Wednesday, March 4, 2009

Reflexões ingénuas sobre a linguagem (IV)



1

Com palavras pode fazer-se tanta coisa. Uma casa. Uma mulher. Um automóvel. Mas é preferível desenhá-los, é mais visível. Se não sabemos desenhar, porém, podemos usar as palavras. A música não serve, é impossível, demasiado vago para o caso. Também nos podemos calar e imaginar o carro, a mulher, a casa. Podemos mesmo acrescentar-lhes o rio e a montanha. É mais simples, demora menos tempo, viajamos mais depressa por universos próximos, distantes, inexistentes. Todos os devaneios nos são permitidos.

Compreendi os meus interesses nesta situação e decidi calar-me. Fiquei sentado a pensar. As palavras intrometiam-se no espaço vazio entre as imagens - e esses espaços deixavam de estar vazios. As palavras eram provavelmente, entre as imagens, como o cimento que liga entre si os tijolos do muro do quintal.


2

Depois tocaram à porta, fui abrir. Os meus pensamentos escaparam-se e eu não fiz esforço para os controlar. Que pensei, no espaço que levava da cadeira à porta? Não sei. Pensei: quem será? Pensei: é ela. Pensei: é o correio. Pensei: a esta hora deve ser algum chato, eu não estou à espera de ninguém. Não era ninguém, de facto. Foi por engano que me bateram à porta, mas obrigaram-me a levantar-me e interromperam os meus pensamentos. A senhora, elegante e com um ramo de flores na mão, sorriu surpreendida, pediu desculpa, foi-se embora. Voltei à cadeira, tentei retomar o devaneio: a casa, a mulher, o automóvel, talvez um rio e uma montanha. Levantei-me bruscamente, fui pôr um CD a tocar. Bill Evans, The Paris Concert. Sentei-me outra vez, fechei os olhos. Não adormeci, fiquei a seguir o discurso da música, a pressentir a frase seguinte (era difícil), a recordar a frase anterior (era mais fácil). A melodia do pensamento. A melodia da música. E a imagem do rio pareceu-me ter sentido. Fluir. A caminho da morte quando pensamos que vamos apenas a caminho de outra vida, mais interessante do que a que temos, do que a vida que até agora tivemos. Eu era o lugar sensível onde se processavam as relações. O meu corpo era uma máquina poderosa cheia de sentimentos imprevisíveis, impossíveis de explicar. Pelo menos cientificamente, com rigor e sem mentir uma única vez. Assim passou a tarde.

Depois escureceu, a noite foi chegando. Saí de casa, fui jantar fora. No restaurante ouvia as pessoas falar, frases descosidas porque as conversas se misturavam e eu próprio não prestava deliberadamente atenção. Banalidades (banalidades porque nada daquilo me dizia verdadeiramente respeito). Às palavras juntavam-se as imagens: rostos com olhos, orelhas e bocas, mãos com dedos que se moviam com intenções diversas ou sem intenção, pernas e pés. Eu ia comendo, solitário, espectador distante da vida alheia e da minha. Que pensariam de mim as pessoas que me viam? Não sei. Alguém me prestou realmente atenção? Não sei, eu estava distraído na minha própria vida de ficção. Ia mastigando, bebendo água, depois finalmente a menina que me tinha servido sempre com um sorriso amável nos lábios (eu não acreditava na sinceridade da simpatia dela, mas não tinha importância) trouxe-me a conta. Paguei e fui-me embora.


3

As minhas tardes, as minhas manhãs, as minhas noites sem história. Tédio, possivelmente. Semanas, dias sem interesse, nada a contar. A vida fluía, eu fluía na vida, mas não havia nada a assinalar. Sim, é certo, se eu estivesse morto não estaria ali, teria deixado de fazer parte da vida; seria já parte do nada definitivo, irremediável, de onde não se volta nunca, onde não reencontraremos Deus nem as pessoas que nos amaram mal ou nós não soubemos amar. Se as reencontrássemos podíamos finalmente corrigir os erros que nos separaram um do outro e ter uma eternidade feliz. Mas os meus devaneios são insensatos. Fiquei longos minutos a pensar nisto enquanto tomava café diante da televisão e senti-me, apesar de tudo, estranhamente, reconfortado. A minha vida era a vida de alguém que não tinha vida, era triste constatá-lo. Mas eu existia ainda e tudo, consequentemente, podia ainda acontecer-me. Regozijei-me secretamente (tudo o que me acontecia era secreto), depois admiti que talvez não houvesse razões para me alegrar. O telefone não tocou nesse instante nem nessa noite. Fiquei mais de uma hora a ver um filme na televisão, apanhei-o a meio e deixei-me estar ali a olhar para as pessoas que iam de automóvel pela auto-estrada, a conversar. Depois chegavam a uma casa no campo, saíam do carro, tiravam as malas do porta-bagagens, abriam a porta da casa e entravam. Era uma casa de dois andares, de madeira. Seria na Noruega ou na Suécia? À volta da casa o chão estava coberto de neve, havia muitas árvores de que eu não sabia o nome e via-se uma montanha ao fundo. Perto, nas traseiras da casa, havia um lago e via-se um barco branco de plástico amarrado num pequeno cais de madeira. O motor do barco estava coberto por um plástico cinzento. Lá dentro, na casa, o casal que chegara de carro estava a pôr lenha na lareira. Riam-se muito enquanto andavam de um lado para o outro e eu senti o prazer que eles tinham em estar juntos. Via-se que se amavam. A madeira começou a arder e eles sentaram-se num sofá de coiro a beber vinho. Tinha sido o homem a ir buscar uma garrafa lá dentro, abrira-a e servira os dois copos. Antes de se sentar beijou a mulher na nuca. Ela sorriu.

Mais tarde, já de noite, a mulher acordou sobressaltada, deu um grito. O homem, atarantado, aproximou a cara da dela e perguntou-lhe:
- Joana, o que é que se passa, minha querida?
Ela entretanto sentara-se na cama e disse que tinha tido um pesadelo.
- O que foi? - repetiu o homem.
Ela estava com a cabeça entre as mãos a soluçar, de vez em quando acariciava-se o peito, duas vezes olhou para o homem como se estivesse aterrada e desviava logo o olhar. Como se ele tivesse alguma coisa a ver com o sonho mas ela não quisesse falar nisso. Como se ele fosse uma ameaça ou um inimigo. Ele pegou-lhe na mão, acariciou-lhe o cabelo com ternura. Ela não reagiu, continuou refugiada na sua dor, aterrada com as imagens do pesadelo. Ele ficou impaciente:
- O que é que se passa, Joana, o que foi, meu amor?
- Nada, não se passa nada – murmurou ela sem levantar a cabeça do peito, sem tirar as mãos da fronte.
O homem levantou-se:
- Vou fazer um chá.
- Não, não é preciso, isto passa – disse ela com voz meio sufocada.
Era uma mulher jovem, devia andar pelos 35 anos. Era bonita. A carne redonda e quente dos seios assomava de lado e ao cimo da camisa de dormir branca.

Percebia-se mais tarde que a mulher não estava segura de amar o homem, provavelmente acabava de compreender que se enganara acerca do que sentia por ele e não devia ter feito a viagem. Mais tarde ainda percebia-se que ela era casada com outro homem, ela referiu-se a ele dizendo “o Óscar pensa que eu fui ver a minha avó à província”. Já iam de novo no carro pela auto-estrada. O homem, que conduzia, franzira o nariz, desinteressado, nem olhara para ela quando ela falara.

O grito e o pesadelo da mulher podiam explicar-se pelo remorso. Ela estava a trair o marido e não era tão insensível à confusão em que se metera como tinha imaginado. Que ideia fora essa, ir passar um fim-de-semana com o amante? Tinha-lhe parecido uma decisão normal, pensava que já não amava o marido. Provavelmente era verdade, ela não o amava. Mas agora já não entendia nada do que lhe estava a acontecer.

Tudo isto, ou pelo menos grande parte disto, eram suposições minhas. Eles iam no carro pela auto-estrada, viam-se desfilar as árvores e as colinas, e o homem disse:
- Tudo se há-de resolver, não te preocupes, tu sabes que eu te amo.
- Sei? Como é que se pode saber uma coisa dessas – respondeu ela, vagamente agressiva.

O homem ia conduzindo o automóvel, mas parecia inquieto. As coisas não tinham corrido como ele imaginara. Ele amava-a e acreditava que tudo se havia de resolver a seu favor. Se não acreditava, pelo menos fazia o possível por acreditar. Concentrava-se na estrada, ia pensativo. Durante muito tempo nenhum deles disse uma única palavra.

A cidade aproximava-se. A mulher continuava muito séria e o homem fazia por se mostrar descontraído. De vez em quando acariciava o cabelo da mulher. Ela não reagia. Quando saíram da auto-estrada a inquietação dele pareceu-me que se tornava mais evidente. Nos últimos quilómetros reduzira um pouco a velocidade, pensei que não lhe apetecia separar-se da mulher, o futuro parecia-lhe incerto, provavelmente. Já dentro da cidade ele parou o carro em frente de um café, ajudou-a a tirar a mala, beijou-a. Era uma malinha pequena com rodas, azul. Ela parecia apressada, desinteressada. Sorriu, mas de maneira pouco convincente. Já estava com a cabeça noutro sítio, noutra realidade, provavelmente. O carro afastou-se, o homem acenou com a mão a dizer adeus. Ela, em vez de se ir logo embora, sentou-se numa mesa do café cá fora e pediu uma bica. Via-se que estava pensativa e preocupada. Depois da bica acendeu um cigarro. Tinham passado uns vinte minutos quando ela se decidiu enfim a voltar a casa. Parou um táxi, deu um endereço, afastou-se.

Em casa estava um homem em calções sentado num sofá (o Óscar, certamente)a ouvir música. Ficou meio surpreendido ao vê-la:
- Pensava que só voltavas amanhã.
Levantou-se e abraçou-a. Ela apertou-o contra o peito, pareceu-me que ele ficou surpreendido. Riu-se:
- O meu amor tinha saudades minhas, voltou mais cedo.
Acariciou-lhe as costas. Beijou-lhe o cabelo. Depois perguntou:
- Como estava a tua avó?
Ela respondeu que a avó estava boa, sempre cheia de energia, mas que falava tanto que ela não tinha tido vontade de ficar duas noites, como tinha previsto. O homem não parecia inquieto nem desconfiado.
- Estou tão cansada – disse ela – vou deitar-me um pouco. Estas viagens de comboio são cansativas. Estou farta de pessoas, de ouvir conversas tolas.
Se ela estava para deixar o marido e ir viver com o outro, nada o deixava pressentir. O homem viu-a afastar-se na direcção do quarto e voltou a sentar-se no sofá a ouvir música. Uma sonata de Chopin, creio.


4


Já não sei se vi o filme da mulher que enganava o marido e estava a pensar deixá-lo (mas parecia ter mudado de ideias ou estar indecisa) ou se inventei a história toda no estado de semi-sonolência em que, cheio de tédio, me encontrava diante da televisão. Que importância é que tem? Nenhuma. Às duas da manhã fui deitar-me, depois de ter desligado a televisão e apagado as luzes da sala. No dia seguinte acordei bem disposto, sentia-me bem. Fiz o meu chá e umas torradas, tomei umas vitaminas, sentei-me no sofá a ler Kant. Critique of Pure Reason. Kant irritava-me. Porque é que eu tinha de me esforçar para entender as palavras que ele usa, a terminologia dele? As classificações dele e a maneira que ele tem de explicar tudo? Mas há quem ache que ele é um génio. Deve ser, eu não digo que não. Quando me cansei de ler (nem sequer acabei o prefácio à segunda edição da obra, que começara a ler havia uma semana), decidi sair. Preciso de apanhar ar, vou ao café, foi o que eu pensei. E fui. Meti-me no carro, levei um caderno, duas canetas, um livro, e fui sentar-me na esplanada de um café não muito longe da minha casa, ao lado do supermercado onde costumo comprar legumes, queijos, pão, café.

Estava frio. De madrugada tinha chovido imenso. Mais tarde a chuva parara e tinha-se visto o sol durante algumas horas, o dia alegrara-se. As pessoas iam passando, eu observava-as. Pus-me a ler uma short story de Tchekov. Era uma história de amor. A maior parte das histórias que se escrevem são histórias de amor porque o amor é o problema mais difícil de resolver na vida das pessoas. Quem é que nos ama realmente? Porque é que o amor acaba, porque é que as pessoas que imaginavam sinceramente que se iam amar até à morte mudam de ideias antes de morrer? Quem é que sabe o que é o amor? Ilusões, deslealdades, amarguras, desencontros. A história de Tchekov falava de um professor ilustre que não se achava nada ilustre. A mulher dele, que ele amara quando ambos eram jovens, tornara-se uma chata. A filha de um amigo que morrera há muito tempo e que ele visita todas as noites, fugindo à megera que tinha em casa, apaixona-se por ele. Ele, que a amava, faz que não se apercebe do amor que ela sente por ele. Quando se encontram pela última vez e ela, desiludida, sem compreender a sua renúncia ou incompreensão, se despede para sempre, ele pensa em perguntar-lhe se ela não tem intenção de ir ao seu funeral. Mas ela deixou de olhar para ele e ele não pergunta nada. Ela afasta-se sem olhar para trás, ele pensa ou murmura “adeus, meu tesoiro!” Não era uma história de amor banal, obrigava-me a reflectir, inspirava-me pensamentos e sentimentos que eu nunca teria conhecido se não estivesse a lê-la. Histórias assim educam-me, ensinam-me o que é a vida.

A dado momento interrompi a leitura, abri um dos cadernos que trouxera e comecei a escrever uma carta. Era, inevitavelmente, uma carta de amor. Não que eu tivesse alguém a quem enviá-la. Não tinha. Mas veio-me a inspiração, a necessidade avassaladora. Se era uma tolice, eu não pude resistir-lhe. Escrevi três páginas inflamadas, cheias de observações e reflexões sobre o misterioso fenómeno do amor paixão. Algumas reflexões eram inteligentes e lúcidas, outras sem grande interesse, sentido ou profundidade. A quem é que eu escrevia? A uma mulher que só existia na minha imaginação, à mulher que eu nunca conhecera. Talvez as mulheres que nós amamos, de qualquer modo, só existam na nossa imaginação. Falei-lhe da importância do amor na minha vida, descrevi dolorosamente a minha frustração por não ter nunca encontrado uma mulher que entendesse o amor como eu o entendia, que praticasse o amor como eu achava que ele devia ser praticado. Prometi-lhe, se ela fizesse o esforço de me prestar uma atenção paciente, uma fidelidade eterna aos seus gestos e palavras mais insignificantes. Para quem está atento, sublinhei, nada do que fazemos ou nos acontece é inútil ou gratuito, tudo está cheio de sentidos profundos. Nós somos preguiçosos e superficiais, somos um desastre, é certo, mas é contra isso, precisamente, que é necessário lutar. Eu luto. Para terminar, senti necessidade de referir que podia acontecer eu não estar à altura do amor tal como o imaginava, tal como o idealizava, tal como o descrevera. Mas garantia-lhe que utilizaria todas as minhas forças para lutar contra a tentação, que podia visitar-me, de a abandonar ou de a trair. Ela, que eu imaginava em sandálias, exibindo os seus belos pés nus, e de uma perfeição de traços fascinante, ouvia-me sem mexer uma pestana, sem virar a cabeça na minha direcção. Olhava pela janela, como se se passasse lá fora qualquer coisa que a fascinava. Mas eu sabia que ela me escutava atentamente, interessada. Não cheguei a terminar a carta, porém, nem a aprofundar a questão como desejava e a súbita inspiração me permitia. Sem querer, entornei o que restava do meu café sobre o caderno. O piparote involuntário fez a chávena despedaçar-se no chão de cimento. Não tive coragem nem paciência para refazer tudo, para recomeçar. Arrumei o livro e o caderno conspurcado na pasta e com um vago sorriso de resignação levantei-me, voltei para casa, de onde pelos vistos nunca devia ter saído.

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