Thursday, October 23, 2008

Minimalismo, virtudes do

It's been a month since I last saw her. I wonder what she's doing right now.

Hoje seria tecnicamente possível pôr todos os livros que já se escreveram numa base de dados na internet e consultar, segundo o desejo, a curiosidade ou a necessidade, por tópicos, o que lá está. Como se fosse uma enciclopédia ou um diconário. Seria interessante seguir o desenrolar ou suceder das perspectivas sobre determinado tema: o amor, a morte, a ambição, por exemplo. E a perda da inocência com que nos atrevemos a escrever de determinada maneira as nossas "obras literárias" provavelmente reduziria em 50 ou 90 por cento o número de livros publicados.

No entanto, apesar do tédio, é ainda possível, escrevendo pouco e despretensiosamente - "underplaying" - captar a atenção de alguém. Porque será?

Sunday, October 19, 2008

Direitos

Eu nunca os critiquei nem me ri deles por eles, rapazes, gostarem de rapazes. Mas eles sempre acharam excessivo e decadente o meu interesse pelas mulheres. Com que direito?

Friday, October 3, 2008

A fotografia

Estou cansada, não olhe para mim.
O que se vê, sabe ? Sombras, linhas.
Já percebi que os meus olhos
o fascinam. Não tenho culpa.
Eu estou sentada a olhar. Não
a olhar para si, não o conheço,
a fotografia é antiga. Não se
iluda. Nem eu me recordo
já. Ou recordo? Que espera?
Que eu o ame? Que eu o
compreenda? Que eu lhe fale?
Lembra-se da história que eu
lhe contei? Absurda, cruel.
As pessoas, quando se lhes mete
uma obsessão na cabeça, são
imprevisíveis. Já passou. A
fotografia data desse tempo,
provavelmente. Mas vê como
eu estou serena? Só os
meus olhos brilham, eu
nunca renuncio, deve ser
por isso, nem me deixo vencer,
nem convencer, ninguém me
humilhará. Já passou, eu
disse-lhe. E você, como está?
Não olhe para mim dessa maneira.
Não se perca de si mesmo, é
arriscado. Nada dura, sabe?
Nada. E dá trabalho, o amor.
Dá muito trabalho. E depois
perguntamo-nos: mas era amor,
era o amor, realmente? Talvez
não fosse. Os malentendidos
acontecem frequentemente. E os
dias sucedem-se, gastamo-nos
neles, perdemo-nos, vamos
à deriva. Objectivos? Sim,
é preferível ter um projecto
e manter-se fiel à inspiração
que o originou. Eu estava
sentada com um caderno na
minha frente, vê? Mas quem me
tirou a fotografia, quem mereceu
aquele olhar, aquele rosto sério?
Não, você eu nem sequer sabia
ainda da sua existência, só nos
conhecemos mais tarde, não
se iluda. Não se ilude? Eu
sei. É uma maneira de falar,
gosto de advertir as pessoas,
que se acautelem comigo, eu
estou tão ferida por dentro que
já não sei se tenho forças para
prestar atenção a alguém. Para
me interessar por si e pela sua
vida. Nem você espera tanto de
mim, provavelmente. Mas eu
aviso-o por uma questão de
respeito - por si e por mim.
Aliás você também tem um ar
cansado. As fotografias que me
enviou, sobretudo a mais recente,
deixam entrever que não há
paz no seu espírito. Que você
provavelmente está ainda
preocupado com qualquer coisa
que recentemente o atormentou.
Tem dormido bem? Tem a certeza?
Não me quero meter na sua vida,
mas você enviou-me as fotografias.
E sugeriu-me que nenhuma
fotografia pode dar uma ideia da
pessoa que você ou eu somos. De
acordo, não contesto. Mas
porque me disse que eu era
bonita e tinha um ar sossegado?
Gostou de mim? Estou cansada,
divido-me entre mil coisas, falta
uma orientação precisa ao meu
destino. Não que eu esteja perdida,
não é isso. Mas necessito de fazer
a síntese de tudo o que me acontece,
do desejo, da inquietação, sei lá,
a síntese. Para ver com mais
clareza o meu rosto no espelho,
pôr os pés no chão com menos
hesitações, afastar-me com mais
determinação de tudo o que não
me serve para nada. Mas porque
lhe conto isto? Você provavelmente
nem quer saber, estou a aborrecê-lo.
Não olhe para mim dessa maneira,
não se ponha a imaginar-me como
eu não sou. Dê tempo ao tempo.
Talvez um dia nos encontremos,
tomamos um café, conversamos.
Quem sabe? Tudo pode acontecer.
Gosto de falar consigo, já lhe disse.
Tenho prestado atenção à sua
existência. Mas quem sabe
o que é o amor? Ou a amizade?
E porque damos nomes aos
nossos sentimentos, para quê,
em vez de deixar as coisas ser
o que são, acontecer como
acontecem? Eu não quero
histórias, estou cansada de
histórias. Deixar correr,
deixar acontecer, não pensar
excessivamente, furtar-se
às regras que nos impõem.
Sem os nomes que lhes
inventamos o que são os
sentimentos? Ora, não
interessa. O desejo não se
explica, nem o tédio, nem o
desinteresse, nem a decepção.
Olhamos, vemos, sentimos.
É isso. Sem ter palavras para
o que vemos, para o que nos
acontece. Como se não
tivéssemos memória, como
se não soubéssemos falar. Que
interessante podia ser a vida se
nada tivesse nome, se nós
não tivéssemos a capacidade de
querer entender e explicar. Mas
basta, esta carta já vai longa.
Escreva-me, se lhe apetecer.
Talvez eu lhe responda.

(9-6-2007)