Thursday, July 31, 2008

Duração


Qual é a longevidade das palavras? Algumas morrem à nascença, ninguém deu por elas, aquele que as pronunciou esqueceu-as ou nem se deu conta de que as disse. Outras morrem cedo, discretas, para ressuscitar, estranhamente, com consequências imprevistas, mais tarde. Outras duram no momento em que são ditas, a sua existência indecisa ou decidida prolonga-se, por vezes com interrogações e dúvidas, por vezes luminosa e incisiva. Há palavras que nunca mais se esquecem, palavras que duram numa existência intermitente, palavras que ficam suspensas não se sabe em que espaço ou tempo e sobre o sentido das quais se pode longamente discorrer, palavras que queremos esquecer e não conseguimos, palavras erradas, palavras certeiras, palavras que são remorsos, palavras que são o amor ou o ódio em vez de serem palavras. O sentido das palavras não muda com o tempo que passa? Muda: elas amadurecem, envelhecem, rejuvenescem, perdem e adquirem significações e importância, como tudo o que existe. Seria pretensioso querer catalogar em poucas linhas tudo o que pode acontecer às palavras e tudo o que por causa delas nos pode acontecer. É melhor não pensar demasiado no assunto.

Tuesday, July 22, 2008

Linhas

Se eu soubesse desenhar,
desenhava o rosto da rapariga
que estava sentada no café
com as amigas. Era ao fim
da tarde, estava calor. Ainda
tentei, mas a linha do nariz,
depois a da boca, depois o
queixo, para não falar da
linha do seio direito e da
linha do ventre nem da linha
das pernas, foram dificuldades
que eu não soube ultrapassar.
Por isso desisti e limitei-me
a admirar a sua beleza discreta,
tão tranquila. Cada um de nós
é um universo, o mundo. Quem
nos vê nem imagina, não pode
imaginar. Se acontece, por
vezes, falarmos uns com
os outros, e se a curiosidade
não desaparece depois de
trocarmos duas ou três frases,
começamos a pressentir as
razões por que podíamos
amar uma pessoa que no
entanto nos era, alguns
minutos antes, totalmente
desconhecida. A maior
parte das vezes, porém,
limitamo-nos a olhar. E
depois voltamos às páginas
do livro que estávamos a ler.
Ou assaltam-nos as
recordações de um amor
antigo que sempre nos deixa
meio melancólicos. E a
vida, que está cheia de
mistérios, continua sem
mistério nenhum a decifrar,
não podemos iludir-nos,
enquanto as horas vão
passando, a tornar a nossa
existência, esse único tesoiro
que nos foi concedido, mais
interessante do que ela é. O
tédio domina. Para escapar-lhe,
nós acreditamos no futuro
como algumas pessoas
acreditam na felicidade da
vida eterna que nos espera
depois da morte, no paraíso.

Saturday, July 12, 2008

Tudo nos acontece

1

Para o lago escuro
onde moram os deuses
nós íamos. Com os
olhos vendados
fixos na luz.

2

Os braços que
abraçaram,
os lábios que
beijaram. E a
palidez do
corpo inerte.
Tudo nos
acontece.

3

As palavras.
As mesmas.
Para
dizer a verdade
e para mentir.
O amor e
a imitação
do amor.
Tudo nos
acontece.

4

Os lábios que
nos sorriram.
Os olhos que
não mentiam
ainda (não era
preciso).
Tudo nos
acontece.

5

Eu lembro-me.
Tu lembras-te?

A manhã nascia
na floresta,
à beira do lago.

A torre da igreja,
tão próxima,
batia as horas.

A dor, às vezes,
depois,
tanto sofrimento.

Tudo nos acontece,
ninguém escapa
ao destino
de todos.

Wednesday, July 9, 2008

Pensar e agir, etc.




1. É possível atribuir um sentido correcto às palavras sem saber quem as disse?

2. Num romance, num conto, o sentido e a importância das palavras que são ditas pelas personagens é condicionado pela sua origem: as personagens, imitação das pessoas reais, apresentam-se-nos com uma identidade. O valor, a importância, o sentido das palavras proferidas ou pensadas forma-se tendo em conta essa identidade da personagem.

3. Antes de haver conhecimento da identidade não há nada. Como se constrói, a partir do nada, a identidade da personagem num romance ou num conto? Através da palavra do narrador: as personagens agem, falam, vestem-se, de certa maneira; possuem isto ou aquilo, dão-se de determinada maneira com outras personagens e essas personagens com elas; mas também merecem comentários mais directos ao narrador. A partir dessas diversas manifestações da existência da personagem o leitor vai-se construindo a sua própria imagem ou ideia da personagem.

4. Na vida real, nas nossas relações, acontece a mesma coisa. As razões para adoptar alguma prudência na avaliação do carácter de outras pessoas são as mesmas na ficção e na vida real: que sabemos nós acerca de seja quem for? Pouco, nada, cometemos repetidamente erros a julgar quem não conhecemos e quem conhecemos. Mas ainda assim o sistema de interpretação vai funcionando, o sentido vai-se revelando e impondo aos poucos, nós acabamos por não hesitar excessivamente, o mundo à nossa volta tem sentido. E concluímos, agimos.

5. Devíamos talvez reduzir a importância de todas as nossas conclusões acerca do que nos é exterior (do que nos é íntimo é melhor não falar agora) e sobretudo acerca das pessoas reais e das personagens de ficção – elas são-nos sempre exteriores, puros objectos para nós, mas isso não invalida que sejam sujeitos com uma interioridade e uma complexidade desconhecidas.

6. Que nos enganamos, é um facto. Todo o conhecimento é apenas uma etapa para um conhecimento mais apurado ou mais perfeito. Correcto e perfeito num momento, o conhecimento é depois posto em causa pela experiência quando esta se prolonga (morremos em cima de uma verdade que no dia seguinte se revelaria duvidosa, imperfeita).

7. Todas as nossas certezas, que nos permitem pensar, decidir, agir, concluir, avaliar, etc., são, durante um instante, indiscutíveis. Duvidar impedir-nos-ia de fazer, de concluir, de viver, de progredir no conhecimento, pois havia de manter-nos num estado de inércia estéril. Podemos saber ou pressentir que todas as nossas certezas e verdades são momentâneas, mas se ficássemos, hoje, à espera da verdade de amanhã, e amanhã à espera da verdade de depois de amanhã, não dizíamos uma única palavra, não tomávamos uma única decisão, não nos detínhamos nem apoiávamos o suficiente em nenhuma conclusão. Mesmo provisório, o sentido imperfeito de hoje é sentido válido e útil, a ter em conta. Aceitá-lo, confiar nele, permite-nos agir, avançar, ir indo de actividade em actividade no caminho da vida.

8. Pequenos e grandes erros cometidos. Avaliamos mal os acontecimentos e as pessoas. Mas não há outra maneira de viver: o conhecimento actual, o de hoje, será sempre inferior ao conhecimento que teremos amanhã, no futuro. Nós agimos porque o facto de a verdade de hoje ser por natureza inferior à de amanhã não pode impedir-nos de estimá-la, de adoptá-la, de avançar na vida impelidos por ela.

9. Gadamer*, citando Aristóteles, Vico, Bergson e outros filósofos do passado, reflecte sobre a importância do “senso comum” e do “bom senso”. Refere Thomas Reid e comenta: “Inquiry into the senses and their cognitive capacity comes from this tradition [Aristóteles e a tradição escolástica do “senso comum”] and is ultimately intended to correct the exagerations of philosohical speculation. At the same time, however, the connection between common sense and society is preserved: ‘They serve to direct us in the common affairs of life, where our reasoning faculty would leave us in the dark.’ “

Hans-Georg Gadamer, Truth and Method, second
revised edition, Crossroad, New York, 1990

Monday, July 7, 2008

O tempo: digressões (2)

1. O que é o tempo? Qualquer coisa começa, continua, acaba. A imagem do cigarro que se fuma dá-nos uma ideia que parece correcta do que é o tempo.

2. Mesmo que não se perca o tempo, o tempo sempre se perde. Perde-se quando acaba o nosso tempo.

3. Nascemos, o tempo nasce connosco. Morremos, o tempo acaba connosco. Cada um de nós é o tempo. Inseparáveis, o tempo e nós. Não podemos viver um sem o outro.

4. O tempo? Um cigarro de onde sobe o fumo que desaparece no infinito. No fim restam as cinzas, que se dispersam e desaparecem para sempre.

5. Cada um de nós é o tempo. Tudo o que nos acontece é o tempo.

6. Tudo o que nós vemos é o tempo.

7. As pessoas que nos vêem viver assistem à existência (à passagem) do tempo.

8. O tempo é o que existe. O tempo é o que nos acontece ou não nos acontece, o que nós vemos acontecer e nos lembramos de ter visto acontecer.

9. Os nossos hábitos mentais fazem-nos separar o tempo daquilo que acontece porque o tempo não tem existência própria. Para o tornar visível, nós, que sabemos isso, separamos artificialmente o tempo do que existe.

10. Como se o tempo fosse uma coisa e o que existe outra coisa, como se o tempo fosse a pele que cobre a carne do que existe, dizemos: “foi nesse tempo que eu amei e fui amado”.

11. Ama-me enquanto é tempo quer dizer ama-me enquanto o tempo é. Por outras palavras: enquanto eu estou vivo. Depois é tarde de mais, quando eu já cá não estiver não há tempo, já não tens tempo. O tempo sou eu a existir.

12. Passa, na praça, um miúdo de bicicleta. É o tempo a passar diante de nós. O tempo atravessa o espaço, traceja-o com a sua presença. Nós seguimo-lo com o olhar. Se o miúdo parar, é o tempo que pára, o tempo deixa de existir? O tempo não pára nem deixa de existir porque o miúdo e a bicicleta são o tempo, mesmo quando não se movem.

13. Tiro uma fotografia com uma máquina fotográfica antiga, uso um filme Kodak pouco sensível, 100 ou 200 ASA. Escolho uma velocidade de abertura e fecho do diafragma demasiado lenta: a rapariga que ia a caminhar na rua e que eu fotografei risca a película, atravessa-a como o miúdo da bicicleta atravessava a praça. O seu rosto, o seu cabelo, as suas pernas arrastaram-se na paisagem, vê-se que estiveram e estão quase ao mesmo tempo, ter estado e estar confundem-se. Basta revelar a fotografia para ver o tempo em movimento.

14. Tu estás sentada na minha frente, silenciosa, imóvel, de olhos fechados, cara fechada, ausente ou como se estivesses morta. A tua imobilidade e a minha dão-me a ilusão da intemporalidade ou da eternidade. Quando abres os olhos e me vês percebo que a inexistência do tempo era ilusória, um esquecimento ou distracção.

15. O que nos seduz na imobilidade, quando a imobilidade nos seduz, é provavelmente a impressão que nós temos da inexistência do tempo. Sem ruído, sem movimento, a existência do tempo é um halo de silêncio e de paz, torna-se ainda mais difícil imaginá-la..

16. Não é necessário eu ver ou ouvir o tempo passar diante de mim para saber que ele existe. Eu também sou o tempo.

17. O piano: os sons, as notas, são o tempo a desfilar. O rio: o tempo a correr para o mar, isto é, para a eternidade, para o nada.

Janelas