Wednesday, August 27, 2008

A verdade

Durante muitos anos escrevi diários. Tenho as gavetas cheias de cadernos. Ao relê-los agora dou-me conta de várias coisas. Quando usei iniciais para me referir a pessoas, nem sempre sei a quem me estou a referir, não tenho às vezes a mínima ideia de quem foi essa pessoa que a dado momento cruzou a minha vida ao ponto de me levar a escrever sobre ela e sobre as nossas relações. O acontecimento que mereceu referência também se apagou frequentemente da minha memória e é-me impossível reconstituí-lo. Nos casos em que os nomes foram citados e em que a narrativa é detalhada e se prolonga, a experiência actual de releitura tem outras características: ao confrontar a memória que conservei desses acontecimentos com a narração que deles ficou registada no diário dou-me conta daquilo que nas duas versões não coincide. O que eu recordo e penso que aconteceu é algumas vezes – muitas vezes? - diferente do que eu escrevi que aconteceu no momento em que registei o acontecimento no diário. Relendo com alguma paciência o que detalhadamente escrevi, sou também obrigado por vezes a corrigir a própria ordem de sucessão dos diversos episódios tal como ela se imprimiu na minha memória ou como ficou anotada no diário – e portanto a importância e a significação desses episódios na história em questão. Em resumo: reajustamentos, reinterpretações sucessivas das partes e do todo. É possível nalguns casos ir seguindo com alguma minúcia o evoluir da relação que tive com uma pessoa. Surpreende-me então, subitamente, às vezes, a minha ingenuidade do tempo dos acontecimentos. Não sei se o facto de ter mais tarde entendido o que não fora capaz de entender enquanto as coisas estavam a acontecer me pode servir de alguma consolação. Talvez. Eu sei que a minha narrativa, quando envolve outras pessoas, há-de ser para sempre imperfeita: falta-lhe a versão dos mesmos acontecimentos contada pela outra pessoa, alguém tão real ou irreal como eu e que fez, disse e sabe coisas que eu ainda hoje ignoro. O que é a verdade, então?

Saturday, August 23, 2008

Museus

Eu não vou aos museus para ver obras de arte. Sento-me cá fora, à entrada ou no pátio interior, a observar as pessoas que vêm, imbuídas de fervor religioso, ver as obras de arte. Vejo-as tirarem-se fotografias umas às outras, vejo-as caminhar descuidadamente para a entrada das salas do museu. São obras de arte vivas, enigmáticas na sua aparente normalidade e na sua talvez genuína banalidade. Os gestos que elas repetem, apesar de semelhantes ou idênticos, devem ter a marca das suas ocultas personalidades, dos seus obscuros desígnios. Quando regresso a casa levo o espírito cheio de imagens, de perplexidades, de movimentos, de enigmas a decifrar.

Friday, August 22, 2008

O corpo


Há o corpo. Sem ele, nada feito. Podem falar, digam o que quiserem, mas não se iludam: o espírito não basta, é preciso dar garantias materiais. O espírito é o mais importante, é a única coisa importante. Mas o corpo é a garantia, o instrumento da soberania e da submissão, a moeda que permite iniciar o negócio. O cinismo, a ingenuidade ou o mal-entendido adivinham-se: o corpo que se ostenta, que solicita a admiração e quer ser desejado quando o objectivo em vista é fazer a conquista do espírito. Reflectir sobre as razões do estranho subterfúgio.

Saturday, August 9, 2008

Cá fora e lá dentro




À distância, longe de casa, pode-se falar. Quando se está dentro da casa as palavras não têm o mesmo sentido e é preferível calar-se. Em casa não se é livre, as paredes limitam o espaço. As janelas, se deixam entrar a luz, não se abrem verdadeiramente para o exterior. Aqueles que vivem na casa vigiam o sentido das palavras. Um país, uma casa, uma cidade, uma família: tudo são fronteiras, paredes, limites. Aqueles que estão fechados na casa não entendem o que se passa lá fora. Metidas em caixas as palavras não respiram e adquirem sentidos que não têm se ditas à distância, longe daqueles que vigiam tudo o que se passa na cidade. Por isso, provavelmente, me fui embora e nunca hei-de voltar. Conheci a liberdade, não me apetece deixar-me amarrar de novo à mesquinha lei local. A ditadura não terminou. Não se pode falar livremente. Eles interpretam mal as nossas palavras, por incapacidade ou porque não admitem que alguém possa ir além daquilo que eles permitem que seja pensado. Não voltarei. As palavras são o que me resta, não aceito perder a liberdade de as usar incitado pela descoberta, pela dúvida, pelo risco, pela possibilidade de escapar à rotina que nos arrasta de dia em dia sem esperança.