Tuesday, September 23, 2008

O Encontro

Uma mão fechada, em frente a mim, dormitava sobre a mesa. Voltou-se subitamente e abriu os dedos como se me pedisse para lhe ler a palma.
Mas enquanto lhe observava as linhas saltou subitamente e deu-me uma bofetada.
Comecei a chorar.
E essa mesma mão levantou-se e limpou-me as lágrimas do rosto...

Russell Edson, O Espelho Atormentado, OVNI, 2008
Edição bilingue
(Tradução de Guilherme Mendonça)

Sunday, September 21, 2008

Love is like life

She switches off the light and sits down in the rocking chair, and at that moment it strikes her that love is actually like life. You know it's going to end badly, that it's going to end too soon and there is no hope of its lasting, but you go on living all the same.

Ivan Klíma

No dia 7 de Outubro de 1999 comprei Lovers for a Day, um volume de short stories de Ivan Klíma. Em Junho de 2000 comprei Love and Garbage, um romance do mesmo autor. Só agora abri e estou a acabar de ler o primeiro livro e ainda não comecei o segundo (mas vou lê-lo a seguir). Acontece que alguns livros são comprados e nunca serão lidos por quem os compra. Quais serão as razões que nos levam a comprar um livro, certos livros, e não outros? A resposta a esta pergunta teria de incluir várias alíneas: a ideia que temos do autor; o título; a capa; a editora; o tradutor ou a tradutora, o prefaciador ou a prefaciadora; as relações complicadas que se estabelecem na nossa cabeça entre autores, países, títulos, géneros literários; aquilo que sabemos que lêem as pessoas que nos servem de referência positiva ou negativa; circunstâncias da nossa própria vida, presentes ou passadas; etc. Nem quero saber.

Wednesday, September 17, 2008

Fumo

Nos últimos dias consegui fumar apenas metade (ou menos de metade) de meia dúzia de cigarros. Não é fácil, para quem está habituado a fumar mais mesmo sem engolir deliberadamente o fumo. Já entendi por que razão, instruídos pela experiência, hesitamos antes de acender um cigarro ou o apagamos, culpabilizados, antes de ele chegar ao fim: fumar nasce de uma sede ou fome de qualquer coisa de natureza simultaneamente química e espiritual que o tabaco nunca satisfaz; e ainda por cima o tabaco mata. Porque insistimos? Mais uma metáfora simplória daquilo que é a existência: eterna procura, permanente derrota. 

Sunday, September 14, 2008

Invenções

Falar do que não existe é uma bela invenção. Atribuir sentimentos a personagens fictícias é outra bela invenção. Invenções banais nos tempos que correm, temos de reconhecer. Depende sempre do ouvinte ou do leitor: só o que é lido ou ouvido acede à existência. Si le lecteur se sent concerné, alors la fiction ça marche. Construções mentais, tudo. À volta de uma pedra, de um rosto, de uma estátua, de uma sombra, de um fantasma, de um pesadelo, tecemos fios finos da intriga, cruzamo-los. Trabalho modesto de sobrevivência da aranha ou da abelha? A Betty, por exemplo, fui eu que a inventei para me fazer companhia quando me aborreço. Conheço-a e ao que ela sente e sofre como aos dedos das minhas mãos.

Wednesday, September 10, 2008

Estrangeiro

Eu podia olhar, mas agir não. O mundo não estava à minha disposição. Deixava-se olhar, mas não me pertencia. Eu perdera a capacidade de querer, se olhava mais firmemente ou com mais convicção para alguém ou para alguma coisa o mundo irritava-se comigo. Era uma experiência interessante, essa, de se ver recusado pelo mundo. Nada a fazer contra as circunstâncias, porém. Ouvir as conversas no café distraía-me. A minha curiosidade era ilimitada. Mas não podia agir e se a rapariga na mesa ao lado da minha me olhava, eu sentia-me intimidado. Se ela, virada para mim, cruzava as pernas, eu sentia-me intimidado. Preferia não olhar, não ver, não me dar conta. O mundo não me pertencia, eu não podia aproximar-me excessivamente dele sem correr o risco de me ver recusado. Eu evitava olhar as pessoas nos olhos. Era um estranho mundo. Era o mundo para mim naquela tarde. O meu olhar incomodava-o, ele incomodava-me. Para onde ir, onde está o meu mundo, interrogava-me eu. Não sabia. Ficava sentado no café até tarde, indeciso, surpreendido talvez. Esperavam-me em casa, mas era cedo para regressar. Uma vez regressado, eu já não voltaria a sair. Estava, nesse Verão, num mundo que não era o meu, mas era um sentimento que me acompanhava recentemente por onde quer que eu fosse. Eu estava de viagem, é certo. E podia continuar a viajar, bastava-me comprar um bilhete, meter-me no comboio, ir para outra cidade. Mas andar de cidade em cidade não tornava o mundo mais habitável, eu fizera a experiência e sentia-me em todo o lado um estranho e um estrangeiro. Por isso deixava-me estar, ia ao café quase todas as tardes, saboreava um martini branco e fumava um cigarro. Às vezes lia e escrevia num caderno as minhas reflexões.