegger e Spinoza além de Wittgenstein, ler Kafka, Gogol, whatever - e nem me refiro à música que oiço, aos filmes que vi ou vou vendo - nada contribui para que eu me sinta uma peça particularmente original no jardim zoológico do mundo. Talvez tenha ultrapassado a fase do narcisismo primário em que necessitamos de definir com clareza uma série de coisas para desenhar para os outros e para nós mesmos o mapa original e inconfundível da nossa personalidade. Sinto-me bem assim, sem mapa, acho que até já estou mais perto do caminho certo (morrer sem a pretensão de ter vivido com estilo). Se às vezes me sinto mal ou coisa nenhuma é por outras razões.

Eu, Gonçalo, se não estou errado, saí definitivamente de Portugal em 1969. Continuar a sentir-me português é uma prova clara da minha teimosia.

(Caderno Azul)